Acordar ou despertar?

Acordar ou despertar?
Marcos das Neves

            Felizmente, tem-se discutido muito educação no Brasil nos últimos anos. Mas, curiosamente, ainda não vi ninguém tocar em um ponto que não depende de grandes investimentos, apenas de boa vontade e logística. Trata-se do horário de início das aulas. Com 37 anos ensinando, já me acostumei a ver alunos sonolentos nas primeiras aulas, mas não havia me atentado que o prejuízo era ainda maior do que parecia.

            Em países com excelência no ensino, como Finlândia, Canadá, Estados Unidos, Coréia do Sul, Nova Zelândia, Austrália, Alemanha e tantos outros, as aulas geralmente iniciam entre 8h e 8h30. Pesquisas realizadas por conceituadas universidades americanas, israelenses, australiana, japonesas, alemãs e várias outras – que não vou citar para economizar espaço – atestam a importância do sono para crianças e adolescentes.

            Que era importante, todos nós já sabíamos, o que surpreende é o tamanho dessa importância. Não apenas para o desempenho acadêmico, mas também no aspecto emocional e em fenômenos que se julgava não ter nenhuma relação com o número de horas dormidas, como por exemplo, a onda mundial de obesidade, a depressão juvenil e o aumento dos casos de transtornos de déficit de atenção.

            A falta de sono prejudica a capacidade do organismo de retirar glicose da corrente sanguínea, prejudicando, em especial, o córtex pré-frontal. Dentre outras, ele é o responsável pela chamada função executiva e o encadeamento de ideias para atingir um objetivo. Portanto, pessoas cansadas têm dificuldade de controlar seus impulsos e seus objetivos abstratos, como estudar. Sem contar que é durante o sono que o aprendizado do dia anterior se consolida. Quanto mais se aprende durante o dia, maior a necessidade de dormir à noite.

            A Dra. Eve Van Cauter, PHD. e professora da Universidade de Chicaco, é especialista no tratamento de insônia. Ela descobriu o “fio de meada neuroendócrina” que relaciona o sono à obesidade. A falta de sono aumenta o hormônio grelina, que sinaliza a fome e inibe a leptina, que, por sua vez, inibe o apetite. Eleva também o cortisol, que é lipogênico, ou seja, estimula o organismo a produzir gordura. Até o hormônio do crescimento, secretado à noite e fundamental para a quebra de gordura, é afetado. É irônico constatar que a mais sedentária das atividades combate a obesidade.

            Segundo diversas pesquisas, uma hora de sono a mais pela manhã, proporciona um ganho cognitivo de até dois anos de estudo. É um absurdo que não se discuta isso no Brasil com a seriedade que merece. Fala-se muito em escola em período integral, novas grades curriculares e valorização dos professores. Tudo muito importante, mas a simples mudança do horário de início das aulas significaria um ganho cognitivo muito mais significativo.

            Um bom exemplo prático é a próspera cidade de Edina, em Minesota/EUA. Nela, há cinco anos, o horário das High Schools (ensino médio) passou de 7h30 para 8h30. Um ano depois, as notas do SAT (equivalente ao Enem) de matemática e gramática dos alunos da cidade saltaram de 683/605 para 739/761, um considerável ganho de 8% em matemática e 25% em gramática. A única diferença foi uma hora de sono a mais.

            Além disso, poderemos começar a combater o velho e prejudicial hábito do brasileiro de transformar o almoço na principal refeição do dia. Ora bolas, em um país tropical, isso é, no mínimo, um paradoxo embora arraigado em nossa cultura. O café da manhã e o jantar deveriam ser as principais refeições, ficando o almoço para um lanche reforçado. Acordamos depois de 8 horas em jejum e engolimos, quando dá tempo, café com pão e manteiga. Depois saímos para enfrentar a fase mais produtiva do dia.

            Causaria transtornos? Claro que sim. O primeiro deles seria, com mais tempo, reforçar o café da manhã e transformar o almoço em um lanche e retornar para casa entre às 16h e 17h39. Transtorno? Em um país tropical, isso me parece bom senso. E os ganhos? O primeiro seria no trânsito de nossas grandes cidades e o segundo, além dos já citados, o aumento de cinco para sete horas/aula diárias (olha o ensino em tempo integral aí).

            Já ouvi dezenas de argumentos contra este novo horário, todos atendendo os interesses dos adultos e listando problemas causados pela incompetência deles próprios, como segurança e transporte urbano. Nunca ouvi nenhum levando em consideração a aprendizagem e a qualidade de vida de nossas crianças e adolescentes. Eles continuam sendo acordados todos os dias quando deveriam, de maneira saudável, despertar. Tudo isso para atender aos interesses, e pela já citada incompetência, de nós adultos. Se dá certo no resto do mundo, com serviços e comércio se adaptando , por que motivo não daria aqui? Aliás, bancos e shoppings já sabem disso faz tempo.

Ps: Como, pela Lei de Murphy, nada está tão ruim que não possa piorar, vem aí o famigerado horário de verão.

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About tucano

Marcos das Neves "Tucano". Professor há 42 anos, biólogo, sanitarista, especialista em administração escolar, gestão de conteúdo e logística da informação. Pai de quatro filhos e apaixonado pela esposa, família, educação e tecnologia educacional. Idealizador do Colégio Integrado Jaó, do Método Nintai de Sistematização de Conteúdo e, atualmente, Superintendente Executivo de Educação do Estado de Goiás.

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