A lição do mérito

A Lição do Mérito

Revista
Veja – 3 de Março de 2010 – Cláudio de Moura Castro

As primeiras experiências brasileiras de premiar os melhores
professores em sala de aula começam a dar resultado – e sinalizam um bom
caminho para tirar nossos alunos das últimas colocações nos rankings mundiais.

                Com 98% das crianças na escola, o Brasil já ombreia com os países mais
desenvolvidos no indicador de quantidade – mas figura até hoje entre os piores
do mundo em qualidade do ensino. Nesse cenário de flagrante atraso, é bem-vinda
a notícia de que um conjunto relevante de colégios públicos brasileiros começa
a implantar sistemas baseados na meritocracia, princípio que ajudou, décadas
atrás, a empurrar países como Coréia do Sul e Finlândia rumo à excelência
acadêmica. O conceito se espelha em prática comum no mundo das empresas
privadas: nas redes de ensino , a ideia é distinguir com base em avaliações, as
boas e más escolas, provendo incentivos financeiros e perspectiva à carreira
para aqueles professores e diretores à frente dos melhores resultados. A adoção
de mecanismos simples para premiar os mais eficientes e talentosos
profissionais em escolas merece atenção por sinalizar, antes de tudo, uma
mudança numa velha mentalidade ainda arraigada na educação brasileira: a de que
todos os professores devem ganhar o mesmo e sempre mais – à revelia do mau
desempenho em sala de aula e também do que mostram as pesquisas científicas.
Uma das mais detalhadas, conduzida pelo economista Eric Hanusshek, da
Universidade Stanford, nos Estados Unidos, conclui: „Sem meritocracia, não há
como atrair as melhores cabeças de um país para a docência”.

                Na educação, os avanços sempre se dão por um conjunto de inovações e políticas – e não por um único fator. Os especialistas concordam, porém, que a implantação da meritocracia numa centena de municípios brasileiros e em estados como SãoPaulo, Minas Gerais e Pernambuco começa a reverter em favor do ensino. Avalia o economista Cláudio Ferraz, à frente de um estudo sobre o assunto no Banco
Mundial: „A adoção desse princípio significa uma mudança de cultura tão radical
na condução de uma escola que, apesar de recente, não é exagero afirmar que já
está beneficiando a sala de aula”. Os números mais novos apontam nessa direção,
obtidos por VEJA com exclusividade, vêm de São Paulo, um dos primeiros no país
a adotar o bônus nas escolas, em 2008. Segundo o Sistema de Avaliação do
Rendimento Escolar do Estado de São Paulo (Saresp), baseado numa prova aplicada
aos estudantes, só no último ano 18% dos alunos da Quarta Série do ensino fundamental foram alçados, em português, do nível insuficiente para o adequado. Aos 9, eles não conseguiam escrever um bilhete, tampouco compreender o sentido de um texto curto (caso ainda de 22% do total). Em matemática, o grupo dos piores – aquele
em que os alunos se paralisam ao tentar resolver um problema envolvendo
operações de soma e subtração – encolheu de 39% para 31%. Os últimos dados em
Minas Gerais apontam para progresso semelhante na sala de aula.

                Bons, porém modestos perto da dimensão do problema a equacionar, os resultados de São Paulo e Minas ajudam a aferir a eficácia de um pacote de boas práticas de gestão que, só agora, passam a ser implantadas em escolas brasileiras. Diz o economista Fernando Veloso, especialista em educação: „Os estados e municípios avançam são justamente aqueles que conseguiram se livrar da velha cultura corporativista e, pouco a pouco, modernizaram a gestão de suas redes de
ensino”. No conjunto das 180.000 escolas públicas brasileiras, estima-se que
20% delas começam a se organizar de acordo com metas acadêmicas, estabelecidas
com base em avaliações, e já são cobradas e premiadas pelo seu bom cumprimento.
É um modelo cuja eficácia foi exaustivamente aferida em outros países e, no
Brasil, já se faz notar no dia a dia de colégios como o estadual Lemon Renault,
de Belo Horizonte. „Sinto pela primeira vez como se estivesse chefiando uma
equipe de uma grande empresa privada, tal é a obsessão na escola em relação aos
resultados”, resume a diretora Maria de Lourdes Fassy, de 50 anos, na função há
quatro.

                A lição das escolas brasileiras que se modernizam lança luz ainda para a eficácia em ater-se ao básico – e não sair em busca de soluções mirabolantes. Nesse
sentido, a experiência reforça a ideia de que poucas medidas têm tanto impacto
na qualidade do ensino quanto a formulação de um bom currículo. Um levantamento
com base em dados da Prova Brasil, aplicada em escolas públicas pelo Ministério
da Educação (MEC), constata que, quando o professor se ancora em roteiros
detalhados sobre o que e como ensinar, as notas sempre sobem. Num país como o
Brasil, onde o nível geral dos professores é baixo, um currículo se torna
imperativo – mas é ainda coisa rara. Apenas seis dos 27 estados contam com um,
e isso é recente. Os efeitos já se fazem sentir, ainda que modestamente. Será
preciso esperar mais para colher frutos de outra frente de iniciativas
promissoras, estas voltadas para melhorar o nível dos professores – o principal
obstáculo ao avanço brasileiro.

                Na rede estadual paulista, criou-se uma escola com o propósito de dar reforço a professores recém-aprovados nos concursos. Antes de assumir o posto, eles serão treinados a lidar com situações reais da sala de aula, o que não aprendem na
faculdade. Os efeitos podem ser imensos. Ao longo de sua vida útil, um único
professor atende cerca de 1.000 alunos. A primeira turma dessa escola de
professores em São Paulo contará com 10.000 profissionais, com chances,
portanto, de ajudar 10 milhões de crianças.

                Desde que o nível de ensino começou a ser medido no Brasil, na década de 90, não houve nenhum avanço relevante. Em certos casos, a qualidade chegou a cair. É verdade que os números pioraram na medida em que mais gente ingressou na
escola, mas esse processo de massificação na sala de aula encerrou-se uma
década atrás, e nem por isso o Brasil deixou a rabeira dos rankings
internacionais de ensino.

                Enquanto os americanos fazem hoje conversões de unidades e se saem bem em problemas matemáticos de razoável complexidade, os brasileiros se atrapalham ao ler as horas num relógio e penam com a multiplicação – um atraso gritante. O que pode
ajudar a mudar isso é o fato de que, pela primeira vez, se vê um razoável
consenso quanto à direção do caminho a percorrer, independente do matiz
ideológico. Na semana passada, a meritocracia na educação, que já foi vista com
imensa resistência no governo Lula, foi defendida pelo ministro Fernando
Haddad: „Ela não desmerece, mas só valoriza os profissionais”. Reconhecer isso
é, no mínimo, um bom começo.

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About tucano

Marcos das Neves "Tucano". Professor há 42 anos, biólogo, sanitarista, especialista em administração escolar, gestão de conteúdo e logística da informação. Pai de quatro filhos e apaixonado pela esposa, família, educação e tecnologia educacional. Idealizador do Colégio Integrado Jaó, do Método Nintai de Sistematização de Conteúdo e, atualmente, Superintendente Executivo de Educação do Estado de Goiás.

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