Opiniao em debate

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Reaprender a estudar

Reaprender a estudar (Publicação da Fapesp)

Pesquisa reabilita memorização no ensino – Por Marcos Flamínio

A angústia de fim de ano por que passa a maior parte dos alunos e vestibulandos, que se queixam de que a matéria “não entra” na cabeça, pode decorrer de uma escolha de método de estudo não tão eficaz. É o que sugere uma pesquisa da Universidade Purdue, publicada no periódico Science em fins de janeiro, que reabilita o papel da memorização nos processos de aprendizagem.
“O aprendizado tem a ver com a recuperação de informações [tradução aproximada para o substantivo inglês ‘retrieving’]”, afirma Jeffrey Karpicke, coordenador da pesquisa e professor no Departamento de Ciências Psicológicas da instituição norte-americana.

No experimento, dividido em duas etapas, Karpicke e sua assistente, Janell Blunt, reuniram 200 alunos para estudarem tópicos de textos previamente escolhidos de várias áreas da ciência. Eles foram separados em dois grupos distintos, de acordo com o método de treinamento adotado.
Um deles usou como estratégia de aprendizado a elaboração de sofisticados mapas conceituais – diagramas que ilustram as relações entre as ideias no interior de um dado texto. O outro lançou mão apenas de exercícios de memorização: após lerem os mesmos materiais oferecidos ao primeiro grupo, eles os deixavam de lado e tentavam se lembrar dos conceitos ali explicados.

Nessa primeira etapa da pesquisa, ambos retiveram aproximadamente a mesma quantidade de informação, segun­do Karpicke. O ponto de virada ocorreria uma semana mais tarde, quando os dois grupos foram submetidos a testes para avaliar o grau de conhecimento e de assimilação dos conceitos que haviam estudado. Aqueles que se serviram de exercícios de memorização como estratégia de estudo apresentaram desempenho 50% superior, em média, aos alunos que utilizaram mapas conceituais. 
Karpicke ressalta que, nessa segunda fase da pesquisa, os estudantes responderam perguntas não apenas sobre conceitos específicos presentes nos textos lidos uma semana antes, mas também tiveram que realizar conexões entre conceitos e ideias que não estavam explicitamente mencionados ali. Nos dois casos, a performance do grupo que fez exercícios de memorização foi superior à do outro.

Os resultados surpreendentes inspiraram a Karpicke o nome de sua pesquisa, publicada na Science: “Retrieval practice produces more learning than elaborative studying with concept mapping” [A prática de recuperação de informações produz mais aprendizado do que os estudos elaborativos com mapas conceituais].

Ele é taxativo ao avaliar os resultados do experimento que coordenou, financiado pela Divisão de Educação na Graduação da Fundação Nacional para a Ciência, dos Estados Unidos: “A pesquisa mostra que a prática de recuperação de informações como método de estudo é crucial para o aprendizado”.

Surpresa – Cristiane Gottschalk, professora da Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo (USP), não se diz surpresa com as conclusões desse estudo. Ela lembra que estudos na área de filosofia da linguagem chegaram a conclusão parecida já nos anos 50 e 60 do século passado.
Autores como Gilbert Ryle (1900-76) e Israel Scheffler (1923) haviam demonstrado, afirma, que “a memorização de certos saberes proposicionais é condição de aprendizado dos demais. E essa memorização, se bem exercitada, é o que possibilita operar com essas informações”.

Os dois tomaram como ponto de partida a distinção feita pelo filósofo austríaco Ludwig Wittgenstein (1889-1951) entre “saber que” e “saber como”, isto é, entre um saber normativo – que é aceito – e um saber descritivo – que é aprendido.
Cristiane exemplifica essas duas formulações com uma das operações cognitivas mais básicas da matemática. “Quando uma criança memoriza que ‘dois mais dois é igual a quatro’, ela está pondo em prática uma função normativa.” Será a partir do treino e da memorização desta e de outras operações de soma que a criança será capaz de aprender situações empíricas, como deduzir que dois pares de sapatos são quatro sapatos – esta sim uma proposição descritiva, com sentido. “Assim”, conclui, “memorizar determinados conteúdos transcende a mera repetição, pois é no exercício dessa informação que o “saber como” vai sendo dominado pelo aluno, mesmo que este não seja transmitido explicitamente”.

Os resultados da pesquisa de Karpicke remetem a um antigo debate envolvendo estratégias de aprendizado, que têm sua origem no final do século XIX. Até então, a memória havia exercido papel crucial no ensino, desde a Antiguidade, passando pela Idade Média até chegar à Era Moderna. 
Contrapondo-se a essa perspectiva, surgiu a Escola Nova, que passou a criticar duramente o que se convencionou chamar, a partir de então, de “pedagogia tradicional”. Nesta, segundo os escolanovistas, o aluno era submetido ao conhecimento de um professor autoritário, o que acabava por resultar em alunos submissos, conformados e, logo, propensos a perpetuar o status quo. Isso tinha a ver com a ascensão do movimento romântico, segundo o qual a sociedade está em constante transformação. Por contraste, o passado e, portanto, a memória perdem importância. 

“A palavra de ordem para se contrapor à memorização passa a ser o desenvolvimento da criatividade no aluno, para que não houvesse a imposição de conhecimentos ‘petrificados’”, afirma a docente da USP.
Ao longo do século XX se desenvolveriam várias derivações da Escola Nova, as mais famosas delas a pedagogia das competências e o construtivismo. No Brasil, em maior ou menor grau, elas foram incorporadas aos Parâmetros Curriculares Nacionais (1997), que orientam o sistema público de educação. Para Cristiane, isso acabou por supervalorizar a noção de que a criança deve construir seu próprio conhecimento a partir de sua própria experiência – de fato, única.

Dermeval Saviani, pedagogo e professor emérito da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), criou a expressão “teoria da curvatura da vara” para explicar esse fenômeno. Se o ensino tradicional superdimensionou a memória e passou a tratá-la de forma mecânica, “a Escola Nova curvou a vara para o outro lado, colocando o foco na imaginação e na criatividade, como se essas funções pudessem se desenvolver de forma pura, de modo espontâneo, sem se basear nas percepções e conhecimentos anteriores”.

O próprio Karpicke, apesar dos resultados de seu estudo, não descarta o ensino baseado na construção de mapas conceituais. Contudo, ele insiste que é preciso “descobrir modos mais efetivos e práticos para usar o retrieval no processo de aprendizagem”.
A psicóloga Rosely Sayão, com muitos anos de janela no aconselhamento de pais e educadores no que diz respeito ao ensino de crianças e adolescentes, pondera que “talvez seja melhor o professor agir e ensinar de acordo com o método com o qual se sente melhor – seja ele tradicional ou não”.
Assim como o docente da Universidade Purdue, ela não descarta outras formas de aprendizado; mas é incisiva: “Hoje todo mundo fala em construtivismo, só que o professor não tem tempo para estudar e descobrir exatamente o que ele significa”.

Enem e vestibular – Essa polarização entre métodos de ensino interfere na formulação de vestibulares e, sobretudo, do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem)? “Sim, o equívoco em valorizar o ‘saber como’ em detrimento do ‘saber que’ está presente nos atuais vestibulares, em especial naqueles que seguem o formato do Enem”, avalia Cristiane. 

É possível que estudos como o coor­denado por Karpicke possam vir a alterar o modo como esses exames são concebidos? “Não creio que ocorram alterações profundas, porque esses exames já vêm passando por processos de revisão”, diz Saviani. Porém, caso aconteçam, “espero que não promovam o retorno às formas mecânicas de tratamento da memória”, conclui o professor Saviani.
Uma tal reorientação pedagógica também poderia afetar a indústria editorial, que todo ano lança no mercado grandes variedades de “métodos” de ensino? “Sem dúvida! Boa parte deles, se não todos, teria que ser reescrita… O que essa pesquisa da Universidade Purdue faz voltar à tela é a função crucial, para o processo de aprendizado, dos saberes de natureza convencional”, diz Cristiane.
Mas não há o risco de a “vara” encurvar para o outro lado e formar alunos passivos? Ao contrário, ela diz, “estaremos dando condições de aprendizado para que eles possam inclusive criticar e modificar o que foi aprendido”.

Já Saviani pensa que a indústria editorial se ajustaria rapidamente às novas diretrizes. “Em lugar do apelo às novidades, que é muito forte nos livros didáticos publicados atualmente, pode ocorrer que o estudo em referência motive o aparecimento de textos mais substantivos.”
A investigação de Karpicke tomou como matéria-prima apenas o estudo de conceitos científicos. Mas seria possível estender suas conclusões a outras áreas do saber, como as humanidades? Cristiane, que possui graduação e mestrado em matemática aplicada, não tem dúvida de que a resposta é sim. “Há um conjunto de saberes em cada área do conhecimento que é ‘condição de sentido’ para os outros saberes. E isso acontece não só nas ciências empíricas, mas em todas as áreas de conhecimento.”
Bem, como o período de vestibulares ainda está longe, talvez haja tempo de refletir sobre que método de aprendizado adotar.

http://revistapesquisa.fapesp.br/?art=4375&bd=1&pg=2&lg=

Técnicas para lecionar

Paula Louzano: “São propostas didáticas, não pedagógicas, mas no Brasil esses conceitos são misturados”.

 

 

 

Técnicas para lecionar

Consultora e revisora técnica do livro Aula Nota 10, de Doug Lemov, a educadora Paula Louzano explica como o autor construiu a obra e por que enfatiza a didática, o aproveitamento de tempo e o planejamento da aula.

 

Diretor executivo da organização não governamental norte-americana Uncommons Schools, responsável pela supervisão de escolas em bairros pobres no Estado de Nova York, Doug Lemov observou durante seis anos, professores cujos alunos tinham dentro e fora da vida escolar. Ele identificou as práticas didáticas e tipificou 49 técnicas, organizadas de acordo com os objetivos de aula: aumentar as expectativas acadêmicas, planejar para garantir um bom desempenho, estruturação da aula, motivação, estabelecer uma cultura escolar, trabalhar com expectativas de comportamento e construir valores. Lemov também tipificou técnicas de ritmo e organização da aula e completou com recomendações sobre a ensino da leitura como habilidade fundamental para o aluno aprender. O resultado é uma espécie de catálogo de boas práticas didáticas que, segundo o autor, melhoram o desempenho dos alunos prejudicados pelas condições sociais que herdaram.

                O livro foi lançado no Brasil em dezembro do ano passado, pela parceria entre a Fundação Lemann e a Editora Da Boa Prova, com o titulo Aula Nota 10 – 49 técnicas para se um professor campeão de audiência. Segundo a pedagoga Paula Louzano, consultora e revisora técnica da edição em português (ao lado de Guiomar Namo de Mello), Lemov despertou desconfiança de acadêmicos, mas ela garante: independentemente de filiação teórico-metodológica ou ideológica, as técnicas funcionam.

                Na entrevista exclusiva à Profissão Mestre, Paula, que também é consultora da Fundação Lemann, tem doutorado em Política Educacional pela Universidade de Harvard e mestrado em Educação Internacional Comparada pela Universidade de Stanford, explica os porquês do autor e especificidades para uso das técnicas nas salas de aulas brasileiras.

                Profissão Mestre: O trabalho de adaptação do livro ao publico brasileiro considerou diferença curricular e organização escolar?

                Paula Louzano: No geral são técnicas de manejo de sala, gerenciamento da aula e relação professor-aluno que independem do conteúdo, da organização escolar ou do currículo. O único momento em que o autor trata de conteúdo específico é na parte 2 do livro, com o tema da leitura, com forte referência à organização escolar dos Estados Unidos e ao seu currículo. A idéia de que a leitura está dividida entre decodificação, fluência e compreensão é muito forte nos Estados Unidos. Contudo, no conteúdo, ele dá exemplos de fonética e de como ensinar as crianças e decodificarem uma palavra. Tivemos que adaptar os exemplos ao português, após consultar professores de língua Portuguesa sobre quais são os problemas mais comuns de pronuncia, e colocamos uma nota no rodapé. Mas esse tipo de adaptação foi raro.

                Todas as técnicas independem da preferência pedagógica, como o autor defende?

                O Lemov não discute a metodologia específica de ensino de algo, antes acredita que, com qualquer metodologia, o professor tem de planejar e estruturar a aula. Sugere, inclusive, na técnica 10 – planeja em dobro -, que não se deve apenas pensar no que o docente fará em sala, mas também em como os alunos reagirão. Ao planejar em dobro, se tem um controle maior do tempo necessário para ensinar o que se propôs, com o método que se julga melhor. Ao ensinar soma de fração, por exemplo, pode-se prever que os alunos provavelmente acreditarão que basta somar numerador com numerador e denominador com denominador. Partindo do princípio de que seus alunos pensarão desse modo, pode-se prever como responder. Outro exemplo simples e interessante é a técnica Faça o Mapa, em que o professor deve ter o controle do espaço, com circulação livre, e não ter que pedir licença para chegar a qualquer lugar da sala de aula, seja em atividades individuais ou em grupo. É importante o docente circular por toda a sala para ver o que o aluno está fazendo, conversar com ele, sem interromper a aula ou o resto da turma. Isso é algo que independe da filiação pedagógica. Muito professores já devem fazer isso intuitivamente, mas é algo que não está disseminado. É um tipo de saber pouco valorizado, em especial academicamente, como se fosse algo menor. Nos Estados Unidos, a academia não recebeu bem esse livro. Contudo, o autor não tem pretensão acadêmica com essa obra e acha que é bom simplesmente porque funciona.

                O autor faz uma analogia do professor como o artesão antes do artista, como Michelangelo que, antes de esculpir a estátua de Davi, precisou dominar o cinzel, o martelo e a lixa.

                Uma aula, assim como uma escultura, não é algo que o individuo nasce sabendo fazer, depende de técnicas. É um erro acreditar que Michelangelo esculpiu Davi apenas porque era brilhante, e esquecer-se do seu domínio sobre o cinzel. Ele também dá o exemplo de Picasso, que quando criança rabiscava formas básicas, que antes de chegar ao abstrato teve de aprender a fazer nariz e boca, como todos os outros. Nós, da área de educação, temos a mania de desprezar o que se associa à técnica, com a tendência de achar que alguém se tornou um bom professor apenas por conta de pesquisa, entendimento de grandes temas da educação e inteligência, não porque aprimorou técnicas simples ao longo dos anos.

                Algumas técnicas primam muito pelo aproveitamento do período da aula, no sentido de aproveitar o máximo possível do tempo. Por quê?

                A idéia da eficiência está muito mais presente nos Estados Unidos do que na sociedade brasileira. Num primeiro momento, Lemov é chocante, parece quase louco, mas quando você entende para quem ele escreveu, que são professores de crianças pobres, que estudam em um sistema segregado, com escolas mais fracas para crianças pobres, fica fácil de entender. Para o Lemov, o professor que está com os alunos mais vulneráveis tem uma responsabilidade maior, pois existe uma diferença nas oportunidades educacionais condicionadas pelas localidades e famílias em que os alunos nasceram. Por isso não se pode perder tempo. É como se você dissesse ao aluno: “A largada já foi dada, a gente nem começou a correr ainda e as crianças ricas já estão lá na frente. Você não têm sequer um par de tênis. Como vamos alcançá-los?”. Essa obsessão pelo tempo é um reflexo do compromisso do autor com as crianças mais pobres dos Estados Unidos. Não acho que devemos pegar um cronômetro e controlar o tempo, como ele chega a sugerir, mas concordo que o professor não pode atender ao celular em sala, chegar dez minutos atrasado, terminar a aula antes, bater papo com a diretora na porta. Não é justo com as crianças mais pobres que elas recebam menos educação.

                O autor enfatiza o estabelecimento da autoridade do professor com as técnicas. Aqui no Brasil, principalmente na escola pública, essa não é uma questão bem definida. Como usar tais técnicas?

                Os mesmos problemas que as escolas públicas de periferia têm no Brasil, as dos bairros pobres dos Estados Unidos também têm. Algumas chegam a instalar detectores de metais. Mas por que nas instituições para crianças pobres de lá e muitas daqui se consegue minimizar os problemas externos e obter bons resultados? O Lemov defende a necessidade de se criar uma cultura escolar voltada para o aprendizado, algo que aqui foi de alguma forma esquecido. Esse processo passa pela autoridade do diretor, do professor e depende do envolvimento de toda a equipe escolar. Quanto mais você vai para a periferia, maior o pensamento de que aqueles alunos não têm jeito. Assim você pega uma criança vulnerável, com a provável sensação de que o mundo não foi feito para ela, mas exclusivamente para as pessoas mais privilegiadas. Se na escola ela aprende que não tem chance, vai aprender como?  Não existe o que o professor sozinho possa fazer. A expectativa sobre o desempenho das pessoas é muito importante, o ser humano responde a isso.

                Então não se trata apenas de uma questão didática?

                Não adianta um professor exigir coisas que nenhum outro está fazendo, senão ele fica isolado e vira um chato. Boa parte das técnicas é de controle de sala de aula, mas outras tratam de valores, autoconfiança, expectativas e cultura escolar. Pode parecer que o autor é rígido, mas a idéia é ser respeitoso com o aluno, pois a escola é lugar de aprender, fazer o melhor possível, docentes e discentes. A autoridade não se adquire com rigor, mas com cordialidade e sendo generoso. Você deve convencer os alunos de que está com eles, não é uma autoridade pela autoridade; mas que quer ajudar.

                Algumas técnicas se baseiam em obter respostas do que é certo ou errado. Como usar as técnicas em disciplinas reflexivas?

                O autor não fala do certo e do errado em um sentido rígido. Em vez de uma resposta objetiva, o professor pode pedir uma opinião do aluno e depois solicitar para que ele encontre no texto uma passagem sobre o que acabou de dizer. Na técnica Puxe Mais, por exemplo, ele sugere transformar mais perguntas em um prêmio para os melhores alunos. Há salas em que os alunos se desengajam totalmente e o professor acaba dando atenção para um grupo reduzido e ainda exigindo pouco. Corre-se o risco de os alunos melhores se sentirem pouco desafiados. A técnica ajuda a trabalhar todos os níveis, exigindo de todos os alunos, sem que eles se sintam humilhados de qualquer forma que seja. A proposta central do livro é que, em sala de aula, todo mundo deve aprender e cabe ao professor garantir isso; esse é seu trabalho.

                O Lemov também enfatiza a melhora do desempenho social do aluno, dentro do sistema formal americano. Como fica o emprego dessas técnicas na realidade brasileira?

                Acho que devemos pensar do ponto de vista do aluno. Muitas vezes, o debate no Brasil é feito a parir de idéias e de grupo de interesse, como o empresariado, o fornecedores e a corporação “professor”. O nome original do livro é Ensine como um campeão: 49 técnicas para colocar os seus alunos no caminho da universidade. Nos Estados Unidos está claro que parte importante do objetivo da educação é garantir ao aluno escolher a sua formação futura, o que significa cursar o nível superior. Para tanto existe um caminho trilhado com ajuda da escola. A nossa escola pública, na prática, nega esse acesso. Conheci um jovem de Diadema, na década de 1990, que sonhava em estudar arquitetura. Era muito inteligente, mas também muito pobre e não teve aulas suficientes para garantir um bom desempenho no vestibular. Não é justo que o sistema educacional faça isso com as crianças mais pobres. Quando a gente faz o debate a partir do aluno, muda a perspectiva. Para garantir oportunidades iguais, todos devem aprender o currículo mínimo estabelecido pela sociedade. Se o currículo é certo ou não, o debate é outro. Não se pode negar a uma parcela da sociedade que ela se aproprie desse conhecimento simplesmente por razões ideológicas, financeiras e estruturais. Esse debate nos Estados Unidos está mais resolvido. Aqui, ela não avançará enquanto não pensarmos no aluno e no seu direito de aprender. O papel da escola não é apenas ensinar Matemática e Língua Portuguesa. Com o crescimento das avaliações externas, disciplinas são enfatizadas e, em muitos casos, se esquecem das outras coisas, mas elas também têm de fazer parte. Criamos falsas dicotomias no debate educacional que de fato não existem. Nesse sentido, o Lemov é muito progressista, é “um mundo de cabeça para baixo”. Pode-se discordar dele pontualmente, mas não se pode negar que ele está preocupado com uma classe social nos Estados Unidos e em fazer com que ela tenha as mesmas oportunidades das outras. A proposta é legítima. Acredito que a maioria dessas técnicas conduza a tal resultado. Algumas podem não caber em nossa cultura, mas devemos nos lembrar de que o livro é de sugestões, não um manual.

                Você acredita que haverá coordenadores e diretores encantados com o livro e que poderão impor o seu uso aos professores como manual?

                Pode ser, mas o uso das técnicas do Lemov é mais uma questão de paradigma, não algo que funcione “de cima para baixo”. Claro que se pode ter uma liderança na escola, um diretor ou coordenador pedagógico que, ao acreditar na proposta, tente convencer os professores a introduzir algumas coisas. Não é para o docente mudar suas convicções e esperamos que o livro não se torne um debate ideológico, tampouco um manual. Ela traz de volta a idéia de que a didática é importante e foi abandonada, que é algo aprendido. Uma professora de Fundamental II me contou que sempre coloca os objetivos da aula no quadro, de preferência com tempos determinados para o aluno compreender o que vai aprender. Ela copiou o que fazem alguns de seus amigos que dão aulas no infantil, onde é muito mais forte a questão da rotina para a criança se adaptar à rotina escolar. É algo que não se ensina na faculdade ou nos cursos de formação de professores. Se procurarmos Brasil a fora como Lemov fez nos Estados Unidos, encontraremos práticas muito parecidas.

                Algumas técnicas são sistemáticas e instintivas?

                Ouvi muito que Lemov quer criar robozinhos. Aí você vê que algumas técnicas são para que o professor fale cada vez menos e o aluno cada vez mais. Ele estrutura em etapas: primeiro eu, professor, faço; depois nós fazemos, em seguida, você, aluno, faz. Formar uma pessoa crítica e ter uma aula bem estruturada não são aspectos dicotômicos ou excludentes. Uma aula reflexiva no Brasil geralmente é quando o professor dá um texto para leitura e pergunta se alguém leu e o que a turma achou. Uma aula reflexiva também pode ter várias perguntas preparadas, mesmo objetivas, desde que sejam respondidas e fundamentadas. O Lemov defende planejar o que se pergunta com base em objetivos, sem deixar solto. É o princípio, por exemplo, da técnica seis, Comece Pelo Fim, em que o professor deve planejar todo o seu curso a partir do que pedirá na avaliação, elaborada com base no que os alunos deverão ter aprendido até o final do curso. A partir daí é que se estruturam as atividades, não o contrário. O livro traz propostas didáticas, não pedagógicas, mas no Brasil esses conceitos estão misturados. O Lemov corre o risco de ser considerado alguém que quer formar “bitolados” e considera o professor um mero transmissor de conteúdo.

Afinal, a Decoreba Funciona?

Época Negócios – Inteligência – Março de 2011

Pesquisas apontam caminhos que, no futuro, podem alterar radicalmente a forma como estudamos e guardamos informações.

                Há muito os educadores discutem qual seria a melhor forma de aprender: a elaboração de conceitos ou as técnicas de memorização? Em busca de uma resposta, a edição de janeiro da revista Science indica que, no futuro, é provável que a pedagogia empreenda algumas mudanças nos métodos de aprendizado. Segundo um estudo divulgado na publicação, estudantes estimulados a ler textos, resgatar e reconstruir o conhecimento em intervalos regulares obtêm melhores resultados do que os colegas que recorrem à criação de mapas conceituais – aqueles diagramas em os “nós” representam conceitos e as conexões entre esses “nós” simbolizam a relação entre os conceitos.

                Para confrontar as duas técnicas, os pesquisadores da americana Purdue University realizaram um experimento em que 200 alunos estudaram textos de diferentes disciplinas cientificas. Na primeira prova, próxima das seções de estudo, não houve diferença significativa no resultado. No entanto, uma semana depois, quando se mediu o sucesso na retenção no médio prazo, o grupo que se valeu de técnicas de resgate regular de informações colheu resultados 50% melhores do que seus colegas. As avaliações incluíam tanto perguntas literais, cuja informação estava diretamente no texto, quanto questões que requeriam interpretações.

                De acordo com os autores do estudo, Jeffrey D. Karpicke e Janell R. Blunt, atualmente há uma tendência entre os pedagogos no sentido de encontrar práticas baseadas no “estudo elaborado” em detrimento da velha e boa releitura. Os maiores interessados no assunto estão no mesmo barco. Karpicke e Blunt dizem que os próprios estudantes, antes que vissem o que diz a pesquisa, avaliaram que a primeira técnica seria mais eficiente para solidificar o aprendizado.

                Para os pesquisadores, a prática do resgate das informações sugere uma nova visão de como a mente funciona. “O resgate não é apenas uma leitura do conhecimento estocado na mente – o ato em si de reconstrução do conhecimento aumenta o aprendizado. Esta perspectiva da dinâmica da mente humana pode pavimentar uma via para o desenho de novas atividades educacionais”, afirmaram, no artigo que ganhou as páginas da Science.

                Estendendo o horizonte da discussão, alguns cientistas já estão estudando como seria o aprendizado em um muno sem textos. O futurólogo William Crossman supõe que, em 2050, a palavra escrita vai ser uma tecnologia obsoleta e, acredite se quiser, cairá em desuso como forma de armazenar conhecimento. A interação com computadores que respondem a comandos de voz e o avanço da iconografia terão chegado a tal ponto que não se ensinará mais os alunos a ler e escrever, diz ele. Todo o conhecimento e as informações do dia a dia virão desses repositórios interativos e inteligentes de informação.

                Em seu livro VIVO (Voice-in/Voice-out): The coming Age of Talking Computer (algo como “A nova era dos computadores que falam”), Crosman chega a descrever com detalhes como seria um dia normal na vida de uma família embebida dessa cultura oral. Desde o despertar até o final do dia, as atividades de uma mãe e seus dois filhos em idade escolar são realizadas sem nenhum contato com a informação escrita.

                É uma alegoria do futuro, como várias que vimos no passado. Algumas se configuram e outras não. Mas vale a pergunta: será mesmo possível aprender com profundidade sem o distanciamento e a introspecção que a leitura exige? Ou essa questão é apenas fruto de nossa tendência de nos apegar ao que já conhecemos?  

Adolescentes na Era Digital

Lidia Rosenberg Arantangy

A LÍNGUA DA TRIBO

            Só pode ser outra língua: “Veja meu blog”, “vou twittar hoje de tarde”, “preciso googlar esse cara”, “encontrei no Facebook”…

            Alguns pais ficam perplexos quando ouvem esse tipo de conversa, não conseguem entender esse idioma novo. Sentem-se perdidos diante da adolescência de hoje, tão distantes de antes, quando eles eram filhos. Parece que tudo o que valia em termos de educação já não serve para nada. Como acompanhar e entender o alcance da nova tecnologia que abre as portas do universo que nem a mais desvairada fantasia do passado era capaz de criar? A liberdade sem limites, as redes de relacionamento que expõem a intimidade de todos, numa promiscuidade despudorada ….. Aonde tudo isso vai nos levar?

            Como atuar diante da força avassaladora do bullying, que devasta reputações e destrói amizades, como reagir diante de valores e princípios esgarçados? O que está acontecendo? Onde foi que perdemos o rumo da pacata vidinha de antanho? Será possível encontrar o caminho de volta?

            Ouço perguntas todos os dias, feitas por pais e mães de adolescentes em constante sobressalto, angustiados e impotentes para impedir o afastamento de seus filhos mutantes. Fatores os mais diversos são chamados para explicar essa distância: perda da autoridade paterna, novas tecnologias que dificultam o diálogo entre gerações, desesperança dos jovens diante do descalabro da vida pública e da falta de caráter dos políticos. Felizes eram os pais desses pais, que enfrentavam questões muito mais simples e dispunham de um poder muito maior.

            Para desencalacrar essa situação, não adianta apelar para saudosismo e tentar restaurar uma condição do passado que, vista daqui, parece ter sido melhor que a atual. O passado não tem volta – e ainda que tivesse já nãos nos vestiria bem. E será verdadeira essa imagem da geração passada? Os adolescentes de hoje são mesmo mais difíceis do que os adolescentes que seus pais (e seus avós) foram?

            A memória é falaciosa, faz cortes e recortes para dar às lembranças do passado o aspecto que nos apraz no presente. Afinal, valores e princípios são esgarçados em todas as gerações, para serem cerzidos em seguida, depois de passar pelo crivo imposto pelsa conquistas sociais e cientificas. Não fosse assim e ainda consideraríamos a escravidão um fato normal e corriqueiro, mulheres separadas ainda seriam marginalizadas, homossexuais estariam condenados à hipocrisia. E se é verdade que a internet deu ao bullying uma violência e um alcance infinitamente maiores do que as inscrições nas portas dos banheiros da escola, o principio era o mesmo. O desrespeito e a violência feriam os mesmos valores que queremos resgatar agora.

            A educação de hoje talvez nos pareça mais complicada que a do passado simplesmente por ser a de hoje. Cada geração tem de enfrentar desafios de sua época. Este é o momento que nos tocou viver no Planeta Azul; é para fazer frente aos problemas desse tempo que temos de preparar nosso arsenal. É com os jovens de hoje que nos cabe dialogar, são eles os que a vida colocou em nossas mãos com a tarefa de prepara-los para construir um mundo mais justo e menos violento.

            E para chegar a eles não há outro caminho a não ser conhecê-los melhor, tecer com eles uma intimidade mais verdadeira do que a que ligava pais e filhos de gerações passadas. Só assim será possível construir e preservar um vínculo pautado na confiança mútua, livre dos funestos nós da culpa e do medo, que paralisam a ação e impedem a reparação.

            Este estudo pretende ajudar os adultos que lidam com jovens a resgatar esse olhar e essa escuta, partindo da convicção de que é o desconhecimento do outro que leva ao estranhamento, e de que este gera a desconfiança. Conhecer melhor o adolescente lembrar-se das próprias angústias e inseguranças durante essa fase é o caminho que proponho para essa aproximação.

            As perguntas que abrem cada assunto são um convite ao leitor para que mergulhe nas lembranças de sua adolescência e de lá traga um olhar mais solidário para encarar a adolescência do filho, agora que eestá do outro lado do balcão.

 

ADOLESCENTE DE HOJE

Qual a melhor lembrança que vocês traz de sua adolescência? E a pior?

 

            Sempre me pareceu estranho ter de explicar o adolescente para pais e professores. Afinal, ninguém chega a ser pai ou professor sem ter passado pela própria adolescência. Então, por que seria preciso alguém lhes contar o que acontece nessa etapa do desenvolvimento? A memória não basta? Ou seriam os adolescentes de hoje tão diferentes de seus coetâneos de gerações passadas que a memória dos pais, avós e professores não é o suficiente para entendê-los?

            Há, de fato, diferenças significativas entre a adolescência de hoje e a da geração anterior. Afinal o mundo está diferente, os avanços da tecnologia provocaram mudanças importantes nos relacionamentos. Mas isso não é prerrogativa deste momento específico da história da humanidade. Todas as gerações enfrentaram as transformações do seu tempo e é difícil comparar o impacto dessas mudanças entre elas. A geração que viveu na primeira metade do século XX, por exemplo, passou por duas guerras mundiais. Como comparar o impacto desses acontecimentos com o provocado pela internet sobre a geração do começo do século XXI? Serão os adolescentes desse século tão diferentes dos jovens do século anterior a ponto de os pais de hoje não se reconhecerem em seus filhos?

            É verdade que o fato deles estarem multiplugados (isso é, se ligarem simultaneamente a vários canais como internet, celular, ipod etc) assusta os adultos, que acreditam que eles não se concentram e “perdem muito tempo”. Mas parece que os jovens são mesmos capazes de dividir a atenção entre tantos estímulos – e, quanto ao tempo perdido, bem, eles têm tempo para perder.

            Entre meus colegas de adolescência, alguns dos quais continuam meus amigos até hoje, havia alunos de todos os tipos: alguns estudiosos e responsáveis, sempre com as melhores notas; outros eram estudantes medianos, daqueles que passam de ano “raspando”; e outros decididamente relapsos com os estudos, que passavam a maior parte do horário de aulas no pátio da escola, jogando bola ou conversando. Todos tinham uma dose equivalente de qualidades e defeitos: nem todos os bons alunos eram bons companheiros, nem havia, entre os alunos mais irresponsáveis, amigos menos leais ou menos interessantes.

            No entanto, quando conversamos com os pais e avós de hoje (que são da mesma geração dos meus colegas de adolescência), percebemos uma variação menor dos tipos de estudantes: quando falam sobre o passado, parecem todos feitos pelo molde de excelentes alunos, modelos de disciplina e adequação. Como se só esse tipo de jovens tivesse recebido o dom de procriar. Os outros – os da turma do fundo da sala, os repetentes, os relapsos – parecem ter sido condenados à esterilidade: não deixaram descendentes! Onde terão ido parar aqueles jovens transgressores, irreverentes e espirituosos? Em que tipo de adulto se transformaram, para que ninguém os encontre?

           

 

PARA AJUDAR A ENTENDER

Roteiro da introspecção: como você chegou aqui?

 

            O objetivo do questionário abaixo não é encontrar as respostas certas para marcar pontos. A intenção é facilitar uma experiência de introspecção para trazer à tona a memória do adolescente que você foi, na esperança de que a lembrança de sua adolescência o deixe próximo dos adolescentes que o rodeiam.

            1 – Em que você, adolescente, era diferente de você criança?

            2 – Em que você, adolescente, era diferente do adulto que é hoje?

            3 – Quando adolescente, sua relação mais conflituosa era com seu pai ou com sua mãe?

            4 – Em sua casa havia livros proibidos?

            5 – Que partes do seu corpo você achava bonitas ou atraentes?

            6 – Que partes você mais detestava?

            7 – Você acha que a adolescência masculina, em nossa cultura, é mais fácil ou mais difícil que a feminina?

            8 – Havia alguma ideia pela qual você acreditava que valia a pena viver?

            9 – Havia alguma pela qual valeria a pena morrer?

            10 – O que você acha dessas ideias hoje?

 

 

 

 

OS PAIS AINDA TÊM O QUE ENSINAR?

Quem era a pessoa mais sabida da sua casa quando você tinha 10 anos? E quando você tinha 15 anos?

 

Você se lembra qual foi a primeira vez que ensinou a seus pais alguma coisa que eles desconheciam?

 

            O computador gerou algumas questões com relação à dinâmica da família. Afinal, a atual geração já nasceu plugada, lida com teclas de computadores, notebooks, terminais e outros dispositivos como se fossem prolongamentos dos seus dedos. Os pais – e os avós ainda mais – são imigrantes em um país cujo idioma desconhecem. Basta observar o movimento num caixa eletrônico: a maioria das pessoas mais idosas entra ressabiada e observa timidamente a desenvoltura com que as crianças – que as acompanham e protegem – operam aquelas máquinas misteriosas.

            A intimidade com a tecnologia garante ao jovem acesso imediato a todo o acervo de informações que a humanidade acumulou. Nessas condições, os pais ainda têm o que ensinar? Que papel cabe aos tradicionais transmissores de informações, os professores e a escola? A autoridade de pais e professores pode ser preservada, mesmo na ausência de uma hierarquia do saber?

            É preciso lembrar que informação não é conhecimento; mesmo o conhecimento está longe de ser sabedoria. Numa confusão entre esses termos, em algumas famílias uma criança com informações suficiente para manejar com segurança teclas de um computador adquire um poder desproporcional à sua competência, tornando-se um macho dominante precoce.

            Essa situação é prejudicial para todos os envolvidos, pois diminui o respeito do jovem pelos adultos da casa e a autoridade dos pais – o que gera insegurança nos filhos. Mas a autoridade dos pais não se baseia na posse de informações acumuladas, e sim na responsabilidade de criar e proteger os filhos, que inegavelmente pesa sobre os seus ombros.

            As informações podem ser úteis para o exercício da tarefa, mas não basta ser bem informado para criar os filhos. A experiência e a sensibilidade, guiadas pelo afeto, são os instrumentos mais importantes desse processo.

            A passagem do acervo cultural de uma geração para outra, feita tanto pelos pais quanto pelos professores, não se dá de maneira neutra e impessoal. Ao contrário, as informações vêm embrulhadas numa visão crítica, impregnada de crenças e valores de quem as transmite. Dado ao bombardeio de estímulos a que nossos jovens são expostos, cabe aos pais e educadores e importante missão de lhes fornecer uma escuta diferenciada, que os faça separar o joio do trigo. Temos, todos, a tarefa de transformá-los de esponjas em filtros, para que venham a ser aliados na batalha de fazer um mundo melhor.

 

 

 

O QUE HÁ DE ERRADO COM ELES?

 

            Há algum tempo percebo que cresce um preconceito contra o adolescente, alimentado pelos meios de comunicação e endossados por muitas escolas e até por especialistas, que usam epítetos mentirosos e de mau gosto (“aborrescentes”). Há má vontade em ouvi-los e atribuem-lhes características (impulsividade, egoísmo, alienação) que são em geral falsas – ou, quando verdadeiras, não são prerrogativas exclusivas dos adolescentes. Dizem que “adolescente é assim mesmo: mente para os pais, não tem noção de risco, e por isso se mete em lugares perigosos, não tem cuidado com suas coisas, deixa tudo na maior bagunça”. Percebe-se um tom de condescendência cética com que são ouvidas alegações dos jovens quando explicam por que foram mal numa prova, ou onde estavam quando não estavam onde deviam.

            Mas por que os jovens mentem? Pelo mesmo motivo pelo qual mentem os adultos: para deixar a vida mais fácil. Mentem para evitar confrontos, assim como os adultos passam pelo acostamento para evitar a estrada congestionada. E os conselhos alarmistas (“Cuidado, jovens, ouçam seus pais”; “Cuidado, pais, acompanhem seus filhos”!) são na maioria dos casos, inúteis, até supérfluos, e só servem para aumentar as angústias e culpas. Eles levam os pais a se portarem como cães farejadores, a revistar mochilas e escutar conversas ao telefone, abrindo mão dos requisitos básicos para a construção de um relacionamento que se quer de confiança e lealdade (afinal, esse é o modelo pelo qual se pautarão os vínculos amorosos que o jovem fará).

            Em 2005, os professores Yves de La Taille e Elisabeth Harkot-de-La-Taille coordenaram uma pesquisa que ouviu mais de 5 mil alunos do ensino médio de instituições públicas e particulares da grande São Paulo. Os resultados dessas pesquisas desmentem a propalada imagem do adolescente vazio, alienado e desprovido de valores. Por exemplo, a virtude pessoal considerada mais importante por mais da metade dos entrevistados é a justiça, seguido de perto pela responsabilidade, apontada por 35% dos adolescentes.

            Mas a maioria dos adultos define automaticamente os adolescentes como desinteressados e preguiçosos, e considera pobre e sem conteúdo tudo aquilo de que os jovens gostam.

            É verdade que esse jovem altruísta, impregnado de valores como respeito pelo próximo e anseio de justiça – que a pesquisa inquestionavelmente revela – não parece frequentar nossas salas de aula ou de visitas, como se queixam professores e pais.

            Será que há algo nos espaços da família e da escola que não favorece a expressão desses valores?

 

O QUE HÁ DE ERRADO CONOSCO?

 

            Talvez como um prenúncio da dor da separação, alguns pais (sobretudo, algumas mães!), têm dificuldade para aceitar o crescimento dos filhos e tentam às vezes inconscientemente, retardar a passagem de uma etapa de desenvolvimento para a seguinte. Essa tendência se manifesta ao longo de todas as fases e se expressa de maneiras diferentes, desde uma dificuldade em ajudar a criança a largar a chupeta ou a mamadeira até impedir que ela acompanhe os programas de seus coleguinhas da mesma idade. É verdade que não é fácil se acostumar com a ideia de que as crianças começam a percorrer caminhos diferentes dos trilhados até então, muitos dos quais os pais desconhecem. Mas felizmente, por maior que seja o esforço dos pais, a criança passa dos dentes de leite à dentição permanente, da mamadeira à papinha, e desta aos sanduiches com gordura trans.

            Apesar dos muitos cortes que o antecederam, o corte da adolescência costuma ser o mais dramático, pois aí os pais percebem que já não são os protagonistas do enredo dos filhos, lugar que passa a ser ocupado pela turma e, depois, pelos namorados. Esses novos personagens passarão a ser aliados e companheiros na descoberta de emoções e na abertura de caminhos dos quais os pais estarão excluídos.

 

NOVAS ROUPAGENS PARA FESTAS ANTIGAS

 

            Nem todas as novidades são efetivamente inovadoras: algumas apenas revestem com avanços tecnológicos as velhas soluções, agora exibidas com roupagens mais brilhantes e eficientes. Assim como o telefone ampliou a capacidade de falar e ouvir pessoas distantes, a internet amplia nossos olhos e ouvidos, fazendo com que as imagens e os pensamentos atinjam mais pessoas e, sobretudo, cubram instantaneamente distancias maiores.

            Até os blogs, Twitter e Facebook tiveram seus precursores, usados por adolescentes de gerações anteriores. Os “Questionários de amor”, bem conhecidos pelas avós dos adolescentes de hoje, preenchiam a função de expor experiências e ideias a uma rede social que incluía conhecidos e desconhecidos. Era um caderno comum, cuja dona escrevia uma pergunta em cada folha, e numerava as linhas de 1 a 10, com um espaço de três linhas entre os números. O “Questionário” era passado para as amigas, que respondiam às perguntas de cada página, sempre nas linhas cujo número lhe tinha sido designado (a primeira era sempre reservada para a melhor amiga ou ao namorado).

            O caderno-questionário permanecia por dois ou três dias sob a guarda de cada colega, que não se furtava de ler as respostas dos outros nem tinha o compromisso de preservar o caderno dos olhos curiosos de suas amigas. Assim, as amigas da proprietária e as amigas das suas amigas ficavam sabendo de várias opiniões, preferencias e confidencias de todos os que tinham se submetido ao questionário, numa rede social ampliada, que antecipava o Facebook e Orkut de hoje. As perguntas não eram padronizadas, mas algumas apareciam praticamente em todos os cadernos. Ao lado de perguntas inocentes (filmes preferidos, atores mais queridos, melhores férias da vida etc.), havia outras mais indiscretas (que hoje soam incrivelmente inocentes), como: “Você já foi beijada?”, “De língua”? (alguns mais ousados queriam saber por quantos!); “Quem entre nossos colegas é o homem (sic) dos seus sonhos?”.

            Ontem como hoje, não havia compromisso com a verdade. Cada um podia se apresentar conforme ditassem a própria fantasia e ousadia. E, então como agora, havia jovens maldosos que se aproveitavam das informações para expor e achincalhar colegas.

            Numa antecipação dos blogs atuais, haviam muitas meninas que escreviam diários, que eram cuidadosamente protegidos dos olhares indiscretos – ao contrário do que se faz hoje. Havia inclusive cadernos criados para esse uso, com capas de couro e um pequeno cadeado para garantir o sigilo do conteúdo, que só era mostrado para a melhor amiga.

            Serão mesmo os adolescentes de hoje muito diferentes de seus avós? Ou a diferença está apenas nos recursos tecnológicos de cada época?

 

DISCORDAR É PRECISO

 

            As discordâncias e embates entre pais e filhos fazem parte do teste que os filhos inventam para descobrir se o aor dos pais está subordinado à condição de dependência. Quando uma criança insiste em desobedecer, quando um adolescente discute agressivamente com seus pais, estão questionando se eles continuam a amá-los ainda que tenham um comportamento inadequado.

            Em situações assim, os pais devem deixar claro que o amor incondicional que efetivamente sentem pelos filhos não é sinônimo de aprovação irrestrita de suas atitudes. “Não gosto do que você faz” e diferente de “Não gosto de você”. Só assim os filhos terão a confiança necessária para pedir a ajuda dos pais quando, devido a escolhas inadequadas, fracassarem em novas conquistas. E só assim serão capazes de formar vínculos amorosos saudáveis, em que as diferenças e discordâncias podem ser respeitadas, e não combatidas.

 

PARA QUE SERVE O CASTIGO

            Um castigo deixa de ser educativo quando já não serve para ensinar e passa a ser meramente um instrumento de vingança ou um exercício de poder. O castigo que humilha provoca uma reação de raiva e impotência que não contribui nada para o processo de aprendizagem. Para funcionar, o castigo deve estar diretamente ligado à falta cometida e ser proporcional a ela. Sua aplicação deveria ser feita logo após a transgressão e, se possível, criar condições para que o faltoso possa reparar o mal que fez.

            Pais que tentam impor punições que não conseguem sustentar dificilmente conseguirão se fazer respeitar. Dizer que o filho nunca mais vai pegar o carro, por exemplo, é seguramente uma mentira. Colocar prazos impossíveis não serve como rédea. Se os pais não sabem até onde conseguirão sustentar determinada imposição é preferível usar uma fórmula do tipo: “Você não vai sair de casa até segunda ordem”.

            Dar explicações, apontar saídas e, eventualmente, renegociar a norma descumprida é certamente mais trabalhoso do que simplesmente punir. Mas é esse o objetivo da educação, da qual o castigo faz parte. E o processo, para ser verdadeiro e efetivo, exige constantes atualizações das regras, para que se mantenham adequadas a novas situações e a novas conquistas do jovem.

            Numa família em que responsabilidades e compromissos são compartilhados com o adolescente, a necessidade de punição pode ser drasticamente reduzida. Mas, cumpridas as condições alencadas acima, o castigo de ser aplicado com serenidade e convicção, sem que os pais se sintam culpados nem o jovem desrespeitado.

 

QUANTAS SEPARAÇÕES MARCAM

O CAMINHO DA LIBERDADE?

 

            A primeira separação entre mãe e filho se dá no momento do corte do cordão umbilical. A natureza não consulta nenhum dos envolvidos para decidir se está na hora de separá-los, e a relação entre um recém-chegado e sua mãe é quase tão simbiótica quanto antes do nascimento, como se fôssemos marsupiais – cujos filhotes, depois de sair do útero, permanecem por algum tempo dentro de uma bolsa abdominal, no corpo da mãe.

            O corte seguinte será o desarme, que muitas mães sentem como o primeiro abandono do filho. O leite funciona como um substituto do cordão umbilical e o desmame, ao mesmo tempo que representa um alívio e uma libertação para a mãe, marca a primeira perda real de sua importância para a sobrevivência do filhote. Agora, outras fontes poderão suprir as necessidades nutricionais da criança, até então totalmente atendidas pelo leite materno. Toda mãe intui que, depois do desmame, nunca mais será capaz de produzir, material ou simbolicamente, um alimento assim adequado para as fomes do seu filho.

            Quando a criança ensaia os primeiros passos, uma nova separação se anuncia: a conquista da competência de andar sozinho, sobre as próprias pernas. Isso confere autonomia para afastar-se dos pais e, até certo ponto, para escolher o próprio rumo. Ao mesmo tempo que festejam e registram a nova proeza do filhote, os pais percebem que a criança está dando os primeiros passos na longa marcha em direção a seu destino particular, para longe deles.

            Na etapa seguinte (que nas meninas costuma anteceder a locomoção) é representada pelo acesso à palavra, prerrogativa e característica dos humanos, que desvela um novo universo de comunicação. A fala abre o caminho para as contestações e confrontos que estão por vir, mas, ao mesmo tempo, constitui-se numa nova e ilimitada forma de contato entre os pais e o filho. Sair das fraldas, ir para a escolinha, trocar os dentes provisórios pelos definitivos – tudo isso são ensaios que preparam os pais e filhos para o momento da verdadeira separação, quando os filhos saírem de casa e formarem a própria família.

            Cada nova etapa que a criança atinge representa um progresso e uma perda: ganha-se autonomia (de ambos os lados), mas perde-se a condição anterior, com todas as vantagens e prazeres inerentes a ela. Pais e bebê têm uma despedida a lamentar a cada conquista: o bebê que toma sopinha, empunhando sozinho a colher, expulsa o bebê que mamava ao seio; a criança que anda com desenvoltura perde o direito de ser sempre carregada ao colo; e assim por diante.

            As rupturas são menos sofridas se as etapas anteriores tiverem transcorrido de forma tranquila para todos os envolvidos – isto é, se as necessidades da criança forem atendidas por pais amorosos e confiantes, que preparem o filho para superar as novas etapas e também demonstram possuir recursos para preservar o vinculo por outros canais. Para o desenvolvimento da criança, é fundamental que ela sinta que os pais apoiam seus movimentos de autonomia e continuam a amá-la mesmo quando discordam dela.

 

OS PAIS ATRAPALHAM?

            Os filhotes de aves, assim que saem da casca e enquanto não aprendem a voar, são alimentados pela mãe. Quando sentem fome, erguem a cabeça e escancaram o bico, para que a mãe llhes coloque bem no fundo da goela o alimento que ela regurgita. Depois, quando os filhotes já têm autonomia para voar pequenas distâncias, eles passam a ciscar o chão, em busca de sementes e larvas. Então, a posição para se alimentar muda: os filhotes mantêm a cabeça baixa e os bicos quase fechados, enquanto procuram pela comida – e tornam-se rapidamente eficientes para alimentar-se sem ajuda. Mas esse comportamento só aparece na ausência da mãe: quando ela se aproxima, eles imediatamente param de ciscar e erguem a cabeça, com o bico aberto, como se voltassem à condição de dependência.

            Pois o filhote humano tem um comportamento parecido. Ao lado dos pais (sobretudo da mãe), crianças e adolescentes tendem a comportar-se de forma regressiva, como se tivessem menos competência do que realmente têm. No atendimento de adolescentes, quando eu convidava os pais para uma sessão conjunta, muitas vezes me surpreendia ao observar o jovem que até então atendia se transformar numa criança. Numa estranha metamorfose, aquele rapaz de postura ereta e fala firme transmutava-se numa criança encolhida e gaguejante, ou a mocinha independente e sofisticada virava uma menininha suplicante.

            Essa mudança de atitude revela um pacto secreto e muitas vezes inconsciente entre pais e filhos, como se ambas as partes soubessem que a ruptura que se aproxima é mais séria e mais verdadeira do que as anteriores. O que os pais esquecem – e os filhos não sabem – é que essa ruptura, assim como as anteriores, também não é definitiva.

 

A CRISE DA ADOLESCÊNCIA

            Mas essa é, sem dúvida, mais turbulenta que todas as rupturas anteriores. Como as condições de dependência dos filhos já não são evidentes e vitais quanto eram na infância, pais (e filhos) temem que desta vez, ao contrário das experiências anteriores, o corte seja irreversível. A insegurança pode fazer os embates atingirem níveis de agressividade que tocam as raias do intolerável, acentuando o medo da ruptura.

            Há, de fato, novas dores, de um e de outro lado. Na adolescência, os pais são obrigados a encarar sua impotência diante das frustrações dos filhos – sobretudo aqueles pais que não mediram esforços para atender os desejos de suas crianças, fossem brinquedos, passeios, roupas ou concessões. Agora isso é impossível, e os pais não têm como controlar as fontes de frustração. É intolerável admitir que, baldados todos os sacrifícios para criar filhos felizes, não há o que fazer diante da infelicidade do garoto que levou um fora da namorada; não há o que dizer para a garota que se debulha em lágrimas ao lado de um telefone que não toca.

            Nenhum pai ou mãe teria o poder de trazer de volta a namorada do garoto, ou de obrigar o “ficante” da véspera se interessar pela menina. Mas pais tolerantes à própria frustração e que cultivaram uma relação de intimidade com os filhos saberão oferecer o aconchego adequado para que os inevitáveis sofrimentos possam ser digeridos com mais conforto e segurança.

 

MEU QUARTO É MEU CASTELO!

            O adolescente faz do próprio quarto um mundo particular, com fronteiras bem demarcadas que o separam do restante da família. Os adultos têm um comportamento parecido com relação à casa, pois preferem assistir aos filmes e comer em casa, em vez de ir ao cinema ou restaurantes, recorrendo ao serviço de entrega de pizzarias e locadoras. Quando eram adolescentes, esses pais também se fechavam no quarto (em geral, batendo a porta). A diferença é que os quartos nunca foram tão equipados como são agora, quando os jovens têm tudo de que gostam e precisam no interior dessas quatro paredes. Lá eles conversam com amigos e desconhecidos, encontram material para fazer os trabalhos da escola, veem televisão e assistem a filmes.

            Por mais confortável e seguro que seja o costume de isolar-se, ele traz sérias desvantagens para o desenvolvimento emocional, pois esses contatos virtuais não substituem a convivência direta entre as pessoas. Os adultos também têm medo de andar pelas ruas e convivem pouco com os amigos. Os adolescentes apenas repetem o que veem os adultos fazer.

 

ESTE CORDÃO É MÁGICO

            O sonho de uma adolescente de 16 anos que atendi num processo de terapia familiar ilustra de modo eloquente as transmutações do cordão umbilical.

            Estudante de Arte, ela estava às vésperas de uma viagem para a Austrália, que faria sozinha, para estagiar por alguns meses com um respeitado profissional de sua área. As preocupações dela e dos pais com a viagem tinham ocupado a sessão anterior àquela em que a jovem narrou o sonho abaixo (note-se que, quando o sonho ocorreu, não haviam celulares).

            – Eu estava falando com minha mãe pelo telefone, e comecei a andar com o fone na mão. Eu me afastava cada vez mais da mesinha do telefone, mas a ligação não caía nem ficava mais fraca. Saí de casa, fui até o aeroporto, peguei o avião, e ela e eu continuávamos a conversar, como se eu ainda estivesse na sala. Fiquei espantada com a elasticidade daquele fio, que se esticava sem se romper, e me perguntava se ele conseguiria espichar até Sidney – mas estão acordei antes do avião aterrissar. Não é estranho?.

            – Não, não é nada estranho – respondi, enquanto a mãe sorria comovida. – Este fio vai até onde você estiver, pode ficar sossegada.

            Será possível fazer imagem mais perfeita do fio mágico que une mãe e filha? A palavra, enquanto comunicação verbal, é sem dúvida um digno representante do cordão umbilical.

 

A INTERNET, O AVIÃO E SANTOS DUMONT

Qual era a maior implicância dos seus pais durante sua adolescência? Como reagia a isso?

 

            Os pais que brincavam na rua ou na escola de amarelinha e de pega-pega sentem-se inseguros para orientar os filhos, cada vez mais afastados dessas brincadeiras e sempre plugados na tv, jogando videogames e navegando na internet. Por mais difícil que seja, dosar as horas em frente à tela, seja da tv, seja do computador, é fundamental para a saúde física e mental da criança e do adolescente, também porque são horas roubadas do contato com os outros seres humanos. Mesmo cansados de ouvir que têm de ser mais presentes, ainda que estejam fartos de saber que precisam ser mais participativos, os pais não tem como fugir: sem essa intervenção fica difícil conseguir mudança da atitude dos filhos. É impossível isolá-los dos meios de comunicação (nem isso seria desejável), mas é função dos pais ajuda-los a construir uma rede de percepção, para criar barreiras internas contra influências indesejáveis.

            Essa dificuldade não é nova. Os pais de todas as gerações devem ter sentido a mesma impotência diante das inovações de seu tempo. Num atrevido voo de fantasia, podemos imaginar que os hominídeos entravam na Idade do Fogo, assustados ante o poder devastador da nova conquista, tentando transmitir às suas crias: “Cuidado, fogo queima”. E os perigos inaugurados pela invenção da roda? “Vai esmagar o seu pé”, pensariam os adultos da Idade da Pedra.

            Assim tem sido desde sempre, ao longo da História. Todas as invenções e descobertas traziam, junto com avanços e vantagens, novos riscos. O avião, inventado para encurtar distâncias, também é uma perigosa arma de destruição, quando usado na guerra. O telefone serve para buscar ajuda em uma emergência, mas também para montar armadilhas e simular sequestros. Já houve fenômeno oposto: a invenção do raio laser foi brindado na literatura de ficção (sobretudo em histórias em quadrinhos) com o apelido de “raio da morte”, antecipando seu uso como arma mortífera. No entanto, não foi isso que se deu: o raio laser é, de fato, um poderoso instrumento do bem, capaz de reduzir drasticamente o risco de procedimentos cirúrgicos e de trazer para os nossos ouvidos, com precisão, as melhores orquestras do mundo.

            Portanto, diante da internet, os pais devem fazer o que sempre fizeram seus pais e os pais de seus pais: “não fale com estranhos” é uma recomendação que as mães fazem aos filhos desde que o homem juntou o poder da fala à capacidade de locomoção. Hoje, como sempre, é preciso estar por perto e atento, para ter com os filhos uma verdadeira intimidade, baseada na confiança mútua – conscientes de que o controle é importante, embora a vigilância seja impossível.

            Os pais precisam ensinar os filhos a lidar com os perigos da exposição da própria imagem, das consequências de atitudes agressivas contra colegas, dos riscos da exibição descuidada de senhas…. Não lhes cabe o direito de alegar ignorância para lidar com computadores ou incompetência para acessar a rede. Os pais devem aprender a lidar com os instrumentos do seu tempo. Aqueles que não têm acesso à rede e não sabem mexer no computador são como os analfabetos de algumas gerações atrás.

            O maior risco da manipulação da internet é que a rede confere um grande poder de divulgação, ao mesmo tempo em que isenta o usuário de qualquer responsabilidade pelo material que divulga. Poder sem responsabilidade é uma combinação perversa e perigosa, que favorece a prática de condutas violentas e antiéticas.

            Numa postura irreal e quase ingênua, muitos jovens se comportam como se a vida virtual estivesse totalmente separada da realidade, e muitas avezes publicam informações falsas e insultos grosseiros contra colegas, que chegam ao ambiente escolar e provocam danos às vezes irreparáveis. Há um paradoxo na juventude de hoje: por mais informada e informatizada que seja, é composta de jovens mais infantilizados e regredidos que os de gerações passadas. Essa confusão entre realidade e fantasia é uma característica da infância, que os adolescentes já deveriam ter ultrapassado. Mas não é o que se vê. Prova disso são os poucos livros e muitos filmes que hoje fazem sucesso com o público jovem. São histórias de mágicos e vampiros, cujo enredo não escondem a proximidade com os contos de fada que encantavam a infância.

           

O QUE A INTERNET FAZ COM O CÉREBRO

            Pesquisas revelam que nossos jovens são capazes de ocupar simultaneamente com atividades múltiplas e diferentes. Escrevem um texto no computador ao mesmo tempo que ouvem música com fones de ouvido, verificam mensagens que receberam pela internet, informam-se sobre as últimas fofocas da turma nas redes sociais…. Mas será que a clareza e a profundidade do texto que escrevem enquanto se dividem entre tantas tarefas não ficam prejudicadas pela dispersão? Será que as conexões cerebrais não são alteradas pela avalanche de informações simultâneas a que estão expostas?

 

            Este tipo de atividade não serve para estimular a reflexão ou favorecer a concentração – nem a internet se propõe a tanto. Seria altamente desejável – e certamente saudável – que o tempo dedicado a tantas tarefas fosse intercalado com momentos de silêncio e verdadeira solidão, longe do computador.

            Não há escapatória: os pais têm mesmo a obrigação de se atualizar e de se dar ao trabalho de impor limites, o que implica em controle e sanções. Mas muitos não estão dispostos a pagar o preço, que inclui tolerar a frustração dos filhos, algo insuportável para alguns.

 

EFEITO NEFASTO

            A leitura de ficção está decididamente fora do campo de interesse de muitos jovens internautas, como atestam inúmeras pesquisas. Embora exista hoje uma farta literatura dedicada ao público jovem, as raras obras que fazem sucesso entre os adolescentes não são histórias que se passam entre pessoas normais, com as quais eles possam se identificar. Esses jovens também não costumam frequentar cinemas, e quando o fazem é para assistir desenhos animados ou a transposição para o cinema de histórias em quadrinhos ou dos livros que conhecem. Assim, o repertório desta geração está limitado ao que encontram na internet, onde são assíduos frequentadores de sites de pornografia. Ou seja, muitos fazem um voo sem escalas dos desenhos animados infantis às apimentadas cenas eróticas do filme pornô.

            Sem outras referências, sem um acervo de leitura de romances com os quais diluir e relativizar essa imagem de sexualidade, muitos acreditam que o ato sexual entre duas pessoas comuns se receste das mesmas características que veem na telinha do computador – e ficam com medo ou vergonha de fracassar diante de uma namorada ou colega. A angústia diante da perspectiva de fracasso (“O que a turma vai dizer?”, pensa cada um deles) provocou uma reviravolta anacrônica e contraditória depois das preciosas conquistas sociais e científicas que libertam os jovens de vários tabus e permitiram uma separação segura entre sexo e reprodução. Talvez estejamos de volta a uma situação que acreditávamos totalmente ultrapassada: adolescentes intimidados pedindo ao pai (ou, mais frequentemente a um tio) que os ajude na busca de uma profissional para inicia-los no universo da sexualidade.

 

TV, REVISTAS, JORNAIS

            O Instituto Ipsos conduziu uma pesquisa em dez países (Estados Unidos, Canadá, Brasil, México, China, França, Alemanha, Itália, Espanha e Reino Unido) sobre o uso que s crianças e os jovens fazem do tempo de lazer. Em cada país, foram ouvidos quinhentos pais ou responsáveis por crianças e adolescentes de 2 a 17 anos, exceto nos Estados Unidos, onde foram ouvidos mil pais. A pergunta básica era: “O que seus filhos fazem todos os dias, durante o tempo livre?”. Os resultados foram os seguintes:

 

1 – O Brasil é o país onde crianças e adolescentes mais veem tv: 57% dos pais disseram que seus filhos ficavam mais de três horas por dia diante do televisor, enquanto a média entre os outros países é de uma a duas horas.

 

2 – Brasil e México são os países onde os jovens menos usam seu tempo com leitura de livros: 43% dos pais disseram que seus filhos nunca fazem isso. A média das demais nações é de uma ou duas horas.

 

3 – No Brasil as crianças passam pouco tempo brincando com os amigos (43% dos pais responderam que elas não fazem isso) e praticando esportes em equipe (79% afirmaram que seus filhos não participam dessas atividades).

 

Importante: a pesquisa no Brasil, no México e na China foi feita apenas em centros urbanos, alguns violentos (São Paulo, Rio de Janeiro, Recife e Belo Horizonte).

 

            Por que a criança brasileira está entre as mais empolgadas com a tecnologia?

            Podemos aventar algumas hipóteses, mas a pergunta não pode ser respondida com certeza. Poucas crianças no restante do mundo reúnem, como a brasileira, o acesso à tecnologia e a necessidade de se encasular (e não há dúvida de que os aparatos tecnológicos tornam o casulo mais tolerável). A violência urbana tem um papel importante nessa dinâmica, mas esses resultados se devem a uma mescla de fatores, dos quais fazem parte a política educacional (no Brasil passa-se menos tempo na escola do que na América do Norte e na maioria dos países da Europa) e as atitudes dos pais.

 

            Nossos jovens não só leem pouco como também não conseguem entender o que leem. A leitura é, acima de tudo, uma experiência emocional, mais do que intelectual – por isso, recomenda-se que as crianças comecem por ler histórias que mobilizem sentimentos. Conversar sobre o que foi lido, relacionar os episódios do livro com experiências da criança, falar das próprias emoções mobilizadas pela história são atividades que fortalecem o vínculo com o livro e ampliam o desfrute da leitura.

            O gosto pela leitura é alimentado pelo interesse que os pais demonstram por livros e seu conteúdo.

            Para reverter o quadro de filhos excessivamente ligados ao computador e à televisão e desinteressados da leitura, a atitude mais eficiente que os pais podem tomar é de se mostrarem leitores assíduos. Mas… quantos livros esses pais leem ao ano? Quantas histórias contam para seus filhos pequenos? Tudo isso dá trabalho, exige tempo, mas não existe caminho melhor. Pais leitores têm mais chance de ter filhos leitores, simplesmente porque as crianças percebem que aquele objeto (livro) é importante, ou então não prenderia assim a atenção de uma pessoa tão importante para ela.

 

            A televisão só se transforma em vilã quando é tirada do seu lugar de produtora de lazer e informação e colocada na função de babá ou professora. Ela é feita para divertir, informar e para ajudar a vender sabão em pó, bonecas, tênis. Sua função não é educar nem ensinar.

 

SEXTO

Com que você tirava suas dúvidas sobre sexo na adolescência? Você lembra como sentiu em sua primeira relação sexual?

 

            A maioria dos pais ainda sente dificuldade para conversar abertamente com os filhos sobre sexo. Sugerir que eles devem falar sem constrangimento é, mas do que inútil, uma falta de respeito. A compreensão intelectual não garante a aceitação emocional, e no contato com os filhos a emoção é sempre soberana. Psicólogos e educadores precisam respeitar a falta de jeito dos pais, e aceitar até que confessem aos filhos que não se sentem à vontade para responder a algumas perguntas. Afinal, ninguém da geração passada deve ser condenado por não conseguir aceitar com naturalidade a visão de um casal de mulheres se beijando numa cena de novela, ou por reagir com perplexidade diante de um filho que se confessa homossexual.

            Se não houver tolerância para com o constrangimento, ele pode se transformar em rigidez, e então fanatismo religioso facilmente se interpõe na conversa, aumentando ainda mais a distância entre pais e filhos. A proposito da religião, convém lembrar que a proibição do adultério está entre os dez mandamentos (a da homossexualidade não), embora ninguém ache constrangedor assistir na telinha a uma relação adúltera.

 

COMO CONVERSAR

 

            Para iniciar essa conversa, existem vários ganchos que ajudam pais e filhos a entrar em sintonia: assistir a um filme juntos, ler os livros ou revistas que os filhos estão lendo, conhecer as músicas que eles curtem são formas de se aproximar e de abrir caminho. Não adianta procurar por modelos, a conversa deve se ajustar ao relacionamento que existe entre esses interlocutores. Os pais devem respeitar os próprios limites e os dos filhos, garantindo a delicadeza necessária para que um não invada o espaço do outro.

            Para saber até onde levar a conversa, é preciso estar atento às próprias reações e às dos filhos. Talvez o jovem não queira ser informado sobre as exigências sexuais dos pais e até se sinta constrangido ao ouvi-los falar sobre isso. Da mesma forma, ele tem o direito de não querer se abrir sobre a vida sexual dele, de não contar como foi a primeira vez nem confessar se está transando com a namorada.

            Nessa conversa, ninguém precisa buscar a perfeição, não é preciso saber tudo para falar sobre sexualidade e transmitir as informações importantes sobre as formas de prevenção. Existe um mito de que, para falar sobre sexo, as pessoas precisam estar totalmente bem informadas e seguras, mas ninguém é assim. Se a conversa transcorrer naturalmente, se os pais puderem inclusive assumir suas dúvidas e pudores, o diálogo ficará mais espontâneo. Mas, se não puder ser assim, não faz mal. A vantagem de pertencer à mesma família e morar na mesma casa permite que o encontro seja adiado para outro momento, mais propício a uma conversa.

            Muitos pais fingem ignorar que os filhos adolescentes são sexualmente ativos, querendo crer que eles ainda são crianças e não estão preparados para assumir a própria sexualidade. Ao não conversar sobre este assunto, esses pais fogem de qualquer responsabilidade sobre a vida sexual do adolescente. É uma escolha que, como toda decisão, acarreta consequências. Os pais podem até fingir que não sabem o que se passa no quarto ao lado, onde o filho está transando com a namorada. Mas vai ser mais difícil ignorar a eventual gravidez com que o jovem casal pode ser brindado – cujas consequências eles não terão como arcar sem a ajuda dos pais.

 

ENCONTRAR UM AMOR É SEMPER REENCONTRÁ-LO

 

            Nosso modelo de relacionamento amoroso deriva dos vínculos afetivos que conhecemos nos primeiros tempos de vida, na sutil linguagem que impregna o relacionamento da mãe com seu bebê: como ela o pega e acaricia, o tom de voz que usa para se comunicar com ele, a direção de seu olhar quando o limpa, veste e desveste. Através desses sinais, a criança estabelece internamente um código de linguagem do afeto, como se montasse um glossário, no qual o amor é definido como aquilo que os pais sentem por ela – e os sinais que expressam essa emoção são os que ela recebe dos pais.

            Muitos desses sinais são determinados pela cultura, mas alguns são específicos de cada família. Quando se diz que uma menina vai buscar, quando adulta, um parceiro que seja o reflexo de sua imagem paterna, isso não quer dizer que ela tende a se apaixonar por um homem algo e loiro porque o pai dela é assim. Significa que a pessoa escolhida deverá ter um código amoroso compatível com o que ela conheceu quando menina, e deve emitir sinais de afeto nos quais ela reconheça a linguagem amorosa que aprendeu com seus pais.

 

PARA QUE SERVE UMA MÃE?

 

            Quando uma criança que está aprendendo a andar leva um tombo, sua reação imediata e olhar para a mãe: através da reação que capta na expressão dela, a criança entende o significado do que lhe aconteceu. Se a mãe der risada, a criança interpreta o tombo como engraçado, e vai rir junto com a mãe; se a mãe se mostrar assustada, o tombo é classificado como perigoso, e a criança chora.

            O processo é essencialmente não verbal (o que define a experiência não é o que a mãe diz, mas sua expressão, o tom de sua voz, o ritmo da respiração) e, em grande parte, inconscientemente (nenhum dos envolvidos tem consciência do que transmite ou capta). O código de sinais transmitido nos marca para sempre, e o processo reaparece na vida amorosa: junto da pessoa amada, procuramos os sinais que presentavam aprovação e desaprovação no código paternal.

 

AMOR E LIBERDADE

            Recebemos as primeiras lições de amor imersos num contexto de total dependência. Assim, amor e dependência parecem ligados, e tantos os pais quanto a criança temem que movimentos de autonomia ameacem o vínculo. Se esse falso dilema entre liberdade e amor não for resolvido, o indivduo vai identificar amor com dependência e terá dificuldades para estabelecer um vínculo amoroso, por acreditar que para viver uma relação amorosa é necessário renunciar à liberdade.

            Pode, então, abrir mão do vínculo amoroso e tornar-se um eternos solitário, acreditando que o amor lhe imporia um preço alto demais. No outro extremo estão aqueles que renunciam à liberdade em nome da relação amorosa: formam casais cujos parceiros não têm vida própria e funcionam como uma única pessoa. Para eles, o amor faz parte do universo das necessidades, e não dos desejos.

 

FLERTAR, PAQUERAR, FICAR

            São palavras diferentes para designar, em diferentes épocas, atividades que têm a mesma finalidade. Não são exatamente sinônimos, mas os termos se equivalem. Os gestos envolvidos nos flertes da década de 50 não são os mesmos da paquera de trinta anos depois, nem do ficar do começo do sécuo XXI, mas todos têm o mesmo significado e função: um ensaio para a vida amorosa, um laboratório para futuros relacionamentos. Assim como as brincadeiras infantis preparam a criança para a vida real, as experiências adolescentes preparam para a entrega amorosa.

            Embora com funções equivalentes, há diferenças que refletem as mudanças da sociedade: maior permissividade, mais informações sobre sexualidade e sobre o próprio corpo, uma valorização do direito ao prazer (que já está virando, mais do que um direito, uma obrigação….), uma tendência à exibição (talvez uma forma pelo avesso do antigo “o que os outros vão pensar?”). Ao longo do tempo, as normas parecem permitir uma aproximação física cada vez maior entre os parceiros, atualmente limitada apenas pela timidez e o recato de cada um. Difícil prever até onde se pode encurtar o caminho entre o primeiro olhar e o contato sexual completo sem que o ritual perca a função original de ensaio para a vida amorosa.

            Ficar é menos do que namorar, em todas as dimensões: há menos envolvimento, menos compromisso, menos regras e, principalmente, menos expectativas – e a expectativa é a mãe das frustrações. Quem não espera um telefonema no dia seguinte fica menos desapontado quando o telefone não toca. Assim, esse é um jeito bastante eficiente de diminuir a ansiedade. Só que nem sempre dá certo: os sentimentos não estão sujeitos aos contratos de não envolvimento, explícitos ou não, e ninguém pode jurar que não ficou especialmente atento ao toque do telefone depois de uma ficada.

            A experiência pode ser prazerosa e instrutiva: o “ficante” tem a chance de se conhecer numa situação nova, de perceber a maneira como seu corpo reage à aproximação do outro, de entender melhor a química da excitação sexual. Mas a experiência não serve para conhecer o parceiro: cada um está atento às próprias reações e sentimentos, e não às respostas e desejos do outro. Falta, no ficar, uma parte essencial do relacionamento amoroso, que é o contato íntimo com alguém – uma das formas mais preciosas de autoconhecimento.

            Além de olhar para si mesmo, o “ficante” costuma prestar atenção às reações da turma, que exerce enorme influência. Há ainda diferenças cruéis entre garotos e garotas. Apesar de todos os movimentos feministas que lutaram para que homens e mulheres fossem julgados pelos mesmos princípios e recebessem tratamento igual, a menina ainda tem medo de ser considerada “galinha” se ultrapassar certo número (que ninguém sabe direito qual é) e ficadas por festa: enquanto muitos meninos se vangloriam do mesmo feito, e até exageram para fazer bonito.

            Então, embora o ficar tenha o mesmo objetivo para garotos e garotas, as expectativas, explícitas ou não, são diferentes para eles e elas. Enquanto os garotos estão voltados para a quantidade de garotas com quem ficam (quanto mais, melhor), elas têm mais esperanças de telefonemas posteriores e muitas ainda sentem ciúmes ao encontrar o garoto com outras meninas na mesma festa, embora não gostem de reconhecer esse sentimento.

 

NAMOROS ADOLESCENTES

 

            Ainda hoje, apesar das várias modalidades e intensidades dos vínculos (ficar, rolo, rolo único…. e tudo mais que a criatividade infinita dos jovens inventa), o namoro continua sendo uma forma de aprofundar o relacionamento amoroso, uma espécie de ensaio para a escolha de um parceiro. A diferença é que hoje em dia os namoros começam mais cedo, como tudo mais.

            Não há regras ou limites claros para os namoros atuais, nem o nível de intimidade entre os parceiros está ligado à idade cronológica. Contam mais a estrutura emocional, a maturidade para fazer escolhas e tomar decisões. À medida que avança o processo de desenvolvimento individual, a tendência é que a preocupação com o parceiro e com as próprias reações tome o lugar da busca pela aprovação do grupo.

            Os jovens estão mais seguros do que estavam seus pais para falar sobre assuntos como namoro, amor e sexo, mas não estão menos inseguros do que seus pais para expor seus sentimentos.

            Alguns pais se preocupam diante da intensidade com que seu filho se entrega a uma relação amorosa, temendo que o vínculo se perpetue num casamento com poucas chances de dar certo. Mas nada garante que se casar com o namorado de adolescência tenha mais chances de dar errado (ou certo). Quando a relação data da adolescência, a fantasia de conhecer profundamente o parceiro pode estar exarcerbada, e assim as inevitáveis surpresas que a convivência provoca podem levar a maiores frustrações. Mas essa ilusão vale para todos os casais, de qualquer idade, pois ninguém direito nem o parceiro e nem a si mesmo.

            Os pais temem também que, ao se fixar no namoro da adolescência, o jovem seja futuramente assolado por dúvidas, por não ter tido outras experiências e, assim, não saber se é mesmo o parceiro certo. Mais tarde, o jovem pode sofrer também com a dúvida de que não tem condições de seduzir e agradar outra pessoa. Mas o fato de ter conhecido intensamente um único parceiro não significa que se sabe menos sobre agradar as pessoas do que alguém que conheceu superficialmente muitos parceiros. Conhecer muitos não significa conhecer todos, de modo que a insegurança quanto a ter escolhido “o melhor” parceiro existe em todos os casos, independentemente do acervo de experiências anteriores.

            Um relacionamento duradouro que teve início na adolescência tem a vantagem de amealhar uma quantidade maior de lembranças partilhadas, mas corre o risco de uma permanente cobrança mútua dos projetos da juventude, muitos dos quais podem parecer inviáveis aos olhos de um dos parceiros. O medo de que com a idade os interesses passem a ser diferentes do que eram na adolescência é legítimo, qualquer que seja a idade do vínculo. O processo de rever interesses e afinidades deveria ser contínuo para todos os casais, pois ninguém é igual a si mesmo ao longo do tempo.

            Casais de adolescentes são, em geral, muito possessivos e ciumentos, o que também deixa os pais preocupados quanto ao futuro da relação. Mas nem sempre esse comportamento se mantém quando o casal amadurece (nem todos amadurecem, porém..). Com o aumento da segurança, o ciúme tende a diminuir. Um casal mais experiente aprende a avaliar a relação pelo que acontece entre os parceiros, sem alimentar fantasias com o que se passa fora do vínculo.

            Todos os casais mantêm rituais que só têm sentido para eles. Muitos se mostram regredidos na relação amorosa (basta lembrar os apelidos que se dão, ou a mania de se tratar pela primeira sílaba do nome – Tê ou Rô, ou Tô), talvez porque a sensação de dependência em relação ao outro remete à infância, ao vínculo criado com os pais.

 

A MARCA

            Um casal que permanece com o primeiro amor, sem que os parceiros tenham vivido uma ruptura verdadeira do vínculo amoroso, guarda uma marca perigosa: os parceiros nunca terão a certeza de que seriam capazes de sobreviver se aquele amor viesse a terminar. Quem viveu mais de uma relação amorosa intensa e verdadeira, já sabe que sobrevive à ruptura e não se assusta tanto ante a ameaça de romper mais uma vez. Todos nós precisamos saber que o amor é vivo e por morrer, mas que a morte de um amor não mata a chance de amar de novo.

 

QUANDO

            Os pais que fazem parte de uma geração que se considerava moderna e liberada ficam assustados diante do fato de seus filhos fazerem sexo mais cedo do que eles imaginam (sem, no entanto, saber em que exata idade seria aceitável).

            Embora não haja um padrão estabelecido para o “aceitável” (o que é aceitável para algumas famílis pode ser intolerável para outras), há um limite que deve ser respeitado. O universo da sexualidade é o universo da ética, pois é a área da relação com o outro. Só se deveria entrar nesse universo depois de estabelecido e internalizado um código de ética – o que não acontece antes da conquista do pensamento abstrato (assunto que virá à seguir). A questão não está na idade cronológica, mas na intenção com que são feitos esses contatos e a atitude dos envolvidos. Fatos assustadores podem acontecer quando jovens adentram esse universo usando o poder da internet, sem antes estabelecer um compromisso com a ética.

 

DROGAS

Como foi seu primeiro contato com drogas? Você teve algum amigo que se envolveu seriamente com alguma droga na adolescência? Como ele está hoje?

 

            Vale lembrar: a prevenção do uso de drogas deve ter o adolescente como foco, mas a dependência química é um problema do universo adulto, não do adolescente. Quando eu fazia palestras sobre drogas para adolescentes, fui muitas vezes questionado sobre o que fazer com o pai alcoólatra ou com a mãe que toma há anos remédios para emagrecer.

            A complacência dos pais com relação a drogas lícitas, como o álcool e o cigarro, e´irracional e incompreensível diante da quantidade de informações disponíveis sobre a facilidade com que essas substâncias geram dependência e sobre os males que provocam. Muitos adolescentes relatam que ao voltar da balda derramam alguma bebida alcoólica sobre a roupa para dissimular a origem dos olhos vermelhos e outros sinais de uso de maconha.

           

 

POR QUE ALGUNS ESCAPAM?

            A experiência com drogas não nos levam necessariamente à dependência. Dentre os muitos jovens que entram em contato com as drogas e chegam a experimentá-la, apenas a minoria se torna dependente.

            É fácil imaginar o que faz com que os adolescentes sejam sensíveis ao apelo das drogas. Mais importante e produtivo é indagar o que faz alguns jovens escaparem dessa rota, quando tinham tudo para engatar nela – como aconteceu com seu melhor amigo, ou o vizinho, ou o colega, que tinham famílias parecidas, moravam no mesmo bairro e frequentavam a mesma escola que você. Por que alguns jovens habitantes da favela escapam da malandragem, do banditismo, da sedução dos traficantes e outros não? Por que alguns adolescentes de famílias ricas, com pais liberais e facilidade para obter tudo o que querem, escapam do tédio, do cinismo, da armadilha do prazer rápido e contingente que as drogas oferecem? O que, afinal, mantém esses garotos comprometidos com a vida, apesar da escola, apesar da família, apesar da comunidade?

            A genética pode ajudar. Afinal, o ambiente não atua no vazio, e alguns substratos do DNA respondem mais às solicitações do meio, enquanto outros respondem menos. Não falo de uma propensão a usar drogas provocada por um DNA defeituoso, mas de algumas reações bioquímicas que podem fazer a experiência ser gravada de um jeito ou de outro, num processo semelhante aos mecanismos imunológicos, que fazem algumas pessoas terem mais resistência à infecções. Trata-se de ter mais resistência ao apelo das drogas, não de imunidade. Ninguém está imune a este risco, nem possui um salvo-conduto que lhe permita percorrer com segurança as estradas perigosas das drogas. Basta ser humano e caminhar entre humanos para ser vulnerável a tudo que é humano.

            Certa dose de sorte também parece importante, no entanto nem a sorte e nem e genética são suficientes para decidir a parada. O que é então?

            Pense na sua experiência. Você provavelmente tem todas as características que poderiam tê-lo tornado dependente, ou mesmo usuário, de alguma droga. Você (como eu, o motorista de táxi, a moça que vende frutas na feira….) faz parte do time dos potenciais dependentes de drogas se já tentou fazer um regime e fracassou, por exemplo (tão difícil resistir a um docinho, afinal um só, que diferença faz?). Ou aquele esquadrão que pensou mil vezes em demitir-se de um trabalho sem perspectiva nem satisfação, mas continuou anos a fio no mesmo lugar, porque não tinha surgido nada melhor e, “quando realmente quiser, dou um basta”. Ou então ficou preso por tempo demais numa relação amorosa que todos viam que já estava desgastada.

            Mas muitos de nós escapamos dessas armadilhas, apesar de possuir todas as características que levam um jovem a sucumbir ao prazer imediato em vez de vencê-lo em nome de recompensas maiores, porém mais tardias. O que terá acontecido no seu enredo para que você não caísse nessa armadilha? Procure na sua história algumas pistas: talvez você estivesse envolvido com tantas paixões e interesses que não sobrava espaço para mais nada. Tanto faz se era o encantamento por uma pessoa ou o envolvimento com uma causa (política, social ou religiosa), que o deixava insensível a experiências menos significativas.

            Há mais um mistério a analisar: por que algumas pessoas fazem do uso da droga o centro de sua vida e vivem em função de conseguir a substância a qualquer preço e usá-la a qualquer custo, enquanto outras, aparentemente do mesmo estrato, não perdem seu poder de escolha? Estou falando da questão da liberdade: esse é o núcleo central da polêmica sobre drogas. Se o uso de uma substância não tiver implicações mais amplas, que prejudiquem outras pessoas, usá-las ou não é uma questão de foro íntimo, não interessa a mais ninguém, a não ser o sujeito e suas ramificações imediatas. Mas a preservação da liberdade é uma questão que nos atinge a todos.

            Aí reside o foco primordial da discussão sobre o uso de drogas. A liberdade individual amplia-se com o aumento do autoconhecimento, com uma abertura maior do universo de opções e com uma noção clara do lugar que o indivíduo ocupa no mundo. A importância que a droga irá adquirir depende do lugar que ela terá na trajetória do sujeito. Alguém cuja vida é plena de interesses, com ligações afetivas sólidas e significativas, dificilmente será escravizado pela droga. Mas um jovem entediado, sem amigos nem interesses mais amplos, que não está ligado a nenhum grupo e não acalenta nenhum projeto importante, será presa fácil dessa armadilha.

            Em geral, o que um jovem busca nesse tipo de experiência é uma afirmação de liberdade, um sentido de pertinência ao grupo e uma ampliação de seu campo de experiências. No entanto, o uso da maioria das drogas leva a uma dependência química que estreita o campo de consciência e esgarça o tecido social, pois o contato com amigos perde importância e boa parte do tempo e da energia é gasta em conseguir e utilizar a droga. Tudo isso resulta numa negação da liberdade, pois um dependente é justamente aquele que não pode escolher entre usar ou não a droga.

 

O MUNDO É MAIOR QUE O UMBIGO

            Até aqui falamos dos eventuais riscos a que está sujeito quem faz uso de uma droga. Mas no caso das drogas ilícitas há um custo social, que talvez seja mais importante que os danos pessoais. É fundamental chamar a atenção do jovem para o submundo violento e corrupto que vive da droga e é sustentado pelos usuários, quer eles percebam que não.

            Entre as narinas de um usuário e a fileira de cocaína, entre os lábios do fumante e o cigarro de maconha, ocultam-se imagens que ninguém gostaria de enxergar, que todos sabem que são verdadeiras, mas que os jovens usuários de cocaína ou maconha fingem ignorar, ou tentam acreditar que não têm nada a ver com isso. Há tráfico de armas, cartéis e assassinatos, há campos de pouso clandestinos e florestas queimadas para construí-los. Há violência, destruição, miséria – males contra os quais lutamos, hasteamos bandeiras e fazemos passeatas. A compra de cada grama de cocaína, de cada real de maconha, nutre essa rede de iniquidades.

            Negar essa relação é mais do que hipocrisia, é cinismo. Se os adolescentes de toda uma geração assumirem uma postura cínica, será difícil construir um mundo melhor. Sem a participação ativa e crítica dos jovens, o mundo perde a chance de superar injustiças e equilibrar desigualdades. Se a adolescência é a fase privilegiada para desenvolver noções de ética e mobilizar a sensibilidade diante das injustiças, cabe aos pais e educadores mostrar quanto o consumo de drogas tem a ver com esse quadro.

 

O QUE NÃO FUNCIONA

            Raramente, no entanto, os adultos responsáveis pelos jovens escolhem esse caminho para conversar sobre os males provocados pelas drogas. A maioria das conversas peca pelo uso de uma linguagem inadequada ou pela escolha de tópicos que não atingem o adolescente.

            Seguem exemplos de algumas falácias comuns:

 

1 – Confusão entre o discurso da autoridade e o discurso do poder – em vez de citar fatos e experiências a conversa descamba para ameaças e proibições, do tipo “se te pegar mais uma vez….”; ou “De agora em diante a senhora está proibida de….”.

 

2 – A soberania da moral – a conversa ou o curso sobre drogas transforma-se num discurso religioso ou num monólogo sobre o pecado e a punição divina.

 

3 – A soberania do Direito – conversar sobre drogas confunde-se com uma aula sobre parágrafos do Código Penal.

 

4 – A soberania da Ciência – a conversa sobre droga vira um curso de química avançada.

 

            Essas abordagens são ineficientes principalmente porque deixam de fora a dimensão emocional, talvez a vertente mais sensível ao jovem. Não se pode ignorar o prazer intenso e imediato que a droga oferece. Para se contrapor a essa poderosa sedução, não basta oferecer informações objetivas: é preciso tocar as cordas mais sensíveis dos adolescentes, indicar caminhos alternativos para dar vazão à inquietação do adolescente e mostrar as violências e injustiças que são cometidas para que aquela droga chegue às mãos do usuário, isto é: ele próprio. Episódios amplamente divulgados sobre a ocupação de favelas cariocas pelas Unidades de Polícia Pacificadora, as UPPs, em novembro de 2010, deixaram claro quanto aquelas comunidades estavam nas mãos dos traficantes de drogas. Alguém precisa convencer nossos jovens que os traficantes estão, por sua vez, nas mãos dos usuários.

 

PREGUIÇA, MACONHA OU DEPRESSÃO.

            Uma postura relaxada, sonolência em excesso, isolamento da família e de antigos amigos são atitudes que podem ter origem em qualquer uma dessas causas. A diferença entre elas é sutil: a depressão se caracteriza por uma total ausência de vontade, enquanto a preguiça ainda é uma vontade mas justamente de não fazer nada. E o uso da maconha pode levar a ambas as atitudes.

            A principal diferença está no tipo de vida que o adolescente tem. Se, além de largado, o jovem não tem amigos nem interesses e começa a ficar relaxado com os cuidados corporais e de higiene, convém conversar com o orientador da escola ou um professor de confiança, para ter mais dados antes de tocar o alarme. Se o jovem estiver à beira de um processo depressivo, dificilmente vai recorrer aos pais – em geral, o primeiro a ser consultado é o melhor amigo. Os pais não estão proibidos de conversar com esse amigo, mas não como investigadores à cata de provas de um crime. Eventualmente, um psicólogo pode ser consultado para pesquisar uma possível depressão, e até um médico pode ser solicitado, para receitar um medicamento, se necessário.

 

SÃO DEMAIS OS PERIGOS DESSA VIDA….

            De qualquer maneira, a leitura de sinais nunca é o melhor caminho para proteger um jovem dos inúmeros riscos que a vida oferece. Uma geração está razoavelmente preparada para encarar os perigos da própria adolescência, mas a infinita criatividade da vida – e dos jovens – inventa novas e inesperadas armadilhas, muitas das quais nem passam pela imaginação dos pais e contra as quais suas armas antigas têm pouco ou nenhum poder. A forma possível de proteção é a preservação de um vínculo de intimidade e confiança, que, se não chega a abolir os riscos, ao menos permite que os pais estejam próximos o bastante para atuar antes que o problema se transforme em tragédia.

 

ALGUNS CONSELHOS

            Qualquer que seja o assunto em debate, a relação entre pais e filhos deve se basear em lealdade e confiança mútuas. Essa condição, porém, tem de ser conquistada na infância, para que, na adolescência, quando surgem os problemas mais difíceis, a relação já esteja consolidada sobre esses alicerces. Só assim será possível ter conversas verdadeiras para passar noções que norteiem uma sexualidade responsável e previnam a dependência de drogas.

            No entanto, por mais aberta e confiante que tenha sido a relação com os pais durante a infância, ao chegar à adolescência há uma retração natural do jovem, em busca dos próprios valores (ainda que isso signifique, muitas vezes, reafirmar os valores dos pais…). Esse afastamento é, mais do que saudável, fundamental para o processos de desenvolvimento da personalidade. Muitos pais, porém, não toleram essa mudança nos moldes do relacionamento, temendo que signifique uma ruptura definitiva do vínculo. Na verdade, trata-se de mais um dos muitos cortes do mágico cordão umbilical, que tantas vezes se rompe para refazer-se em bases mais adequadas a cada fase do desenvolvimento dos filhos.

            Quando entra em cena a possibilidade de o jovem envolver-se com drogas, a insegurança dos pais atinge níveis que alguns consideram intoleráveis, e eles passam a se comportar como se estivessem revogadas todas as disposições anteriores de lealdade e confiança. Alguns assumem declaradamente a postura de cães farejadores, procurando em gavetas e mochilas os indícios que não querem encontrar. Mas muitos dos comportamentos considerados indicadores de envolvimento com drogas podem ter causas diferentes. Uma adolescente, antes equilibrada e alegre que passa a comer demais ou de menos, a ter crises de choro a portas fechadas e a não querer conversar com ninguém da casa pode estar envolvida com drogas. Mas também pode estar vivendo a primeira desilusão amorosa, sem querer partilhar com a família seu sentimento de rejeição.

            Uma queda acentuada de rendimento escolar, a perda de interesse em atividades que o jovem cultivava (música, academia, esportes) são atitudes que merecem uma atenção especial, independentemente da origem. Se o desinteresse pelos estudos vier acompanhado pelo afastamento dos colegas e pelo abandono das atividades antes prazerosas, o jovem pode estar iniciando um processo depressivo que tem de ser levado a sério pelos pais, inclusive porque nessas condições ele se torna presa fácil da sedução das drogas.

            …e uns poucos “nãos”…

 

Não transforme em adolescente-problema um adolescente que tem um problema.

Não o trate como criminoso, cortando o contato com os amigos e proibindo-o de sair de casa.

Não o humilhe diante dos amigos e colegas, abordando-o em público.

Não faça da conversa uma acareação policial.

Não parta (nunca) para a agressão física.

 

 

ESCOLA E PREVENÇÃO

 

            A tarefa de ajudar o jovem a resistir ao apelo das drogas exige uma parceria verdadeira, aberta e franca entre a escola e família – embora infelizmente essa relação costume ser calcada na hipocrisia. Os pais fazem o máximo para esconder da escola seu temor de que o filho esteja enfrentando um problema com drogas, pois sabem que, ao abrir o jogo e pedir ajuda, a escola provavelmente expulsará o garoto. A escola por sua vez expulsa um aluno sob essa suspeita porque sabe que os outros pais não tolerariam que a escola permitisse a convivência de um “aluno viciado” com seus anjinhos (o problema sempre está nos filhos dos outros).

            Assim, antes do despreparo técnico-pedagógico-geracional, há uma questão ética com a qual a escola mal lida e a família lida mal. A hipocrisia baseia-se na nefasta teoria da mação podre, segundo a qual uma fruta bichada contamina todas as demais do mesmo cesto – e, portanto, deve ser jogada fora. Uma excelente conduta para quitandeiros, mas péssima para educadores. Nossos jovens não são frutas podres, nenhum deles está “bichado”. E não há lugar melhor para cuidar de um jovem em risco do que a escola.

            Quando uma escola expulsa um aluno porque foi pego usando uma droga, não está dando aos outros um exemplo do que acontece com quem desobedece ao regulamento. Está mostrando o que acontece com quem é pego na transgressão. “Bobeou, dançou!”, é a lição que os outros alunos aprendem. Faria melhor a escola se considerasse aquele aluno como indicador de um problema presente na escola, e que não se esgota com a sua expulsão.

            Para lidar com a questão, a escola deveria manter, junto com os pais e a comunidade, um trabalho contínuo de ampliação do campo de interesse dos alunos, possibilitando sua participação em projetos sociais e abrindo os canais que ofereçam vazão à rebeldia e à inquietação de sua jovem clientela. A prática de esportes (principalmente coletivos) pode ser um bom aliado, mas a atividade física se torna inimiga quando a competição passa a ser o único valor da prática, e o jovem entra num regime de malhação e passa a usar drogas para superar os limites do próprio corpo, incorrendo no desrespeito total a si mesmo.

 

O QUE HÁ DE NOVO

O que você acha mais difícil de lidar com os jovens de hoje? Qual era a maior dificuldade de seus pais ao lidar com você?

 

            A adolescência é um conceito recente, que data de poucas gerações. Até o final do século XIX não se demarcava uma etapa de desenvolvimento entre infância e a idade adulta. A própria infância não era vista como uma condição que requeria cuidados especiais antes do século XVI. Os quadros de Brueghel retratam essa realidade: neles se observam feiras e festas populares nas quais homens e mulheres embriagados aparecem em cenas eróticas, ao lado de crianças vestidas com indumentárias idênticas às dos adultos. A ideia de que a inocência das crianças deveria ser preservada não fazia parte das preocupações da época: crianças eram simplesmente adultos em miniatura. Os adultos eram detentores de informações a que as crianças não tinham acesso. Como a transmissão se fazia apenas oralmente, bastava a criança dominar a linguagem verbal para se igualar aos adultos.

            Com a invenção da máquina impressora, os livros saíram dos mosteiros e a capacidade de ler passou a ser valorizada como caminho para o acesso à reserva de conhecimentos da cultura de então. Criou-se uma separação entre os que tinham a capacidade de ler e os que precisavam adquirir essa habilidade. No final do século XIX essa diferenciação atingiu o apogeu, quando surgiram livros específicos para crianças e sobre elas, criaram-se modelos infantis de roupas e sapatos, delimitando-se um universo de comunicação entre os adultos (leitores) do qual as crianças (que não sabiam ler) estavam excluídas.

             Mais recentemente, a televisão provocou uma nova reviravolta, pois, ao contrário do que acontece com jornais e revistas, não é preciso nenhuma habilidade especial para entendê-la. As informações são transmitidas por meio da fala e de imagens, cuja compreensão está à altura de todas as faixas etárias. O que se passa na telinha atinge adultos e crianças indiscriminadamente, sem segregação de público. O resultado foi uma diluição da barreira entre as faixas etárias – e as crianças passaram a usar a linguagem os adultos e a exibir comportamentos até então estranhos ao universo infantil.

            Houve também em contrapartida: como a programação é feita para ser absorvida por todos, a linguagem usada pela televisão é, e deve ser, simples. Com isso, não só as crianças estão ficando menos infantis, como os adultos estão se infantilizando.

 

EROTIZAÇÃO DA INFÂNCIA: RISCOS E CONSEQUÊNCIAS

            Os comerciais mostram crianças em atitudes que insinuam flertes ou em posturas de namoro declarado. Os ídolos infantis têm imagens francamente sensuais. Meninas querem festejar seu décimo aniversario com as amigas em um Spa, onde todas fazem tratamento de beleza, maquiagem e penteados sofisticados, numa programação antes reservada ao ritual do “dia da noiva”. (Já me aconteceu de tomar uma menina de 8 anos por uma mulher adulta com deficiência de crescimento…). Mas a entrada precoce no universo adulto não se faz sem consequências. O preço da perda de um período de desenvolvimento protegido logo se fará sentir.

            A dinâmica da erotização da infância é parte de um processo mais amplo de transbordamento da adolescência que, de um lado, comprime a infância para limites cada vez mais precoces, enquanto na outra extremidade empurra para cada vez mais tarde a entrada no universo adulto. Assim, a adolescência (que, lembre-se, só passou a existir a partir de meados do século XIX e, além disso, quase até o final do século XX estava confinada à estreita faixa entre os 14 e os 17 anos) ocupa hoje um intervalo largo e indefinido entre os 10 e os 40 anos.

            A questão não está apenas na duração da adolescência. Há uma mudança também na maneira como se encara esse período. A adolescência deixou de ser uma fase de desenvolvimento para se transformar numa ideologia, numa maneira de estar e se posicionar no mundo. Roupas, linguagem e costumes dos jovens passaram a servir de modelo tanto para criança quanto para adultos. Foi até definida uma nova etapa, a dos “pré-púberes”, que começa em algum ponto entre os 5 e 10 anos.

            Adultos de todas as idades também se espelham nos modelos adolescentes. Estamos diante de um fenômeno novo: o mito de que é desejável – e possível – viver uma eterna juventude. A cada semana os meios de comunicação e os comerciais anunciam novas maneiras de garantir uma pele sem rugas, um corpo sem estrias, um fôlego de atleta. Cremes milagrosos, exercícios milenares e bisturis ambiciosos estão unidos na batalha para evitar ou, na pior das hipóteses, escamotear as marcas do tempo. Da mesma maneira como no século XIX os valores e costumes da burguesia, antes restritos a uma classe social, passaram a servir de padrão para toda a sociedade, hoje nosso modelo é uma faixa etária. Todos querem ser adolescentes.

 

O PREÇO A PAGAR

            Muitas vezes as próprias mães estimulam a vaidade das filhas ainda meninas, incentivando-as a usar maquiagem, a participar de concursos de modelo, a acompanhar as tendências da moda. Não percebem que se trata de um cardápio pesado demais. Brincar é importante não só como forma de ensaiar papéis do futuro, mas também como exercício da fantasia e forma de contato e comunicação entre crianças da mesma idade. Quando se renuncia a essas atividades, perde-se uma parte importante do arsenal necessário para formar adultos saudáveis.

 

OS RITUAIS PERDIDOS

            O transbordamento da adolescência provoca a uniformidade nas roupas e no comportamento das diferentes faixas etárias. Tanto as crianças como os octogenários vestem-se de calça jeans, camiseta e tênis. Todos devem praticar esportes, comer alimentos sem gordura trans, assistir às mesmas novelas, partilhar os mesmos ídolos. Não há mais etapas claras a vencer ao longo do caminho para o universo adulto. Desfez-se a separação entre o curso primário e o ginásio (ensino fundamental e médio hoje), não há baile de formatura para festejar solenemente (com direito a valsa de formatura) a conquista de um diploma. Nenhum menino espera pelas calças compridas, que marcavam ritualisticamente a despedida da infância. Não há um primeiro sapato de salto a declarar publicamente que a menina agora é uma mocinha.

            Um único e perverso ritual ainda sobrevive como vestígio desses marcos, felizmente em vias de desaparecimento (ou, ao menos, de transformação): o trote, cerimônia de iniciação do calouro em sua entrada para a faculdade, resquício e simulacro dos ritos de passagem das sociedades primitivas.

            Inteiramente despido da dimensão simbólica que impregna as cerimonias primitivas, o trote já perdeu seu significado original e transformou-se numa demonstração de crueldade e soberba de consequências às vezes fatais. Algumas universidades, assustadas com a dimensão que essas “brincadeiras” assumem, chegaram a proibir a prática, mas poucas conseguiram controlar o que se passa dentro de seus campos. Ano após ano, o noticiário nos coloca diante de cenas de humilhação e opressão, com requintes de crueldade emprestados das mais abjetas torturas, incompatíveis com o projeto de inclusão de calouros no grupo de universitários.

 

OS PAIS COMANDAM. OS FILHOS AGRADECEM

Qual era a regra mais difícil de aceitar quando você era adolescente? O que acontecia quando você desobedecia? Isso acontecia com frequência?

 

            O poder que emana dos pais não se baseia na força, mas no saber e na experiência. Sem essa autoridade os filhos ficariam à mercê de seus impulsos, o que os deixaria inseguros e angustiados. Assim, os pais não podem abrir mão de exercer sua autoridade para definir limites claros e coerentes – sob o risco de seus filhos não terem elementos para desenvolver sua independência. Os limites, impostos pela realidade e traduzidos pelos pais, inserem a criança no universo social.

            Mas o exercício da autoridade implica a responsabilidade de fazer o filho entender o que se espera dele, de forma a capacitá-lo a generalizar a norma para novas situações. Faz parte do dever dos pais explicar com clareza o que esperam dos filhos e ajuda-los a cumprir essas expectativas.

 

Ninguém gosta de ouvir um não. Ninguém gosta de dizer um não. Mas dizer “não” faz parte da responsabilidade dos pais, assim como faz parte do desenvolvimento da criança e do adolescente aprender a respeitar os limites e a defender seus pontos de vista por intermédio da argumentação, e não da birra. É preciso entender que, assim como a reprovação dos pais não representa perda de afeto, a revolta do filho não significa ruptura nem desamor – significa afirmação da diferença. Lidar com a revolta, em vez de temer essa reação, faz parte da tarefa dos pais; na mesma medida em que os filhos precisam aprender a tolerar as frustrações decorrentes dos limites impostos pela realidade, dos quais os pais são depositários e tradutores – e não autores.

O ser humano tem contato com a frustração desde que sai do útero e o corte do cordão umbilical inaugura a experiência da falta. A partir daí, o bebê passa a viver o adiamento da satisfação de suas necessidades e aprende a tolerar frustração. O recurso que o recém-nascido lança mão, diante das primeiras experiências de frustração, é a fantasia – prerrogativa e consolo dos humanos. Assim, ao sentir fome sem ter como saciá-la, fantasia a presença do seio materno. Mas, se de início esse seio alucinado aplaca a angústia do bebê, ele não atende a necessidade de alimento, e um recém-nascido morreria de fome se, satisfeito com seu delírio, não lançasse mão do outro recurso que a natureza o dotou: o choro.

A educação começa no momento em que a mãe atribui significado ao choro do bebê. Por meio dessa troca de informações entre a criança e a mãe, o grito se transforma em comunicação, e as novas experiências emocionais da criança adquirem sentido. Traduzindo o choro como expressão de fome e atendendo ao apelo da criança, a mãe demonstra que a espera não significa abandono e que a frustração tem fim e, portanto, pode ser tolerada.

Por mais poderosos e indulgentes que sejam os pais, nenhuma criança tem todos os desejos atendidos, até porque o desejo é ilimitado. Assim, a criança se dá conta de que a frustração é inerente à vida e aprende a lidar com esse sentimento. Se os pais tentam satisfazer imediatamente todos os desejos dela, a criança entende que a frustração representa um desvio de rota decorrente da incompetência ou da intolerância dos pais, e tem mais dificuldade para lidar com as frustrações que a realidade impõe. Tornam-se crianças impacientes e birrentas e tendem a transformar-se em adolescentes ansiosos, que sofrem quando têm de suportar qualquer adiantamento de sua satisfação.

 

PARA QUE SERVE A AUTORIDADE?

            Desde o momento em que se delimitam as primeiras fronteiras entre o desejo da criança e os critérios da realidade, os parâmetros que norteiam essa diferenciação devem ser explicados e entendidos. De pouco servirá uma norma decretada sem uma fundamentação que os filhos possam acompanhar. Mesmo que os pais se façam obedecer, não estarão exercendo sua função educativa, que é a de leva-los a entender princípios e formar um código de referência, pelo qual pautar sua conduta. Não basta que a criança e o adolescente respeitem o não, eles precisam compreender o motivo da interdição, de modo a poder aplicá-la em situações semelhantes. Precisam compreender a aceitar esse código, pois dele depende sua inserção na comunidade humana, na qual, ao contrário do que se passa entre os animais, a lei não é a da coerção pela força. Para ser realmente educativa, a imposição de limites tem de passar por um processo de argumentação e até de confronto, em que os pais e filhos exercitam suas respectivas capacidades de tolerância e de argumentação.

            Existem situações que permitem exceções a normas estabelecidas. A hora de chegar em casa pode ser alterada em ocasiões especiais, como quando o adolescente tem uma festa especialmente importante, ainda que seja no meio da semana; ou quando uma banda de rock internacional faz uma única apresentação na cidade. Essa flexibilidade dos pais demonstra que os desejos do jovem são levados em consideração e que suas preferências musicais são respeitadas, mesmo que os pais não concordem com elas.

            Em alguns conflitos, se o filho tiver a oportunidade de expor seus argumentos em defesa da mudança de uma norma antiga, talvez consiga convencer os pais de que sua competência é maior do que os pais percebem – e a norma pode ser atualizada. Ou a mudança pode ocorrer nos pais, que talvez estejam menos intolerantes do que já foram. (Felizmente, os adultos também estão em mutação.)

            A experiência de viver sob um regime despótico e arbitrário levou muitos pais e professores a abrir mão de seu dever de exercer a autoridade, por medo de serem confundidos com tiranos. Uma dinâmica semelhante leva alguns pais que se sentirem esmagados por uma educação desrespeitosa e sufocante a confundir autoridade com arbitrariedade. Para se diferenciar dos pais tiranos que tiveram, propõem-se a fazer com os filhos o oposto do que viveram, e renunciam a qualquer forma de autoridade.

 

PONTOS NO QUESITO POPULARIDADE

            Além da intolerância à frustração dos filhos e do desejo de ser diferente dos próprios pais, a preocupação com a popularidade também colabora para a dificuldade dos pais em estabelecer e fazer respeitar limites. Os pais querem que os filhos os considerem camaradas, divertidos, legais. Mais: querem que os amigos dos filhos tenham uma boa impressão dele. Com medo de desmanchar essa imagem, às vezes ultrapassam seus próprios limites, tentando ser mais liberais do que suas vísceras toleram. Isso é: para serem vistos como modernos e compreensivos e não receberem a pecha de antiquados, tentam ser mais tolerantes do que são.

            A preocupação com os rótulos não colabora para o relacionamento entre pais e filhos. Não se trata de escolher entre ser liberal ou repressivo. É preciso saber se situar com clareza entre essas duas balizas, a partir da competência do filho e dos valores e sentimentos dos pais – sem ultrapassar os próprios limites para se mostrar moderno, nem ser mais restritivo do que suas convicções permitem só para demonstrar poder.

            O oposto de uma educação repressiva e intolerante não é uma educação permissiva, mas uma orientação segura e coerente, uma autoridade firme e confiável. Espremidos entre várias teorias e palpites, os pais sentem-se inseguros e desorientados. Com medo de errar, muitos se tornam mais tolerantes do que gostariam, enquanto outros se tornam omissos. As duas posturas extremas deixam os filhos desprotegidos, à mercê dos próprios impulsos, sem condições de formar um código de conduta.

            É impossível conquistar a liberdade sem conhecer os próprios limites para, a partir daí, aprender a superá-los. Educar com limites verdadeiros, claros e não arbitrários é também educar para o exercício pleno da liberdade.

 

POR QUE O GRUPO É IMPORTANTE?

Você lembra de ter sido forçado pelo grupo a se comportar de maneira contrária à sua vontade? Como se sentiu depois? Como se sente quanto a isso agora?

 

            A adolescência é inaugurada com a descoberta do mundo interno, isto é, do sentimento de solidão. A criança não faz uma separação clara entre ela e o mundo (tanto que, para se esconder, fecha os olhos; acredita que se não está vendo também não é vista). Mas um dia a gente percebe que possui um mundo interno – povoado de emoções, lembranças e anseios – a que ninguém tem acesso. Descobrimos que nosso acervo é diferente do que habita o melhor amigo ou o irmão e que não é possível traduzi-lo em palavras. Percebemos então que existe uma barreira na comunicação entre nós e qualquer outro ser humano, por mais próximo e querido que seja. Essa descoberta é perturbadora, e daí em diante todos tentam escapar desse sentimento lançando mão de truques que variam em criatividade e eficiência, conforme o repertório de cada um.

            O primeiro deles é criar um grupo de pertinência. Por exemplo: “Sou da turma que usa o boné virado. Nós, os boné virado, somos todos iguais – gostamos das mesmas músicas, usamos as mesmas roupas, falamos o mesmo idioma e acreditamos nas mesmas verdades. Isso nos identifica e nos faz irmãos”.

            Mas fazer parte de uma turma obriga o jovem a estar sempre atento para não destoar dos outros e assim correr o risco de perder a força que emana da união do grupo. Às vezes ele paga um preço muito alto para não discordar. O medo ou a vergonha de confrontar o grupo pode leva-lo a ultrapassar os próprios limites e antecipar experiências para as quais ainda não se sente pronto.

            O comportamento, no entanto, não pode ser pautado pela reação que se imagina provocar. Ninguém tem o poder de prever a reação do outro, muito menos de controlar o pensamento do grupo. Vaidade, necessidade de afirmação, insegurança e timidez são atores que podem levar um jovem a viver experiências que preferia adiar.

 

            Tudo isso desaparece em pouco tempo, a menos que haja alimentos externos para nutrir esses grupos, dando-lhes uma falsa noção de que os membros dessa “seita” são não só iguais entre si e diferentes de todos os demais, mas melhores do que os membros de outras seitas. Daí para a crença de que eles são os únicos bons e que os outros não merecem viver faltam poucos passos.

            Em nome da aprovação do grupo, alguns jovens chegam a se camuflar de irresponsáveis, por medo de serem considerados caretas pelos colegas ao apresentar uma imagem de bom aluno. Meninas ficam com garotos pelos quais não estão interessadas. Meninos sentem-se obrigados a fazer várias trocas de parceiras quando talvez preferissem aprofundar o relacionamento com uma delas. E os que saem de uma balada sem ter ficado com ninguém e se sentem inferiorizados e rejeitados.

            Dificilmente o jovem partilha com os colegas os arrependimentos e angústias que decorrem de tais situações, pois confessá-las a alguém do grupo pode ser interpretado como fraqueza – e as confidências poderão ser usadas como armas de agressão e chantagem, ou até justificativa para rejeição. Muitos jovens preferem calar-se a admitir que têm sentimentos diferentes daqueles que o grupo espera e que todos exibem, provavelmente com a mesma motivação e o mesmo fingimento.

 

CONCESSÕES AO GRUPO: E OS PAIS?

            Muitos pais se veem na mesma situação dos jovens diante do dilema de atender os próprios padrões ou ceder em nome da participação do grupo. Por mais que achem absurdo os jovens dormirem de madrugada e irem a festas que começam depois da meia-noite, os pais não se atrevem a simplesmente proibir, pois sabem que isso poderia deixar o jovem isolado. De fato, o problema não está tanto no horário, pois já se foi o tempo em que o perito estava associado à escuridão da noite. O que importa é saber o que acontece nessas festas. Em vez de questionar o horário, o melhor é saber onde é a balada, quem vai estar presente, eventualmente conversar com os donos da casa (mesmo que o filho abomine essas precauções).

 

O NASCIMENTO DA MORAL:

UM POUCO DE PIAGET

 

            O psicólogo Jean Piaget, estudioso do desenvolvimento humano, identificou fases no processo de amadurecimento mental. Suas pesquisas revelam que, até os 6 anos de idade, a criança ainda não discrimina o que se passa dentro do que ocorre fora dela, e confunde seus sentimentos com os das pessoas que lhe são próximas. Nessa fase, o comportamento moral se restringe à obediência aos adultos, e a base para a ética é o respeito à autoridade. A criança pode até brincar com os amiguinhos, mas é mais provável que brinque ao lado de outra criança sem uma verdadeira interação. O pensamento está preso à lógica concreta: só vale o que os olhos veem.

            Dos 6 aos 10 anos, a criança desenvolve a capacidade de entender regras e é capaz de observar alguma disciplina. Sua inteligência ainda é eminentemente prática, mas a compreensão se dá por identificação. Ela é capaz de atuar em grupo e os jogos se fazem com regras contratadas entre os jogadores. A moral se apresenta sob a forma de atitudes de cooperação e de respeito entre simétricos – sementes de onde brotarão os sentimentos de lealdade e justiça.

            Por volta dos 12 anos, a criança elabora conceitos pela repetição da norma em diferentes situações e já se insinua uma organização autônoma de regras e valores, a partir da qual se estrutura a personalidade.

            A capacidade de efetuar operações intelectuais abstratas desenvolve-se na adolescência, quando se dá a passagem da lógica concreta à lógica formal. O pensamento se liberta da experiência imediata, o que permite a construção de sistemas e teorias abstratas e garante alguma autonomia da consciência moral, derivada do respeito entre os simétricos. A reflexão liberta-se da concretude e a capacidade de abstração, recém-adquirida, permite ao jovem pensar o mundo para além das fronteiras do universo conhecido. Nessa fase ele é fértil em elaborar teorias e sistemas para salvar o mundo, embora seu altruísmo esteja ainda mesclado a uma onipotência infantil.

            A psicologia do desenvolvimento ensina que o melhor momento para estimular uma capacidade é a fase em que ela aparece e tem hegemonia. É por esse motivo que a adolescência é a fase privilegiada para a instalação de um código de ética. Não há momento melhor para firmar compromisso com valores morais, como a tolerância pelo diferente, o amor à justiça, o sentimento de solidariedade e a compaixão.

 

A ÉTICA COMO PARTE DO AMOR-PRÓPRIO

 

            Há um problema com relação à ética: nossa crença nos valores morais se dá no abstrato, em termos pomposos (acreditamos na dignidade, no respeito ao próximo, na integridade), mas esses valores devem ser traduzidos por atos e palavras, nas relações cotidianas. Aí tudo muda. Aqueles que anunciam valorizar o respeito pelo semelhante são capazes de promover brincadeiras grosseiras e agressivas. Os mesmos que pregam a tolerância com as diferenças inventam para os colegas apelidos maldosos, que apontam justamente para as características pessoais menos atraentes (Gordo, Fofa, Magrelo, Girafa, Tampinha, Dentinho). Quem fala de solidariedade e justiça une-se ao grupo para achincalhar quem é considerado mais fraco (ou menos popular). Os que cultuam a honestidade compram fitas e discos pirateados ou fazem ligações clandestinas de TV a cabo.

            Assim, a alegação de que é impossível passar nossos valores aos adolescentes porque eles percebem que nossa sociedade não cultua esses mesmos valores é uma desculpa esfarrapada e mentirosa. Afinal, quem é “nossa sociedade” senão o conjunto das famílias que a compõem? Se todas as famílias realmente praticarem os valores que apregoam e não comprarem fitas piratas, nem passarem pelo acostamento, nem fizerem gambiarras para receber canais a cabo sem pagar taxa…. Em suma, se todos os pais mostrarem bons exemplos a seus filhos, “nossa sociedade” passará a cultuar os mesmos valores que as famílias.

            A obediência pautada no medo das autoridades, além de pouco eficiente (pois só funciona na presença do controlador), teve um papel nefasto na história antiga e recente da humanidade – grandes iniquidades foram cometidas em nome da obediência devida. Obedecer para não receber castigo não é uma boa matéria-prima para a elaboração de um código de ética. Não parar sobre a faixa de pedestres por medo de ser multado é diferente de respeitar a faixa por consideração ao próximo. Recolher latas e plásticos na orla do mar para coloca-los no lixo, sem se preocupar em receber prêmios nem elogios, é um comportamento ético. Mas não estacionar em local proibido com medo de ser guinchado é apenas obediência.

            O metrô da cidade de São Paulo é uma prova de que é possível incentivar o comportamento adequado de toda uma comunidade sem ameaças nem castigos. Tanto os trens quanto as estações e plataformas têm um nível de higiene impecável, em flagrante contraste com as calçadas esburacadas e sujas das ruas que dão acesso às estações. Há uma fronteira nítida: a partir do primeiro degrau que leva às plataformas, entramos num novo ambiente. Os muitos recipientes para lixo colocados em lugares estratégicos colaboram para a manutenção da limpeza, a presença de funcionários varrendo ostensivamente cada grão de poeira inibe o gesto de atirar objetos no chão. Há cartazes que chamam a atenção para a higiene do local e incentivam a população a colaborar. Mas nenhum deles fala de sanções ou multas para os desrespeitosos – isso, no caso, não se faz necessário.

            Será realmente impossível conseguir o mesmo comportamento dos habitantes de uma casa? Ou dos alunos dentro da escola?

            O mundo será um espaço mais agradável para viver quando a ética fizer parte do registro do amor-próprio, e não do medo da lei.

 

O HOMEM É O LOBO DO HOMEM

            Os 33 mineiros que ficaram presos por mais de dois meses a quase 700 metros sob a terra, na mina San José, no interior do Chile, foram resgatados com vida na quarta-feira (13 de outubro), depois de 69 dias soterrados. Às 23h38, as tvs já transmitiam a chegada do médico socorrista Manuel Gonzáles até onde estavam os mineiros. Ele foi aplaudido pelas pessoas que estavam na superfície, as quais começaram a cantar o hino nacional chileno. Logo que iniciou a descida, a cápsula deu uma leve parada, mas seguiu seu curso. Na hora do embarque na cápsula, González ouviu uma mensagem de apoio pronunciada pessoalmente pelo presidente do Chile. “Todos os chilenos estão com você, nos vemos aqui em cima”, afirmou. Em seguida, a cápsula foi fechada e iniciou a descida. (Agência Estado – 13/10/2010).

            A notícia foi transmitida pelos meios de comunicação do mundo inteiro, nos dias 12 e 13 de outubro de 2010. O processo de resgate dos 33 mineiros do Atacama emocionou internautas em todo o mundo. No twitter, os tópicos “mineiros”, “superfície” e “cápsula” ficaram entre os mais populares até mesmo no Irã, na Malásia e em países da África, de acordo com o site trendsmap.com. Segundo pesquisa do Ibope, a cobertura da Globo News da retirada dos mineiros teve, naquele mês, o maior número de espectadores da tv por assinatura. Estima-se que no mundo inteiro 1 bilhão de pessoas tenha acompanhado a saga dos homens pela tv e pela internet.

            A produção do conteúdo foi alimentada por 1,5 mil jornalistas que trabalhavam no acampamento Esperança, além dos que garantiam as operações nas redações e centros de transmissão. Nos Estados Unidos, segundo o site Internet Movie Database, mais de 7 milhões de telespectadores sintonizaram a rede Fox na noite de 13 de outubro, para assistir ao salvamento do último mineiro, Luiz Urzúa. Foi a maior audiência da rede desde a eleição de Barack Obama, em 2008. De acordo com o Real-time Web Monitor, citado pela CNN, o tráfego da internet do dia 12 de outubro, às vésperas do resgate, já era de 4 milhões de usuários por minuto, atrás apenas de certos jogos da Copa do Mundo.

            O programa Breakfast, registrou no dia 14 um pico de audiência de 2,5 milhões de telespectadores, impulsionado pela curiosidade do público que queria noticias do resgate, s só foi concluído no meio da madrugada britânica.

            O que você acha que movia essas pessoas? Qual era o sentimento predominante nos espectadores? O que fez o médico Manuel González se oferecer como voluntário para testar a cápsula recém-construída e descer 700 metros de profundidade para ajudar no resgate de 33 desconhecidos?

            Provavelmente o mesmo sentimento que, em janeiro de 2011, mobilizou o brasileiro Pedro, um pedreiro que perdeu toda a família na avalanche que soterrou as cidades serranas do Rio de Janeiro, a transformar sua dor em energia para auxiliar na busca de sobreviventes. Como ele, tantos outros engoliram as lágrimas e buscaram forças para participar da corrente de solidariedade que se formou e se forma prontamente toda vez que uma catástrofe atinge alguns de nós. Porque é assim que somos, nós, os humanos. É dessa matéria que somos feitos: somos sensíveis, solidários e disponíveis para além dos próprios limites.

            O homem é lobo do homem? Não acredite nisso, não espalhe essa calúnia. O homem é irmão do homem. Transmita essa verdade a seus filhos. Ensine essa verdade a seus alunos.

 

 

INTOLERÂNCIA

Quem era o ET da sua turma, quando você cursava o ensino médio? Como você se relacionava com ele? Em que sentido você também poderia ser considerado um ET?

 

            – Os responsáveis pela Segunda Guerra Mundial foram os ciclistas e os judeus?

            – Por que os ciclistas?

            – Por que os judeus?

            Ou

            No Brasil não existe preconceito de cor, porque aqui, graças a Deus, o preto conhece seu lugar.

 

            O preconceito – essa chaga que corrói o tecido social e alimenta a marginalidade e a injustiça – assume disfarces sutis e, justamente por isso, altamente venenosos. Observe:

 

            1 – Numa agência bancária, para que tipo de pessoa o segurança aciona a trava de segurança da porta giratória?

            2 – Na sala de aula, quais são os alunos relegados às últimas carteiras, que recebem menos atenção do professor?

            3 – No recreio da escola, como são as crianças que ficam isoladas, preteridas nas escolhas para as brincadeiras coletivas?

            4 – Numa loja, quando há vários fregueses à espera de atendimento, a que tipo de pessoa as vendedoras se dirigem em primeiro lugar?

            5 – Nos classificados de empregos dos jornais, o que significa a expressão “boa aparência”?

            6 – Que tipo de moradores é mencionado pelo corretor de imóveis preocupado em garantir a um possível comprador a “boa vizinhança” do condomínio?

            7 – “Vocês estão sozinhas?”, pergunta o garon solicito à três mulheres sentadas à mesa do restaurante. O que falta para que ele reconheça que as moças estão acompanhadas?

 

            Se você não pertence a nenhum dos grupos visados por essas situações (isto é, se você não é negro, não tem dificuldade para se comunicar verbalmente, anda sempre bem vestido, não é judeu, nem pobre, nem mulher) talvez não perceba quanta crueldade pode haver no cotidiano de quem enfrenta o preconceito. E se você não foi capaz de perceber a intolerância e a injustiça que essas situações denunciam provavelmente está sendo cúmplice (ainda que involuntário) do insidioso processo de marginalização.

            Um dos filmes mais preciosos contra o preconceito é E.T., de Steven Spielberg. Uma criatura asquerosa, com pele de réptil e olhos remelentos vai ganhando nossa simpatia até que, como num passe de mágica, a plateia inteira se apaixona por aquele ser estranho – que já não é estranho, pois se transformou em um filhote quase humano, indefeso e terno. Essa ternura não está na figura do E.T., está nos olhos do espectador, que empresta seu sentimento ao personagem ao ter a própria ternura mobilizada por ele.

            Spielberg não se refere realmente a um ser de outro planeta. Usando a metáfora do extraterrestre, ele fala do vizinho que é judeu, do garoto da feira que é negro, de todos os sujos e maltrapilhos e deficientes que muitos não são capazes de amar. Uma obra de arte é capaz de nos fazer sentir o quanto esses personagens nos são próximos, quanto eles estão dentro de nós.

            Ter pouco contato com pessoas diferentes leva ao estranhamento, a não reconhece-las como semelhantes – o que torna difícil desenvolver sentimentos de identificação pelo outro e, portanto, de solidariedade. E sem sentimentos é impossível construir a cidadania.

 

BULLYING

Você se lembra de ter presenciado algum episódio de bullying quando adolescente? Lembra de ter participado de algum? Em que posição?

 

            Todos os espaços que frequentamos ensinam, explicitamente ou implicitamente, com intencionalidade ou não. Os shoppings centers são planejados, construídos, decorados e ocupados para o consumo. Mesmo quando entramos em um shopping com a única intenção de ir ao cinema ou restaurante, os caminhos, sempre tortuosos, entre um andar e outro nos obrigam a olhar para todas as vitrines, na esperança de que nos desviemos de nossa rota e acabemos cedendo a alguma tentação. A que cidadão esse espaço se destina? O que esse espaço ensina?

            As ruas sujas e malcuidadas de uma cidade, sobretudo as da periferia, ensinam que o espaço público é um lixo, é terra de ninguém – “ninguém” é o nome de seus habitantes. Quem é o cidadão desse espaço?

            Pensemos agora no âmbito familiar. As casas (barracos ou mansões) ostentam no centro da sala – espaço de convívio por excelência – um aparelho de televisão, colocado como uma santa no altar, uma situação que induz à contemplação, ao silêncio e à passividade. Não convida ao diálogo, à troca, à ação. O que essa família ensina?

            E a escola? Diferente dos outros espaços por onde a criança circula, a escola é um local intencionalmente organizado para educar – e educar para o convívio. Queremos que os alunos vivam uma experiência escolar que os faça sentir-se como cidadãos (em toda sua complexidade e dificuldade, responsabilizando-se por suas escolhas e arcando com as consequências) e entendam que ninguém pode ser cidadão de fato se a cidadania não for compartilhada por todos. Se o espaço público é terra de ninguém, e o dinheiro público não tem dono que zele por seu uso, a quem pertence a escola pública? Se as paredes adormecem rabiscadas acordam rabiscadas, o que está sendo sinalizado? Se lâmpadas queimadas não são trocadas, a sujeira no pátio e nos corredores só acumula, o que isso ensina?

            Será que essas observações têm a ver com esse fenômeno que, de uns tempos para cá, tem ocupado e preocupado os meios de comunicação, os pais e educadores? Teria o bullying alguma ligação com esses fatores?

           

            Até pouco tempo, os episódios de bullying (manifestação extremada de preconceito e hostilidade, prática violenta na qual um aluno se torna alvo de chacotas e agressões de colegas) eram negligenciados, tanto pelas escolas como pelos meios de comunicação, que preferiam minimizar as ocorrências, tachando-as de “brincadeiras de criança” – negando assim os graves efeitos sobre todos os participantes. Alguns especialistas chegavam a afirmar categoricamente que a escola tinha pouco a fazer com relação a esse comportamento, embora o próprio Ministério da Educação tenha dado destaque à questão da convivência escolar, ao criar uma série de filmes chamada Ética no convívio escolar, parte de um projeto de formação de professores.

 

            A tendência das publicações sobre o assunto e a preocupação de pais e educadores se centram, ainda hoje, nas vítimas das agressões, como se os excluídos dos grupos de pertinência fossem os únicos personagens da trama a precisar de tutela e orientação para mudar de atitude – quando em geral não há nada de errado com eles. As vítimas não necessitam mais de cuidados que os líderes e, na mesma medida os seus seguidores, que precisam aprender a pautar sua conduta por valores condizentes com o que a escola prega – e não a seguir cegamente lideranças baseadas na força e na aparência.

 

            Já assistimos ao desdobramento dessa dinâmica em tragédias como a da escola americana Columbine, em 1999 (cujos vilões eram os rejeitados pelo grupo), e em episódios mais próximos de nós, como o que se deu na piscina do centro acadêmico de uma faculdade paulista, quando um grupo de “populares” com a conivência dos “normais”, assistiu ao afogamento de um colega tímido e desajeitado para os esportes. Ou do garoto de 12 anos que se enforcou depois de registrar em seu diário na internet o intolerável martírio de ser ver continuamente ridicularizado pelos colegas.

            Nota: este livro foi escrito antes do episódio em Realengo no Rio de Janeiro.

 

            Os agressores se impõem pela violência e sua liderança sobre os colegas é garantida pelo medo. Se nada for feito para mudar a trajetória desses personagens, serão adultos impulsivos, de comportamento antissocial. Suas vítimas, tendem a se tornar adultos deprimidos e com baixa autoestima, são geralmente alunos inseguros que têm vergonha de se queixar das ofensas, por medo de ser ridicularizado pelos adultos. Os espectadores, que muitas vezes até sentem simpatia pelas vítimas, também sofrem as consequências funestas da situação. Calam-se por medo de tornar-se o próximo alvo ou por não saber como agir, mas percebem que sua omissão acoberta as agressões e colabora para a falsa tranquilidade dos adultos. Arcam, assim, com o peso da culpa e da diminuição da autoestima. Afinal todos querem ser heróis e se ressentem diante da descoberta da própria covardia.

            A escola não pode ser simplesmente um espelho e guardiã dos valores de uma sociedade. Deve ser também o espaço de reflexão e crítica desses valores. Ao menos do lado de dentro de seus muros, todos têm o direito de ser tratados com respeito pelos colegas e pelos professores, qualquer que seja a qualidade de suas roupas ou sua capacidade de mimetizar estereótipos lamentáveis do universo adulto.

 

O QUE PODEMOS FAZER?

            Para provocar uma mudança consistente no ciclo de episódios de violência, todos os personagens do enredo devem ser vistos com o mesmo cuidado. Não há vítimas, vilões e plateia. Quando essas ocorrências se dão entre jovens todos são vítimas de uma trama nefasta, cujos responsáveis (comunidade, família e escola) desviam o olhar e lavam as mãos criminosas. Não se trata de caçar culpados, mas de atribuir responsabilidades. A busca de culpados é uma atividade inútil, que só faz mobilizar defesas e estimular a paralisia. A pesquisa de responsabilidades, ao contrário, devolve o poder às partes envolvidas e permite um plano de ação para promover mudanças. Soluções paliativas e piegas (do tipo “façam as pazes e se deem as mãos”) não produzem nenhum efeito, a não ser o de estimular a hipocrisia. Só se consegue uma mudança verdadeira a partir da mobilização emocional dos envolvidos, estimulando a empatia e identificação com os ofendidos e humilhados. Filmes, peças de teatro e romances, se bem aproveitados, são excelentes coautores desse processo. No final deste capítulo, sugestões de filmes que abordam o assunto.

                        No jogo de empurra entre escola e família, todos perdem: os jovens, deixados à mercê da culpa e da humilhação; os pais, impotentes para resolver a questão importante, que lhes diz respeito, mas que exige uma amplitude de poder que não possuem; e a escola, que abra mão de uma excelente oportunidade de exercer sua função de formadora de cidadãos éticos.

           

A PARTE DA COMUNIDADE

            Antigamente, as crianças de todos os estratos sociais brincavam na rua; hoje, a tendência de morar em condomínios fechados, que oferecem todas as facilidades do clubes, restringem a vida a grupos homogêneos segregados, com raros contatos com pessoas diferentes. As escolas que os jovens frequentam também têm alunos do mesmo estrato socioeconômico, e assim não oferecem a possibilidade de convivência continua com jovens de origens e culturas distintas. Esse convívio exclusivamente entre semelhantes faz crianças e jovens olharem com desconfiança qualquer um que pareça diferentes.

            Além disso, vivemos em uma sociedade que incentiva a violência e exige uma tolerância desproporcional com a agressividade, confundindo virilidade com prepotência. O esporte mais popular do Brasil, o futebol, dá exemplos gritantes dessa confusão. O comportamento violento dos jogadores dentro do campo e das torcidas até fora dos limites do estádio é estimulado pela crônica esportiva, que usa uma linguagem bélica para narrar e comentar partidas. Os locutores e comentarista referem-se ao adversário como “inimigo”, falam do jogo como se fosse uma “batalha”, tratam o goleador de “matador”. E usam expressões como “revanche”, “vingança” e outros termos marciais quando comentam partidas entre times rivais. A publicidade, quando usa imagens ligadas ao futebol, também nos brinda com incentivos diretos à violência, ao apresentar torcidas como se fossem hordas de guerreiros se preparando para uma batalha. Parece que se perdeu a dimensão simbólica das competições.

 

A PARTE DA FAMÍLIA

            Muitas atitudes dos pais incentivam a agressividade dos filhos (sobretudo os meninos). Elogiam (quase com uma ponta de inveja) o garoto que “sabe o que quer”, confundindo teimosia com capacidade de liderança. Estimulam o garoto a “não levar desaforo para casa” ou interrompem uma briga entre irmãos praticamente do mesmo tamanho com uma palmada em cada um (ensinando, sem perceber, que só se pode bater em quem é menor…..). Outros exemplos do incentivo, consciente ou não, da violência:

1 – A rejeição ao projeto de lei que pretendia proibir os castigos físicos pelos pais ainda é uma demonstração cabal de que a pedagogia do tapa ainda é amplamente utilizada. Independentemente da intenção ou intensidade do castigo físico, é inegável que, quando um adulto dá um tapa numa criança, está ensinando que a violência é uma forma legitima de resolver um problema.

 

2 – Desde o nascimento até a adolescência, é escassa a presença dos homens no universo infantil. As crianças vivem cercadas por mulheres (mãe, avós, tias, vizinhas, madrinhas, professoras, diretoras, inspetoras, a moça da cantina, a tia da perua etc). Com isso, os meninos têm poucos modelos masculinos que ensinem a controlar a agressividade.

 

3 – Jogos solitários, no computador ou no videogames, não ensinam a respeitar o outro e favorecem a distorção do conceito de brincadeira, pois os personagens na telinha não reagem aos maus-tratos, nem levam os agressores a sentir culpa.

 

4 – Os pais oferecem poucas opções para o jovem exercitar de maneira legitima o sentimento de pertinência, fundamental na adolescência. Não são incentivadas atividades coletivas, como a participação em equipes esportivas, grupos de teatros ou corais.

 

 5 – Os pais tendem a responder pelo critério da urgência, não da importância. Com isso, comportamentos inadequados recebem mais atenção do que bons comportamentos. A criança aprende que, se quiser ser notada pelos pais, é melhor arrumar uma boa briga do que tomar banho ou fazer a lição de casa.

 

6 – Nas famílias de classe média e alta, os pais não transmitem a noção de que os privilégios que cercam seus filhos não são um direito divino, mas fruto do trabalho ou da injustiça social. Assim, falham em fazê-los compreender o peso da responsabilidade implicado em ser privilegiado numa condição de desigualdade de oportunidades. Esses jovens precisariam saber que, se é injusto que alguns tenham poucas oportunidades enquanto para outros, privilegiados, a vida oferece inúmeras opções, é ainda mais injusto os privilegiados desperdiçarem as oportunidades a quem têm acesso, comportando-se como alunos relapsos de boas escolas ou usando mal o seu amplo tempo de lazer.

 

7 – Pais que têm pouca intimidade para decifrar os sentimentos que os filhos expressam confundem sinais de sofrimento e de medo com preguiça, o que impede os filhos de relatar a violência de que são vítimas – e assim deixam os filhos expostos a mais experiências de agressão na escola.

 

A PARTE DA ESCOLA

            No início do século XXI, deu-se numa escola de classe média de São Paulo um caso exemplar. Um aluno de 14 anos, do último ano do ensino fundamental, trouxe para a escola o revólver do pai – que foi quem ligou para a direção da escola assim que deu falta da arma (que estava sem munição). O menino foi, então, flagrado no pátio da escola, exibindo o revólver para os colegas, que admiravam o objeto, entre surpresos e encantados. Note bem: ele exibia o revólver, não ameaçava ninguém com ele, nem parecia agressivo ou belicoso. A arma foi imediatamente devolvida ao legítimo dono (o pai acorrera à escola logo depois de telefonar) e a escola optou por punir o aluno, mas não expulsá-lo. Com isso, criou-se uma celeuma entre dos outros pais, muitos deles exigindo a retirada imediata do “aluno agressivo e perigoso”.

            Você acha que esses pais estavam certos? O aluno seria mesmo violento, representava um perigo para seus colegas, que precisavam ser protegidos da agressividade dele?

            É claro que essa situação desvela uma agressividade latente e expressa um grau de violência incompatível com o ambiente escolar. Mas será que essa agressividade está apenas no aluno que levou a arma? Afinal, ele não ameaçava ninguém, nem sequer brincava com o revólver – simplesmente ostentava o objeto como quem exibe um troféu, numa clara demonstração que a arma suscitava, mais do que medo, admiração e inveja de seus pares. E era essa, evidentemente, a intenção do aluno transgressor: ele sabia que o revólver lhe traria prestígio junto ao grupo.

            Essa é a questão mais importante do episódio do ponto de vista pedagógico: por que, para ganhar status no grupo, o objeto escolhido era um símbolo da violência? Por que não uma camisa autografada pelo craque do seu time?

 

            Nossos jovens passam grande parte do tempo sob a guarda da escola e é dentro de seus muros que se formam os grupos de pertinência. Essa condição oferece uma oportunidade que não pode ser desperdiçada. Os educadores deveriam estar atentos ao processo de formação das turmas e acompanhar os critérios pelos quais as lideranças são escolhidas e validadas. É perda de tempo discutir parcelas de responsabilidade, quando somos todos (e cada um de nós) inteiramente responsáveis pela formação de nossos jovens e, portanto, pelo futuro de nosso planeta.

            Quando se trata de violência, é imprescindível uma parceria verdadeira entre escola e família. Infelizmente a maioria das escolas essa aliança é superficial, carregada de hipocrisia. Diante de uma crise importante, dificilmente os pais do aluno problemático e os gestores do colégio podem de fato dar-se as mãos em prol do jovem. A tendência da escola é expulsar o aluno, com a alegação (em geral verdadeira) de que os pais dos outros não tolerariam deixar seus filhos numa instituição que eles consideram coniventes com o aluno faltoso.

            Felizmente, a escola onde se deu o episodio da exibição da arma manteve sua posição de não transformar o protagonista em bode expiatório, reconhecendo que o aluno apenas expressava, de forma clara e exacerbada, uma característica presente em todo o grupo.

 

CORAGEM DE SER DIFERENTE

            Não é fácil enfrentar um grupo para defender um colega que é alvo de agressões e caçoadas. É preciso coragem para não se deixar levar apenas pelo desejo de ser aprovado pelo grupo, ou pelo medo de ser confundido com o membro mais frágil – quem não tem vir ocupar, em algum momento, o lugar do humilhado? Mas também não é fácil enfrentar a própria consciência no meio da madrugada, quando cada um está sozinho diante do que fez de seu dia, e pensa no que deveria ter feito e não fez por covardia.

 

VIOLÊNCIA EM ESCOLAS PARTICULARES

            Já foi o tempo em que apenas os cenários pobres de escolas públicas eram palco de cenas de violência – também assistimos as cenas lamentáveis de agressividade e desrespeito em escolas de classe média e alta, frequentadas por jovens de famílias econômica e culturalmente privilegiadas. Aí o problema pode ser até mais difícil, pois os professores dessas instituições têm a expectativa de que seus alunos tragam de casa uma educação adequada. Como nem sempre é o caso, sentem-se despreparados para lidar com alunos agressivos e sem limites. Mas não adianta lavar as mãos nem clamar aos céus com a alegação de que a escola não pode tomar para si a responsabilidade que a família não assume.

            Não é válida a desculpa de que os alunos passam pouco tempo na escola, em comparação com o que passam com a família. O tempo não é pouco nem muito, é o tempo possível. Pensando bem, 25 horas por semana durante 10 anos somam 13 mil horas, o que não é pouco. Nenhuma agência de propaganda conta com tantas horas para apresentar o seu produto ao consumidor. Temos que aproveitar esse tempo para fazer o melhor – se não o fizermos, será uma preciosa oportunidade desperdiçada, tanto maior quanto mais horas os jovens estiverem conosco.

            É importante notar que os jovens privilegiados correm alguns dos mesmos riscos que seus colegas economicamente menos favorecidos, mas em suas mãos a sociedade talvez corra riscos até maiores: estatisticamente, é dentro desses alunos que sairão os políticos e empresários da próxima geração, é desse grupo que sairá a maior parte das autoridades e dos líderes que comandarão o país. Essa é a hora de encontrar canais adequados para o inconformismo e a rebeldia. Esse é o momento de apontar espaços de atuação através dos quais a contestação própria da adolescência contribua, de fato, para melhorar o mundo.

            Não podemos deixar passivamente que os jovens acreditem que o mundo é feito de corrupção e violência e que nele só os valentões e os espertalhões levam vantagem. Para lutar contra a paralisia e o cinismo de que tanto nos queixamos, não há momento mais propício do que na adolescência; não há espaço mais adequado do que a escola.

            É verdade que a escola não pode agir sozinha: é imprescindível a parceria com a família e a comunidade onde está inserida. Os professores queixam-se de que os pais se eximem de sua responsabilidade, não assume sua parte na transmissão de valores – os quais eles mesmos desrespeitam. Seria ótimo se tivéssemos uma escola para ensinar ética aos pais, outra para políticos, uma para empresários, outra para autoridades religiosas. Infelizmente isso não é possível (e se fosse, não sei se eles frequentariam as aulas). O que podemos fazer é educar os futuros pais, políticos, empresários e religiosos – que estão hoje, em nossas salas de aula – para que seus filhos, os alunos da próxima geração, sejam melhores.

 

Para encerrar o capítulo, eis a pequena relação de filmes que tratam da violência na escola:

 

Entre os muros da escola (França – 2008)

Stella (França – 2008)

A onda (Alemanha – 2008)

Escritores da liberdade (EUA – 2007)

Sociedade dos poetas mortos (EUA – 2003)

Elefante (EUA – 2003)

Evil, raízes do mal (Suécia – 2003)

Adeus, meninos (França – 1987)

Kes (Inglaterra – 1969)

 

 

RELAÇÃO ENTRE ESCOLA E FAMÍLIA

 

Você era um bom aluno quando adolescente? Sues pais participavam das reuniões da sua escola? Alguma vez eles foram chamados por um problema de indisciplina?

 

            No dia 10 de abril, André foi portador do seguinte bilhete de sua professora para sua mãe:

 

            Prezada Ana Maria, André hoje se comportou mal, não fez a lição e atrapalhou o trabalho de grupo. Peço tomar providências. Assinado: Teca, professora do pré.

 

            No dia 12 de abril, André entregou para sua professora o seguinte bilhete, mandado por sua mãe:

 

            Prezada Teca, hoje André se comportou mal, não quis escovar os dentes e brigou com a irmã menor. Peço tomar providências. Assinado: Ana Maria, mãe.

 

            Afinal, quem deve educar André? A mãe deve encapar os cadernos dele? Os pais devem controlar a lição de casa? A escola é responsável pelas condições de saúde dos alunos? A merenda escolar tornou a lancheira obsoleta?

 

            É difícil traçar os limites entre o que cabe à escola e o que compete aos pais na formação dos jovens. Essa demarcação já foi simples: a escola devia instruir, aos pais cabia educar. Hoje os territórios se confundem: a criança aprende brincando e tem de brincar aprendendo, a gente mal consegue discriminar entre uma loja de brinquedos e uma sala de pré-escola, as professoras viraram tias e as pobres tias de verdade (as irmãs das mães e dos pais) não sabem o que fazer diante de seus sobrinhos, que esperam delas uma capacidade recreativa que elas não podem atender. Mas as fronteiras precisam ser reconhecidas e respeitadas, sob pena de colocar em risco a aliança entre pais e educadores.

            A educação sexual é tarefa de quem? A escola deve falar sobre drogas ou isso é assunto de família? A Educação Religiosa na escola é uma necessidade ou um retrocesso? Quem vai alertar sobre o flagelo da aids?

            Os pais gostariam que a escola atendesse tudo isso e ainda tivesse competência pedagógica para garantir o ingresso do aluno em uma boa faculdade. Mas a vida escolar é uma continuação da vida em família, e a transmissão de informação deixou de ser a tarefa primordial da escola, uma vez que os meios de comunicação levam a informação até a criança com rapidez e eficiência.

            Nem por isso a sala de aula e o professor tornaram-se dispensáveis. Para orientar-se em meio ao bombardeio de informações a que está exposta, é imprescindível que a criança desenvolva uma escuta crítica. Além disso, nada substitui a escola no processo de inserir a criança e o jovem no universo coletivo, de fazer a mediação entre o aluno e o mundo, entre ele e sua história. Essa experiência – que exige o contato rotineiro com o diferente, numa relação simétrica – a família não pode oferecer.

 

O QUE OS PAIS ESPERAM DA ESCOLA

            Muitos pais alimentam a fantasia de que, conseguida a vaga na escola ideal, está definitivamente resolvida sua participação na educação formal dos filhos. A distância e o tempo gasto no trajeto até a escola, os sacrifícios financeiros para integrar o carnê escolar no orçamento exíguo são reflexos dessa ilusão. Alguns pais têm expectativas idealizadas, que dificilmente a escola, por melhor que seja, pode atender. Não existe escola perfeita, mas alguns aspectos devem ser observados para fazer uma escolha mais adequada e realista.

            Não adianta a escola possuir os equipamentos mais avançados da tecnologia ou os brinquedos mais sofisticados se os alunos não tiveram acesso a essas instalações. Não basta ter informações sobre o conjunto de proibições e permissões que constituem o regulamente escolar. É mais importante conhecer os princípios que fundamentam essas normas – e saber se os professores conhecem o regulamento e sabem defendê-lo, pois isso dá a medida da coerência entre teoria e prática na instituição. Convém visitar a escola funcionando. Além de conversar com os responsáveis diretos pela direção e orientação educacional, vale a pena entrar em contato com os pais de alunos para saber como essas orientações e direções se traduzem na prática. Lição de casa , caderno de classe, comentários na volta da escola – é preciso estar atento a tudo isso.

            Um ponto de partida seria formular com clareza o que os pais não admitem na escola (“Não quero uma escola que….”). Exemplos de critérios de exclusão seriam: posturas preconceituosas, elitismo, métodos pedagógicos rigidamente tradicionais ou demasiadamente experimentais. Em seguida, os pais podem examinar os quesitos positivos que consideram essenciais (“Faço questão de que a escola tenha…”), para depois complementar com os itens que serviriam como critérios de desempate (“Gostaria que a escola tivesse….”), como o cardápio extracurricular (esportes, atividades culturais, grêmio, ensino de línguas, computação). O ambiente físico também deve ser levado em conta. Salas claras e espaçosas oferecem condições mais adequadas às tarefas escolares, assim como banheiros e corredores limpos refletem o cuidado dos responsáveis.

            A escolha de itens e o peso atribuído a cada um dependem de cada família. Uma escola espaçosa, que privilegie atividades físicas, pode ser importante para uma família que vive em apartamento pequeno, sem área de lazer; uma boa biblioteca e um grêmio que ofereça atividades culturais têm peso maior para crianças que moram em condomínios com amplos jardins e            práticas desportivas comunitárias, mas com menos oportunidades de programas culturais.

            Os critérios de escolha variam também com mudanças nas condições de vida da família e ao longo do processo de amadurecimento da criança. Os quesitos para a pré-escola são diferentes dos critérios que norteiam a escolha de uma escola de ensino médio. O adolescente deve ser ouvido e suas opiniões levadas em consideração, ainda que a última palavra seja dos pais.

            Há escolas que se propõem basicamente a colocar os alunos na faculdade. Outras têm como principal objetivo dar aos alunos uma visão humanista, levando-as a participar do universo da cultura. Outras ainda se se preocupam mais com a convivência entre eles e valorizam atividades culturais e esportivas, não apenas por conta do desenvolvimento físico e intelectual dos alunos, mas privilegiando o exercício da ética no cotidiano das relações.

            Assim, quando escolhem uma escola, os pais têm de saber o que de fato significa essa escolha, para que suas expectativas sejam coerentes com o projeto da escola que elegeram. Não basta se identificar com a “postura ideológica” da escola, pois essa expressão pode ter vários significados – não fica claro o que realmente os pais estão delegando à instituição, nem o que a escola espera que as crianças tragam de casa, como uma espécie de currículo oculto. Mas a aliança entre a escola e a família é fundamental para o sucesso de um projeto educacional. Os pais devem funcionar como uma ponte, e não como um obstáculo, entre os filhos e a escola. E vice-versa.

           

O PAPEL DOS PAIS NA
VIDA ESCOLAR DOS FILHOS

            Acompanhar a vida escolar do filho não se limita a tomar conhecimento das notas do boletim. Broncas e castigos não transformam notas baixas em notas altas – é importante verificar o que essas notas refletem, e não apenas reagir a elas. Uma conversa entre pais e professores pode orientá-los sobre a ajuda de que o aluno precisa, pois as más notas tanto podem ser reflexo de problemas pelos quais a família está passando como o resultado de uma postura inadequada do aluno em sala de aula.

            Para incentivar o jovem a estudar e mostrar o valor do aprendizado e do conhecimento não basta fazer discurso sobre o tema, por mais eloquentes que sejam. O caminho mais eficiente para demonstrar que os pais valorizam o estudo é dedicar parte do próprio tempo para acompanhar o trabalho que o jovem está desenvolvendo na escola.

            Quando tanto a escola quanto a família valorizam apenas as notas, e não o processo de aprendizagem, ambas fracassam na tarefa de alimentar a curiosidade do estudante e de oferecer caminhos para satisfazê-la. Há todo um sistema que não favorece o processo de aprender. A pressão pelo vestibular, partilhada pelas escolas e pela família, deixa em segundo plano o próprio processo de aprendizagem. Os pais deveriam valorizar o momento em que o filho está estudando e não simplesmente o resultado de uma prova – que depende de vários fatores, além do empenho do aluno. Sentar com ele, interessar-se pelo conteúdo da disciplina, estudar junto com prazer, e não apenas como quem está cumprindo um papel, são atitudes que estimulam o processo mais do que o produto. É fundamental que o jovem perceba o prazer dos pais em desvendar o conhecimento em parceria com ele.

            Não é verdade que os jovens não têm interesse em aprender e não valorizam a escola. A já citada pesquisa coordenada pelo professor Yves de La Taille, mostra a importância que os jovens atribuem à escola. É nítido o interesse com que o jovem se debruça sobre a internet em busca de informações, e é admirável a eficiência com que ele desvenda esse mundo. Talvez a sala de aula tenha se tornado um ambiente desinteressante, ou talvez os pais não transmitam de maneira compreensível a mensagem de que o conhecimento torna a vida melhor.

            Os jovens dariam mais valor à escola e aos estudos se percebessem a importância do saber no convívio cotidiano com pais e professores. Mas não é isso que eles veem. Não fica claro que o fato de ter estudo mais leva o adulto a ter um trabalho mais prazeroso – por que, por exemplo, ele daria importância ao estudo, se um professor que estudou tanto pode ser mal remunerado e ter uma vida tão difícil? Essas imagens negativas desmoralizam pais e professores como conselheiros e orientadores. Não comunicam que, para ter a possibilidade de escolher um trabalho mais criativo e gratificante, é preciso estar de pose de um repertório amplo, que vem do estudo e da experiência. Anos de estudo ampliam o leque de opções de vida, mas dificilmente a atitude dos pais e professores colabora para a percepção dessa verdade.

 

PARA ACOMPANHAR A VIDA ESCOLAR

            Aí vai uma sugestão de pontos a serem levados em conta par melhor acompanhar a experiência escolar dos filhos. Atenção: isso não deve ser usado como um roteiro de autoavaliação para mobilizar culpas! O campo já está minado demais por culpas – o que, inclusive, tem contribuído para que seja pouco percorrido.

Seu filho gosta da escola? Como se chama a professora dele? E a diretora? Há algum professor na escola, ou a escola tem apenas professoras? De que área é esse professor?

            Qual é a área que seu filho mais gosta? E qual ele mais detesta? Quem é o melhor amigo de seu filho na classe dele? Você o conhece? E o maior inimigo? Você sabe por quê?

            A professora corrige a lição de casa? Você concorda com as correções que ela faz? Quanto tempo seu filho gasta por dia com os deveres da escola? Que ripo de uso a escola faz da lição de casa?

            (Algumas escolas utilizam a lição de casa como parte do projeto pedagógico, outras não. Para desenvolver o senso de responsabilidade, é preciso que o jovem perceba a relação entre seu comportamento e as consequências dele. Isto é, se ele não fizer a lição, é de esperar que venha sofrer as sanções que a escola impõe; se a lição contém erros, espera-se que sejam corrigidos e comentados. Mas, se a lição não é cobrada pelo professor ou se a mãe fizer a lição por ele, a única aptidão que se desenvolve é uma visão cínica com relação à escola e a uma atitude de abuso para com a mãe.)

            Quando foi a última reunião de pais a que você compareceu? Você acha essas reuniões interessantes? Já conversou com a professora sobre a maneira de tornar as reuniões mais interessantes? Você sabe de alguma dificuldade específica (de estudos ou de relacionamento) que seu filho está enfrentando na escola? Ele pediu sua ajuda?

 

A ESCOLA E OS PAIS SEPARADOS

            O relacionamento da escola com casais separados pode ser ainda mais complicado. Em separações rancorosas (ainda não necessariamente litigiosas), o ex-casal pode transformar qualquer episódio em problema. Se um dos dois puser na cabeça que a escola foi escolhida só pelo outro, fará de tudo para sabotar os esforços da escola para resolver em conjunto os problemas do filho.

            A escola pode ajudar, dando aos pais (a ambos) informações pertinentes sobre eventuais mudanças de comportamento ou de aproveitamento do aluno, dentro e fora da sala de aula, sempre com o cuidado de enviar todas as comunicações diretamente (e separadamente) ao pai e a mãe, reafirmando assim que reconhece a ambos como responsáveis pela formação da criança. A escola não deve fazer da criança a portadora de cobranças, nem insistir com ela quanto à presença de um ou ambos os pais a reuniões, para poupá-la do constrangimento por uma situação sobre a qual ela tem pouco ou nenhum poder.

            Mas os pais não podem esperar que a escola dê uma atenção individualizada a todas as famílias. A escola cuida de normas de convivência dentro de seus muros, e olhe lá! A maioria não consegue sequer cuidar do relacionamento entre professores e alunos, nem entre os alunos e nem entre os professores.

 

PAIS SEPARADOS: DUAS CASAS,
DOIS REGULAMENTOS

            Adolescente de pais separados frequentam duas casas e podem ter cotidianos diferentes e, assim, têm de lidar com duas famílias com padrões diferentes. Têm, sobretudo, que lidar com um duplo comando que pode chegar a extremos – numa casa, o jovem só come comida saudável e aprende que deve dormir cedo, enquanto na outra come muita pizza e sanduiche e pode ficar acordado até o sol nascer.

            Os pais se angustiam com essa situação, mas ela não representa necessariamente um problema para os adolescentes, que aprendem rápido a se adaptar ao fato de ambientes diferentes terem regras diferentes. Afinal, há muito eles sabem que as normas da escola e as normas das casas das avós são diferentes das normas da casa dele. Se não houver uma competição para demonstrar que as normas de uma das casas são melhores (ou, pior: as únicas boas), a situação pode até ser útil para ensinar o jovem desde cedo a adequar seu comportamento a diferentes situações.

 

Indicação de filme

Um bom filme para exemplificar o tema é 5 X Favela, agora por nós mesmos, de 2010, em especial a história Fonte de Renda. Documentário formado por cinco histórias independentes que refletem as múltiplas faces do cotidiano dos moradores das favelas.

 

EDUCAR NÃO É (SÓ) SOFRIMENTO!

 

Quando você era adolescente sonhava em ter filhos? Seus filhos reais se parecem com os que você gostaria de ter? Você foi um bom filho? Seus pais concordam com sua avaliação?

 

            Criar filhos é fascinante. Mas educar não é para covardes nem preguiçosos. É preciso ter coragem para exercer bem uma atividade sem intervalos nem férias, e que exige disposição para conflitos ou confrontos. Há que ser corajoso para enfrentar o aluno em sala de aula, a criança em casa. É preciso dizer e sustentar o “não”. Não se pode ter preguiça de defender um ponto de vista. Também é preciso estar atento, acompanhar sempre, participar. Há que tolerar a inevitável sensação de fracasso que tantas vezes acompanha esse processo.

            Abrir mão da ilusão de onipotência é condição indispensável para preencher melhor o espaço do possível, em vez de lamentar o que não se consegue.

           

O QUE É UM BOM PAI?

            Não dá para saber como os filhos vão interpretar ou incorporar o que receberam dos pais. Atitudes que para uns significam cuidado, para outros é invasão; o que alguns interpretam como respeito à liberdade para outros representa o abandono e pouco caso. Mais tarde, os filhos certamente vão reclamar, qualquer que seja a educação que tenham recebido. Os pais poderão se defender, dizendo que fizeram tudo o que podiam, como podiam, a partir da bagagem que tinham – e com o melhor das intenções. E a defesa dos pais é quase sempre verdadeira. No meu trabalho com famílias, já encontrei pais desajeitados, pais preguiçosos e até covardes. Mas nunca, nos mais de trinta anos de experiência, conheci algum pai que não fosse bem-intencionado.

            Não há receitas para ser bom pai ou boa mãe, mas alguns atributos favorecem a boa formação dos filhos, como: poucas projeções (“Meu filho terá tudo o que não tive” é um exemplo do que não presta), pouca idealização (não fazer como a mãe da Branca de Neve, por exemplo, que tinha em mente o modelo exato de como queria que sua filha fosse – e deu no que todos sabemos). Inventar que o filho será de um jeito predeterminado é o melhor caminho para virar madrasta/bruxa quando ele começar a ser diferente do imaginário dos pais, o que fatalmente ocorrerá.

            Paciência, tolerância, bons olhos e, principalmente bons ouvidos ajudam bastante. Mas o mais importante é desenvolver a capacidade de abdicar do desejo de perfeição, para admitir que o filho tenha, como os pais, dificuldades e fraquezas.

            É preciso não confundir o amor incondicional com aprovação irrestrita, pois amar um filho sempre, quaisquer que sejam as condições, não significa aprovar qualquer besteira que o jovem fizer.

            Por mais que os especialistas insistam na importância do diálogo, da boa comunicação entre pais e filhos, é óbvio que ninguém se comunica bem o tempo inteiro. O diálogo muitas vezes é um monólogo disfarçado. Mesmo os pais mais pacientes podem se exaltar – e é importante que o filho perceba que os pais também têm limites. Às vezes é mais importante ser subjetivo do que objetivo (desde que se reconheça que não está sendo objetivo). Seja como for, o ingrediente mais importante é mesmo a tolerância à frustração (a própria e a do filho), pois o jovem precisa aprender que a frustração é parte da vida, não desvio de rota.

            Dentre as funções que desempenhamos na vida, nenhuma é tão rica, multifacetada e impossível quanto criar filhos. Carregado de mitos e expectativas incompatíveis, nenhum outro papel oferece tantos desafios e surpresas como esse. Mas deve haver, codificado nos genes ou nos arquétipos, alguma sabedoria suficiente para garantir a sobrevivência do filhote humano, apesar da inevitável falta de jeito e inexperiência de mães e pais – caso contrário, nossa espécie não teria chegado até aqui.

            O pai atual tem as vantagens e as desvantagens de exercer uma função nova, de uma maneira que seus pais e avós não experimentaram. Se lhe faltam o exemplo e o modelo, o que o deixa inseguro. Sobra-lhe liberdade para encontrar o seu jeito de ser pai, com a prerrogativa, inclusive, de ser um pai diferente para cada um dos filhos. Mas a mãe…..há tal quantidade de estereótipos e mitos a respeito da maternidade que uma mãe de primeira viagem fica perdida ao tentar corresponder às expectativas sobre seu desempenho, expressas em frases bombásticas como “maior que o universo é o coração de mãe” ou “ser mãe é padecer no paraíso”.

            Ora, os sentimentos de um casal diante de um filho dependem da história desses adultos com seus próprios pais e do relacionamento do casal que deu origem a essa criança. Dependem, sobretudo, das características de personalidade de todos os envolvidos: bebê, mães e pais do presente e do passado. Como seria possível seguir um modelo único, estereotipado e achatado?

            É infinita a criatividade da vida para fabricar enredos que perturba o coração de mães e pais. A aflição provocada pelo choro do bebê vai ser substituída pela ansiedade de deixar o filho na escola no seu primeiro dia de aula, e depois pela preocupação com a notas do boletim e, antes que a ansiedade desapareça, surgirá a angústia diante do primeiro namorado com pelo nas pernas e, junto com ele, as viagens de férias e o amigo de moto – e tantas outras situações que, a cada geração, mudam de roupagem com que se apresentam nas diversas fases de desenvolvimento dos filhos, sempre provocando emoções diferentes.

 

O QUE ENSINO UM HOMEM A SER PAI?

            Até pouco tempo os filhotes humanos conviviam exclusivamente com mulheres desde o nascimento até a adolescência. Os bebês eram cercados por mães, avós, tias, madrinhas; depois, as crianças conviviam com vizinhas, professoras, diretoras, orientadora. Os homens só apareciam na adolescência, quando os pais eram chamados para conversas “de homem para homem”.

            Essa situação criou uma desigualdade entre o desenvolvimento masculino e o feminino. Uma menina podia aprender a ser mulher a partir de inúmeras figuras femininas, mas o menino precisava aprender a ser homem pelo avesso, sabendo que tudo aquilo que o cercava “não era homem” – e com esse antimodelo era composta a figura masculina. O menino aprendia que expressar emoções era coisa de mulher, que lidar com crianças era prerrogativa (e obrigação) de mulheres. Em muitas famílias a relação entre o pai e os filhos era mediada pela mãe, que funcionava como uma espécie de tradutora/intérprete, numa dinâmica em que todos saíam perdendo: o pai e os filhos, dependentes dessa intermediária, perdiam a possibilidade de se conhecer, e a mulher ficava esfolada dos dois lados, pois tendia a defender o pai diante do filho e a advogar a causa do filho junto ao companheiro.

            Esse quadro está mudando, graças à inserção da mulher no mercado de trabalho e à aproximação do homem no universo doméstico. Em comparação com famílias de 50 anos atrás, hoje há uma simetria maior do casal e entre pais e filhos. Com isso, os pais estão mais próximos de seus filhos do que seus pais e avôs jamais estiveram.

            O processo não se dá sem percalços. Em alguns casos encontramos, com uma mudança de cenário, as mesmas disputas que se deram entre homens e mulheres quando elas vieram a ocupar um lugar no mercado de trabalho e depararam com um mundo pautado por normas masculinas. Hoje, o mundo do trabalho já reflete a influência das mulheres que o habitam: muitas empresas abrigam berçários e creches, e admitem horários flexíveis para que as mães conciliem as exigências do trabalho com as demandas dos filhos.

A Tensa Relação entre Famílias e Escolas

A tensa relação entre famílias e escolas

Gustao Ioschpe

“Muitos educadores e pedagogos são, na verdade, ativistas sociais em busca de uma causa. Seu objetivo é mudar o mundo, e os alunos são apenas um veículo”

O sucesso é multivitelino e o fracasso é órfão. Na educação brasileira, não é diferente. Políticos, “o sistema”, o capitalismo, as elites, a herança escravocrata: cada pessoa tem o seu vilão. Mas para os educadores brasileiros os culpados preferenciais são os pais dos alunos. Quando se perguntou, em pesquisa da Unesco, quais fatores influenciam a aprendizagem, o item campeão para os nossos professores foi “acompanhamento e apoio familiar”, mencionado por 78%. “Competência do professor” foi citado por apenas 32%; “gestão da escola”, por só 10%. Em livro de Tania Zagury, quando falam sobre a indisciplina do alunado, 44% dos mestres apontam a “falta de limite” dos alunos como causa. Outros 19% são mais diretos e atribuem o problema à “falta de educação familiar”. A inabilidade do professor não é mencionada nem como hipótese. Em outro livro, A Escola Vista por Dentro, os pais também aparecem como culpados por seus filhos não fazerem o dever de casa, para mais da metade dos professores. No questionário dos professores da Prova Brasil, mais de 80% declaram que o baixo aprendizado é “decorrente do meio em que o aluno vive”. Em estudo que deu origem ao livro Repensando a Escola, os pesquisadores escrevem o seguinte: “Chama atenção a frequência com que professores e diretores se referem à questão da família dos alunos: muito do que acontece de bom e de ruim na escola é explicado pela origem familiar. Uma pergunta do tipo ‘como você avalia o nível de leitura dos alunos da 4ª série?’ é respondida da seguinte maneira: ‘eles são fracos, não sabem ler muito bem, não gostam de ler, porque em casa ninguém incentiva’”.

É compreensível que assim o seja. O establishment educacional brasileiro culpa os pais não apenas por serem po-bres e não apoiarem suficientemente o aprendizado dos filhos — coisa que eles têm reais dificuldades para fazer, já que quase 60% têm ensino fundamental incompleto —, mas também por supostamente transferirem à escola tarefas que deveriam ser da família. A explicação é assim: nós, escola, não conseguimos alfabetizar porque precisamos devotar o tempo que seria do ensino para dar à criança tudo o que lhe falta em casa: afeto, lições de asseio, noções de respeito ao próximo e de ética, cidadania ou meio ambiente. Nossas escolas não conseguiriam realizar uma agenda “mínima” (transmitir conhecimentos e competências) porque estão assoberbadas com uma agenda máxima, que lhe seria imposta pela sociedade.

Essa leitura é duplamente esquizofrênica. Em primeiro lugar, porque os pais não defendem esse papel messiânico para as nossas escolas. Pelo contrário. Pesquisa CNT/Sensus perguntou explicitamente aos pais dos alunos da escola pública se eles preferiam uma escola que ensina a matéria e prepara profissionalmente o filho a uma escola que forma o cidadão. Venceu o grupo dos que querem o ensino das matérias e o foco no trabalho, com 56%. Em segundo, porque esses temas adicionais não são requisições da sociedade que os educadores precisam acatar. Pelo contrário. Os gera-dores das pressões para a expansão do universo escolar são os profissionais do setor. Porque muitos educadores e pedagogos são, na verdade, ativistas sociais em busca de uma causa. Seu objetivo é mudar o mundo, e os alunos são apenas um veículo. Na enquete da Unesco com os professores, “formar cidadãos conscientes” foi apontada como a finalidade mais importante da educação para 72%. “Proporcionar conhecimentos básicos” foi lembrada por apenas 9%. O resultado final da Conferência Nacional de Educação do ano passado, que filtrou as recomendações dos trabalhadores do setor, foi um documento com 677 (!) emendas aprovadas. (Este e outros documentos estão disponíveis em twitter.com/gioschpe.) É natural que o professor seja atraído à carreira pela possibilidade de conquistas que vão além do ensino. A diferença entre esses países e o Brasil é que lá a maioria dos professores entende que não há melhor maneira de “salvar” uma criança do que dando a ela ensino de qualidade. E, quando não existe essa compreensão, há governantes que arbitram compromissos entre os desejos da sociedade e dos professores em favor do bem social.

O lado mais cruel do nosso ciclo vicioso é que os pais, indiciados pelo fracasso de um sistema sobre o qual não têm responsabilidade, não apenas não se revoltam, como estão satisfeitos com a qualidade do ensino dos filhos. Em pesquisa do Inep, deram nota 8,6 à qualidade do ensino, ainda que o Ideb mostre que o ensino real não alcança a metade disso. Na CNT/Sensus, 63% deram conceito “positivo” à escola do filho e mais 31% “regular”. Se a escola é boa e o filho não aprende, então o culpado só pode ser o filho. 

Completamos, assim, o circo dos horrores. As vítimas viram culpados, os aliados dos alunos viram seus algozes, aqueles que sobrecarregam o sistema são vistos como suas vítimas. Os profissionais da educação conseguiram criar o mito ideal para escapar às suas responsabilidades: não conseguem dar conta do mínimo porque a sociedade lhes exige o máximo, e não conseguem dar conta do máximo porque não há como atingi-lo quando “o meio” é tão hostil às virtudes do intelecto e da alma. 

Se o país quiser prosperar, precisará de educação melhor. E, se quisermos educação melhor, precisaremos romper essas falácias e recomeçar o diálogo pais-família, baseado em premissas básicas. Primeira: num regime democrático, o povo é soberano, e cada pessoa sabe que tipo de serviço público deseja. Se a maioria da população quer uma escola que forme para o trabalho, essa é a educação que nossos governantes deveriam perseguir. A sociedade, e não os funcionários públicos, estabelece o norte. Segunda: a primeira função da escola é ensinar competências básicas, como ler e escrever. Mesmo que a sociedade venha a demandar uma educação para a formação do cidadão crítico e consciente, não é possível sê-lo enquanto analfabeto. Precisamos concordar em uma agenda mínima, a respeito da qual o insucesso, por parte da escola, é inaceitável. Terceira: algumas responsabilidades familiares são intransferíveis. Cabe aos pais dar aos filhos afeto, cuidar de sua saúde física e psicológica e transmitir-lhes noções elementares de ética e respeito ao próximo. Sim, eu sei, o mundo não é perfeito, e muitos pais — de todas as classes sociais — não cumprem com suas obrigações. Mas atenção: a falência dos pais não transfere ao professor essa responsabilidade. Seria tão absurdo transferir a professores a responsabilidade primeira por transmitir carinho e ética aos seus alunos quanto pedir aos pais que ajudem na alfabetização dos filhos. O estado tem médicos, assistentes sociais e policiais para lidar com os problemas mais graves causados pelos insucessos desses pais. Os menos graves, que afetam o foro íntimo de cada pessoa, não serão sanados por professores, mas talvez por psicólogos. Os professores não podem salvar o mundo. Primeiro porque ninguém lhes outorgou essa incumbência. E segundo porque, mesmo que quisessem, não conseguiriam. Precisamos convencer nossos professores de que transmitir os conhecimentos e capacidades intelectuais que darão ao jovem as condições de exercer plenamente o seu potencial não é um reducionismo, mas uma conquista superlativa. Como diz Felipe González, ex-premiê espanhol, “um outro mundo é possível. Mas este é manifestamente melhorável”.

P.S. — Um dos instrumentos que podem ajudar a mediar um diálogo mais produtivo entre pais e o sistema escolar é o projeto “Ideb na Escola”, defendido aqui nos dois últimos meses. Desde a última coluna, o sistema se espalhou em progressão geométrica, e já foi adotado pelo Rio de Janeiro e por Goiás. Leis tramitam em Minas Gerais, Espírito Santo, Mato Grosso, Rondônia, Piauí, Manaus, Vitória, Búzios e Criciú-ma, entre outras. A equipe de Nizan Guanaes terminou o desenho das placas que devem adornar as entradas principais das escolas, material que está disponível no site www.idebnaescola.org.br.

Livro “Filhos – Novas ideias sobre educação”

Capítulo do Livro “Filhos – Novas ideias sobre educação” (Porque tudo o que pensávamos sobre educação de crianças está errado). De Po Bronson & Ashley Merryman.

 

CAPÍTULO 2       

A Hora Perdida

Em todo mundo, as crianças estão dormindo uma hora a menos do que dormiam 20 anos atrás. O preço disso? Menos pontos no QI, comprometimento do bem-estar emocional, déficit de atenção e obesidade.

 

                Morgan Fichter, de 10 anos, é aluna do 5º ano em Roxbury, New Jersey. Ela é miúda, tem pele clara, os cabelos castanhos e o rosto cheio de sardas. Bill, seu pai, é sargento de polícia e trabalha até às três da manhã. A mãe, Heather, trabalha meio período e vive correndo para todo lado levando Morgan e o irmão para os compromissos deles. Morgan joga futebol – Heather é técnica do time -, mas é mesmo apaixonada por competições de natação e o treinamento contínuo ao longo do ano a deixou com os ombros largos. Ela também é violinista da orquestra da escola e, não bastassem dois ensaios e uma aula particular, pratica sozinha mais cinco noites por semana. Toda noite, Heather acompanha a lição de casa de Morgan e depois elas assistem a programas de decoração na TV.

                Morgan sempre se comportou como uma criança entusiasmada e bem equilibrada, até cair na turma de uma professora muito exigente e não conseguir mais relaxar à noite. Embora fosse para a cama no horário adequado, às 21h30, ela ficava agarrada ao travesseiro de oncinha, mas, frustrada, não conseguia pegar no sono antes das 23h30, às vezes à meia-noite. As paredes lilases de seu quarto estavam repletas de fichinhas pregadas com fita adesiva, cada qual com uma palavra que Morgan tinha dificuldade. Sem conseguir dormir, ela aproveitava para estudar, empenhada em manter as boas notas. Contudo, acabou tendo uma crise emocional. Durante o dia, ficava irritada e chorava por qualquer coisa. Às vezes, dormia em plena aula.

                Terminado o semestre, Morgan deixou a turma da tal professora, mas a falta de sono continua. A mãe, então, começou a se preocupar pelo fato de a filha não dormir. Seria por estresse ou algum distúrbio hormonal? Heather proibiu os refrigerantes cafeinados depois do almoço, ao notar que um refrigerante de cola na parte da tarde poderia manter a filha acordada até as duas da manhã. Morgan tentou se controlar ao máximo, mas duas vezes por mês ela tinha uma estafa emocional, uma espécie de choro incontido, comum apenas em crianças de 3 anos de idade que não tiraram uma soneca.

                – Fico triste por ela – lamentou Heather. – Não desejo isso para ninguém. Deve ser um problema para o resto da vida.

                Preocupada com o bem-estar da filha, Heather conversou com o pediatra sobre o sono de Morgan. “Ele quase não me deu atenção e não deu importância ao fato”, contou ela. Ele disse: “Ela só fica cansada às vezes, quando crescer passa”.

                A opinião do pediatra de Heather é comum. Segundo estudos da Fundação Americana do Sono, 90% dos pais norte-americanos consideram que os filhos dormem o suficiente.            

                As crianças, no entanto, atestam o contrário. Cerca de 60% dos alunos do ensino médio relatam sentir sonolência durante o dia. Um quarto admite que suas notas baixaram em função disso. E, dependendo da pesquisa que servir de base, de 20%  a 33% dizem que cochilam na sala de aula semanalmente.

                Os números confirmam. Metade dos adolescentes dormem menos de sete horas por noite durante a semana. Segundo dados obtidos por Frederick Danner, da Universidade de Kentucky, os alunos do último ano do ensino médio costumam dormir pouco mais de seis horas e meia por noite. Apenas 5% deles dormem em media oito horas. Claro que também ficávamos cansados nos tempos do colégio, mas não como os jovens de hoje.

                Tem passado despercebido o fato de alunos do ensino fundamental e médio dormirem, atualmente, uma hora a menos por noite do que se dormia 30 anos atrás. E, embora os pais modernos sejam muito atentos em relação ao sono dos bebês, após a educação infantil essa preocupação deixa de ser prioridade. Já no primeiro ano da escola, as crianças de hoje dormem 30 minutos a menos que no passado.

                Existem tantas justificativas para essa hora de sono perdida quanto o número de diferentes tipos de família. Excesso de atividades, muita lição de casa, horário de dormir liberado, televisões, celulares no quarto – tudo isso contribui. Assim como o sentimento de culpa: pais e mães chegam do trabalho tarde da noite e querem passar um tempo com os filhos e um prefere deixar para outroa a tarefa de coloca-os na cama. Uma pesquisa realizada no estado americano de Rhode Island revelou que 94% dos adolescentes do ensino médio não têm horário estabelecido para dormir. todas essas causas têm um ponto em comum: deve-se convenientemente à falta de informação – até hoje, não se sabia o quanto essa hora perdida era prejudicial às crianças.

                Com ajuda de novas ferramentas estatísticas e tecnológicas, recentemente, os cientistas que pesquisam o sono conseguiram isolar e medir o impacto dessa única hora perdida. Como o cérebro se desenvolve até os 21 anos de idade, e porque muito desse processo ocorre durante o sono, essa hora perdida aparentemente tem um impacto exponencial em crianças e jovens, o que não ocorre com o adulto.

                É surpreendente não é só que o sono é importante, mas o quanto ele é importante, não apenas para o desempenho acadêmico e a estabilidade emocional, mas também para fenômenos que se julgava não terem nenhuma relação, como a epidemia mundial de obesidade e o aumento de casos de transtornos do déficit de atenção.

                Uns poucos cientistas sugeriam que os distúrbios do sono durante os anos de desenvolvimento podiam desencadear alterações permanentes na estrutura do cérebro da criança – danos que, diferentemente de uma ressaca, não passam com uma boa soneca. É possível, inclusive, que muitas das características próprias de pré-adolescência e da adolescência – variação de humor, depressão e mesmo comer em excesso – sejam, na verdade, somente sintomas crônicos da falta de sono.

                O Dr. Avi Sadeh, da Universidade de Tel Aviv, é uma das dezenas de autoridades da área e colaborador frequente de pesquisas de estudiosos do sono da Universidade Brown. Há alguns anos, o Dr. Sadeh enviou para a casa de 77 alunos de 4º e 6º ano instruções por escrito, distribuídas aleatoriamente: durante três noites alguns deveriam ir mais cedo para a cama enquanto outros deveriam permanecer acordados até mais tarde. Cada aluno recebeu um actígrafo – um aparelho semelhante a um relógio de pulso que equivale a um sismógrafo para registrar a atividade do sono -, que permite aos pesquisadores verificar quanto de fato a criança dormiu enquanto esteve na cama. Por meio do dispositivo, a equipe de Sadeh constatou que o primeiro grupo dormiu 30 minutos a mais por noite. Em compensação, o segundo grupo dormiu 31 minutos a menos.

                Após a terceira noite de sono, um pesquisador foi à escola pela manhã para aplicar um teste de funcionamento neurobiológico nos alunos. O teste é uma versão computadorizada de parte da Escala de Inteligência de Wechsler para Crianças que estimou com precisão os resultados do teste em questão e também como os professores avaliavam a capacidade do aluno de manter a atenção na aula.

                – Nem por um instante eu gostaria de comunicar aos meus patrocinadores algo como: “Bem, deixei os voluntários do meu estudo sem dormir por uma hora, mas não houve efeito visível, sinto muito. Falando nisso, conto com vocês para financiar outras pesquisas, pode ser?”.

                A preocupação de Sadeh era infundada. Os efeitos podiam ser efetivamente avaliados e medidos. A disparidade de rendimento causado por uma hora a menos de sono era maior que a diferença de desempenho de um aluno mediano do 4º ano se comparada com um aluno mediano do 6º.

                Em outras palavras, o desempenho escolar de um aluno de 6º ano um pouco sonolento equivale ao de um aluno do 4º ano. “Uma hora de sono a menos tem o mesmo efeito que a perda de dois anos de amadurecimento e desenvolvimento cognitivo”, explicou Sadeh.

                ­ – O trabalho de Sadeh foi uma enorme contribuição – opina o Dr. Douglas Teri, professor de Estudos do Desenvolvimento Humano e Familiar da Universidade Penn State.

                A Dra. Mary Carskadon, da Universidade Brown, uma autoridade em mecanismos biológicos que regulam o sono, concorda com essa opinião e completa:

                – A pesquisa de Sadeh é um lembrete importante a respeito da fragilidade de crianças e adolescentes.

                As descobertas do Dr. Sadeh confirmam diversos outros trabalhos de pesquisa que apontam unanimemente para o severo comprometimento acadêmico decorrentes de pequenas diferenças de sono. A Dra. Monique LeBourgeois, também da Universidade Brown, pesquisa como o sono afeta crianças com 5 anos ou menos. Praticamente toda criança pequena tem permissão para ficar acordada até mais tarde nos finais de semana. Elas não dormem menos, nem ficam sonolentas – elas simplesmente dormem mais tarde nas noites de sexta-feira e sábado. Ainda assim, ela constatou que a simples mudança de horário pode afetar o desempenho das crianças em um teste padrão de QI. Os alunos perderam sete pontos no teste por cada hora de sono adiada. O Dr. Paul Saratt, da Universidade de Virgínia, estudou o impacto dos problemas do sono em testes de vocabulários aplicados a alunos do ensino fundamental. Ele também encontrou uma redução de sete pontos nos resultados, que na opinião dele são bem significativos.

                – Os distúrbios do sono podem afetar o quociente de inteligência infantil tanto quanto a exposição ao chumbo.

                Se essas descobertas estiverem corretas, então, isso pode ser acumulativo no longo prazo: é possível, portanto, prever a correlação entre o sono e as notas escolares. Todos os estudos realizados indicam essa ligação: desde uma pesquisa com alunos de 2º e 3º de uma cidade pequena de Nova York até uma pesquisa com alunos de 8º de Chicago.

                Essas correlações, na verdade, se intensificam no ensino médio, pois é nessa que se verifica a queda mais acentuada do número de horas de sono dos adolescentes. A Dra. Kyla Wahlstrom, da Universidade de Minnesota, catalogou mais de 7 mil alunos de Minnesota, registrando suas notas e hábitos de sono. Os adolescentes que receberam nota A dormiam em média 15 minutos a mais que os que tiraram nota B; esses, por sua vez, dormiam em média 15 minutos a mais que os que tiraram nota C e por aí em diante. Os dados obtidos pela Dra. Kyla refletem praticamente os mesmos resultados de um estudo anterior, com mais de 3 mil estudantes do ensino médio realizado pela Dra. Carskadon, da Universidade Brown. Sem dúvida, estamos falando em médias, mas a consistência dos dois estudos é indiscutível. Cada 15 minutos faz diferença.

               

                Auxiliados por imagens de ressonância magnética, os pesquisadores agora começam a entender como a falta de sono afeta exatamente o cérebro dos jovens. Crianças cansadas não conseguem se lembrar do que acabaram de aprender, por exemplo, pois os neurônios perdem sua plasticidade, tornando-se incapazes de estabelecer novas conexões sinápticas, encarregadas de reter a memória.

                Um mecanismo diferente leva a criança a ficar desatenta durante a aula. A falta de sono prejudica a capacidade do organismo de retirar glicose da corrente sanguínea. Sem esse fluxo de energia básica, uma parte do cérebro sobre em especial – o córtex pré-frontal, que é responsável pela chamada função executiva. Dentre as muitas funções executivas, inclui-se o encadeamento de pensamentos para atingir um objetivo, a previsão de resultados e a percepção das consequências das ações. Portanto, pessoas cansadas têm dificuldade para controlar seus impulsos, e seus objetivos abstratos, como estudar, são preteridos em nome de divertimentos mais agradáveis. O cérebro cansado emperra – fica preso a uma resposta incorreta, sem conseguir produzir uma solução mais criativa, voltando repetidamente à mesma resposta que já sabe estar errada.

                Ambos os mecanismos debilitam a capacidade de aprendizagem da criança durante o dia. Contudo, a parte mais excitante da ciência estuda o que o cérebro faz quando a criança dorme durante a noite. O Dr. Matthew Walker, da Universidade de Bekerley, explica que, durante o sono, o cérebro organiza o que aprendeu naquele dia em suas regiões de armazenamento mais eficientes. Cada fase do sono tem um papel importante na aquisição de memória. Por exemplo, estudar outro idioma implica em adquirir novo vocabulário, desenvolver memoria auditiva dos diferentes sons e ter habilidade motora para pronunciar corretamente os termos aprendidos. O vocabulário é sintetizado no hipocampo no início da noite, enquanto ocorre o “sono de ondas lentas”, um sono profundo e sem sonhos. A capacidade motora da pronúncia é processada na segunda fase do sono N-REM e a memória auditiva é codificada ao longo de todas as fases.

                As lembranças carregadas de significado emocional são processadas no sono REM.

Quanto mais se aprende durante o dia, maior a necessidade de dormir à noite.

                Para consolidar essas memórias, determinados genes parecem se autorregular durante o sono – eles literalmente se ligam, tornam-se ativos. Um desses genes é essencial para a plasticidade sináptica, a vitalização das conexões neurais. O cérebro também sintetiza a memória durante o dia, mas elas são aprimoradas e fixadas à noite, quando são elaboradas novas inferências e associações, que dão origem a novos insights no dia seguinte.

                O sono de uma criança é qualitativamente diferente do sono de um adulto, porque ela permanece mais de 40% do tempo em que dorme na fase de ondas lentas – dez vezes mais do que o tempo despendido por um adulto. É por isso que uma boa noite de sono é vital para uma aprendizagem que fixará na memória para o resto da vida dados como um novo vocabulário, tabelas de multiplicação, datas históricas e todas as outras informações minuciosas.

                Talvez o mais interessante é que o contexto emocional da memória altera onde ela será processada. Os estímulos negativos são processados pela amídala; as memórias neutras e positivas são processadas pelo hipocampo. A falta de sono afeta com mais intensidade o hipocampo do que a amídala. O resultado é que as pessoas que não dormem o suficiente não conseguem lembrar-se de fatos agradáveis; contudo, recordam-se de fatos ruins sem nenhuma dificuldade.

                Em outro estudo conduzido por Walker, universitários que dormem pouco tentaram memorizar uma lista de palavras. Eles conseguiram se lembrar de 81% das palavras com significado negativo, como “câncer”. Mas só se lembraram de 31% das palavras com significado positivo ou neutro, como “Sol” e “cesta”.

                “A situação atual é alarmante”, observou Walker, “embora o processo de aprendizagem desses jovens tenha se intensificado muito, a quantidade de tempo que eles dormem para processar o que aprenderam é muito menor. Se essa tendência se mantiver, não demorará muito para o problema explodir”.

 

                Embora todas as crianças sejam afetadas pela falta de sono, para os adolescentes, dormir é um desafio em particular.

                Mary Carskadon, da Universidade Brown, demonstrou que durante a puberdade o ciclo cicardiano – o relógio biológico – passa por uma fase de transformação que faz com que os adolescentes fiquem acordados até mais tarde. O cérebro dos pré-adolescentes e dos adultos, quando anoitece, produz melatonina, que nos dá sonolência. Mas o cérebro do adolescente demora mais 90 minutos para começar a liberar a melatonina. Assim, mesmo que se deitem às 22h (o que não acontece), eles ficam acordados, olhando o teto.

                Quando o despertador toca de manhã cedinho, o cérebro do adolescente ainda está liberando melatonina. Isso faz com que eles voltem a pegar no sono, seja nas primeiras aulas do dia ou, o que pode ser ainda mais perigoso dependendo do caso, dirigindo a caminho da escola. Nos Estados Unidos, onde se tem permissão para dirigir a partir dos 16 anos, os adolescentes são responsáveis por mais da metade dos cem mil acidentes provocados por se dormir ao volante.

                Persuadidas por essa pesquisa, escola de algumas cidades norte-americanas resolveram alterar o horário das aulas no período da manhã, para que elas iniciassem mais tarde.

                O exemplo mais conhecido ocorreu em Edina, uma próspera cidade nos arredores de Minneapolis, em Minnesota, que mudou o início das aulas do ensino médio das 7h25 para as 8h30. Os resultados foram surpreendentes e surtiram efeito principalmente nos alunos mais brilhantes. 

Coitadinho, Tão Estressado

Cláudio de Moura Castro – Veja de agosto de 2011

“Se há stress entre nossos vestibulando , não é por excesso de dedicação, por horas demais diante dos livros, mas por falta de hábito de estudar”.

                A Senhora Deborah Stipek se preocupa com o stress dos seus alunos que tentam entrar em universidades hipercompetitivas. Poderiam ser mais felizes e tão bem-sucedidos se fossem para outras com menos nome. Corretamente interpretado, é um comentário pertinente. Contudo, ela é diretora do Departamento de Educação de Stanford e a nota saiu como editorial na revista Science, ambos prestigiadíssimos. Há o risco de ser mal interpretada no Brasil, onde alguns festejam as desculpas para a malandragem. Dito e feito, foi isso que lemos na nossa imprensa.

 

Entendamos o stress. Sentindo a ameaça de ser comido por uma onça, o corpo reage, reajustando o fornecimento de energia para cada órgão e preparando-se para fuga ou a luta. Hoje há menos perigos físicos, mas a reação é a mesma, diante de uma ameaça, seja o medo de levar bomba na escola ou perder a promoção. Porém, os caminhos do stress são tortuosos (além do que poderíamos explicar aqui). Em primeiro lugar, o que causa stress não é a ameaça em si, mas nossa insegurança de lidar com ela. Pesquisas mostraram baixo stress em advogados defendendo causas difíceis, o qual virava alto stress diante do trânsito engarrafado. Policiais de Los Angeles tomam facas de criminosos, perseguem bêbados na estrada e terminam o dia na delegacia fazendo seu relatório. Supressa! O stress só aparece na delegacia, absolutamente segura. A lógica é cristalina. O advogado passou anos se preparando para lidar como stress dos tribunais, mas não os imponderáveis do trânsito. O mesmo ocorre com o policial. Tomar facas é sua profissão. Escrever um relatório que pode ser criticado por seus superiores é terreno pantanoso.

 

Em segundo lugar, stress não é necessariamente uma coisa ruim. Pode ser boa. O ato de criação pode ser estressante. Tarefas desafiadoras podem ser estressantes e boas. Portanto, evitar o stress pode significar distanciar-se de realizações. Entras nas universidades de primeira linha é dificílimo. Mas é nelas que se concentram as melhores cabeças e de onde saem as melhores ideias e inovações. É por isso que ouvimos falar tanto de Harvard ou Stanford. Aliás, a professora Stipek trocaria seus orientandos por outros, de universidades mais fáceis?

 

Voltando à escola, o stress não tem a ver com o número de horas de estudo ou com a dificuldade do assunto ou sua chatice – mas com a falta de preparação para lidar com isso. Um coreano pode passar doze horas estudando, todos os dias, sem stress, pois é seu hábito. Um brasileiro que estuda dez minutos por dia vai ficar estressado se tiver que estudar meia hora. Uma pesquisa curiosa ilustra a desconexão entre o stress e suas causas. Verificou-se que alunos asiáticos ficavam estressados quando tiravam notas ruins, trazendo a vergonha à família e pondo em jogo sua reputação. Em contraste, americanos ficavam estressados quando tiravam notas boas, pois eram malvistos pelos colegas e xingados de nerds. Sofrer com o stress não é uma fatalidade. A solução é aprender a lidar com ele, como fazem os advogados e policiais citados. Achar que os alunos estão estressados porque estudam demais é parte do cacoete que explica nossos péssimos resultados nos testes internacionais.

 

Em uma pesquisa que realizei, foi possível notar que os alunos do supletivo dedicavam mais horas à televisão por dia do que ao estudo durante toda a semana. Outra pesquisa mostrou que, quanto mais elevada a série, menos o número de horas de estudos diários – com maior maturidade, deveriam estudar mais. Mesmo às vésperas do vestibular, as horas de preparação são poucas, até no ensino privado. Os números mostram: nossa educação combina uma jornada escolar curta com míseros minutos estudando em casa. É o pior dos mundos.

 

Previsivelmente, o editorial da Science logo despertou o instinto maternal nos nossos luminares: coitadinhos dos nossos alunos, tão estressados! Mas está errado, se há stress, não é por excesso de dedicação, por horas demais diante dos livros, mas por falta de hábito de estudar. Estressado é quem nunca estudou direito e, de repente, ouve dizer que para passar no vestibular é preciso mudar de vida. A solução não deve ser estudar pouco ou buscar um curso fácil, mas aprender a estudar e aprender a lidar produtivamente com o stress. 

Cadê os Engenheiros

Reportagem do Jornal O Popular – Sônia Ferreira

PROFISSÃO ANDAVA EM BAIXA, MAS AGORA AS EMPRESAS TREINAM, ASSEDIAM E BRIGAM PARA NÃO PERDER ESTES PROFISSIONAIS.

                O Brasil precisa de mais engenheiros para ontem e eles estão escassos no mercado de trabalho. Com o crescimento da economia e, sobretudo com a expansão do crédito da casa própria, ocorrido nos últimos quatro anos, engenheiros passaram a ser valorizados e assediados. Vagas para os cursos de engenharia, sobretudo a civil, nunca foram tão disputadas como agora. Com isso, algumas empresas assediam os profissionais antes do fim da graduação e investem na formação da sua própria mão-de-obra especializada e brigam para não perder o profissional.

                E com a escassez de mão-de-obra, sobram inúmeras vagas com salários para lá de satisfatórios, chegando a até R$ 18 mil mensais, para um profissional sênior gerente de obras, ou R$ 7 mil para um iniciante.

                De acordo com o presidente do Conselho Federal de Engenharia, Arquitetura e Agronomia (Confea), Marcos Túlio de Melo, o déficit de engenheiros no Brasil é de 20 mil profissionais ao ano, número que ainda deverá aumentar com as novas obras do Programa de Aceleração do Crescimento, com a exploração do pré-sal e com os eventos esportivos, como a Copa do Mundo de 2014 e as Olimpíadas do Rio, de 2016.

                Ao contrário do que apregoam as empresas, o presidente do Sindicato dos Engenheiros, Gerson Tertuliano, afirma que não está faltando engenheiros no mercado de trabalho em Goiás. “O que está ocorrendo são faltas pontuais e muita rotatividade no mercado”, assegura. Há três anos, lembra, eram feitas uma média de 10 rescisões contratuais por mês. Atualmente, são 40.

                “O assédio aos bons profissionais é grande e eles estão indo em busca de melhores oportunidades de trabalho e de salários”, confirma o sindicalista. Ele estima que no Estado existam 12 mil engenheiros, dos quais 8 mil estão atuando na área, a maioria na construção civil.

                CAUSAS

                Reprovações, desistências, carência de profissional qualificado, a desvalorização dos profissionais e a falta de emprego, até recentemente, e as falhas na educação, desde o ensino fundamental, desaguam no mercado de trabalho. No auge da crise na construção civil no Brasil, há 20 anos, muitos engenheiros foram para outras atividades. Em Goiânia, virou notícia um engenheiro que, por não conseguir emprego, virou pizzaiolo. Mas agora a situação é diferente e o Brasil enfrenta, em muitos setores, o que se chama de apagão de mão-de-obra, com mais gravidade para o caso de engenheiros.

                Atualmente, o mercado carece de engenheiros civil, elétrico, de produção, de qualidade, de segurança, de planejamento, de estrutura, de formas, de alimentos, de computação, de produção mecânica, metalúrgicos, químicos, mecatrônicos, ambiental e outros.

                TREINAMENTO

                Pata tentar minimizar o problema de falta de trabalhadores especializados, empresas de vários setores da economia estão formando a própria mão-de-obra especializada, embora isso demande tempo e dinheiro. “Vemos na mão-de-obra especializada a garantia de qualidade para produtos e serviços”, afirma o presidente da Associação das Empresas do Mercado Imobiliário (Ademi-Go), Ilélzio Inácio Ferreira.

                Ele garante que todo engenheiro que tem interesse em trabalhar na área consegue hoje oportunidade de emprego. “O mercado está carente de bons profissionais, por isso estamos buscando os estudantes e treinando-os nas próprias obras”, disse.

                Em Goiás, ressalta o presidente da Ademi, aumentou muito a quantidade de obras civis, bem como os cuidados técnicos. “Há dez anos, um único engenheiro tocava duas a três obras, simultaneamente. Hoje, ao contrário, num único empreendimento temos até cinco engenheiros, além de auxiliares e estagiários”, relata.

                “Engenheiro é peça rara no mercado. É como ouro, difícil de encontrar, e vale como tal”, afirma a coordenadora de Recursos Humanos (RH) da EBM Construtora, Flávia Silva.

                Ela conta que, diante da escassez de profissionais no mercado, teve de aprender a lidar com o assédio aos engenheiros da empresa. “Investimos na formação desses profissionais, que passaram a ter mais valor e não queremos perdê-los”, afirma.

                Flávia afirma que a EBM criou um programa próprio para formação de sua mão-de-obra, inclusive engenheiros. Na última sexta-feira, das 46 vagas de estágio em aberto na construtora 35 eram para engenheiros, além de duas outras vagas, que estão em aberto há 60 dias, para engenheiro sênior e engenheiro gerente de obras.

                ESCOLA

                O engenheiro Leonardo Menezes, da Consciente Construtora, observa que, atualmente, os canteiros de obras viraram uma escola para estudantes de engenharia. “Atualmente temos seis recém-formados de engenharia sendo treinados na empresa”, conta. Segundo ele, os alunos deixam os bancos da faculdade com muita teoria, mas inseguros e sem condições hábeis para tocar uma obra. Daí, acrescenta, a importância de se formar esse profissional nas obras, embora isso demande tempo e dinheiro”, avalia.

                PROGRAMA CONTRA A ESCASSEZ

                Não são apenas as empresa que estão preocupadas em formar seus engenheiros. O Comitê de Engenharia da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), a Confederação Nacional da Indústria (CNI) e o programa Inova Engenharia vão concluir este mês o Programa Nacional de Engenharia.

                O objetivo do programa, a ser entregue ainda este mês ao governo, é aumentar a oferta de engenheiros no mercado de trabalho, apresentando propostas para a redução da evasão e para o preenchimento das vagas ociosas dos cursos de engenharia de instituições públicas e privadas.

                O assessor da diretoria da CNI, economista Marcos Formiga, constatou que a evasão nos cursos de engenharia é superior a 50%. A maior parte das desistências ocorre nos dois primeiros anos da graduação. Uma das possíveis causas do problema, segundo ele, é a distância entre os currículos dos cursos e a solução de problemas concretos imposta pela realidade do mercado.

                Marcos Formiga desta a importância do Plano Nacional de Engenharia e da articulação entre diferentes segmentos para ampliar a quantidade de engenheiros no país. “É cada dia mais importante valorizar essa profissão, necessária para se fazer inovação e aumentar a competitividade da indústria brasileira”, disse.

                Formiga revela que o Brasil forma menos engenheiros por ano do que a China, a Índia e a Rússia. Integrantes do chamado grupo dos BRICs.

                O Programa foi criado pela CNI em 2006 para aproximar os currículos dos cursos de engenharia das necessidades do mercado de trabalho.

 

                MERCADO AQUECIDO

Com o boom imobiliário, faltam engenheiros para atender as empresas.

  • Ao todo, 32 mil engenheiros são formados pelas faculdades em todo o Brasil.
  • Em Goiás, sete faculdades (cinco em Goiânia e duas em Anápolis) formam cerca de 500 engenheiros por ano.
  • No ano passado, todo os alunos formados pela UFG e PUC-Go, no curso de engenharia civil, conseguiram empregos, com exceção daqueles que foram fazer pós-graduação ou optaram por concurso públicos.
  • Para acompanhar a demanda do mercado, seriam necessários 80 mil engenheiros formados no Brasil por ano. Os vestibulares das faculdades de engenharia estão cada vez mais concorridos. No último vestibular da UFG houve uma média de 27 alunos por vaga.

 

SALÁRIOS

  • O salário de um profissional recém-formado varia entre R$ 4 mil a R$ 7 mil em Goiânia.
  • A média de um salário de um engenheiro civil, com experiência, é de R$ 12 mil em Goiânia.
  • O salário de um engenheiro sênior chega a R$ 18 mil no mercado goiano.

 

ONDE ESTÃO AS OPORTUNIDADES

  • As maiores oportunidades de empregos estão nas áreas das indústrias da construção civil, petrolífera, naval e das empresas de TI (Computação).

 

EMPRESA FORMAM TRABALHADORES E RECRUTAM ALUNOS NAS FACULDADES

COM O OBJETIVO DE FORMAR MÃO-DE-OBRA, CONSTRUTORAS PAGAM OS ESTUDOS DE TRABALHADORES PARA SE FORMAREM EM ENGENHARIA E OFERECEM ESTÁGIOS PARA UNIVERSITÁRIOS.

            O empresário Wênio dos Santos Pimenta, da CRV Construtora, confirma a dificuldade de recrutar engenheiros de todas as áreas no mercado. “Temos uma vaga de engenheiro em aberto. Dada a dificuldade de se encontrar esse profissional, estamos recrutando até um trainee. Vamos plantar para colher no futuro”. Resume. Ele conta que, no fim do ano passado, ficou quatro meses buscando um profissional no mercado. “Não tivemos sucesso e estão remanejamos os engenheiros dentro da própria empresa”, contou.

                A CRV Construtora também tem um programa de profissionalização de seus funcionários. Atualmente, dos 23 engenheiros que atuam nas suas obras e dos 15 estagiários de engenharia civil, 8 começaram na empresa com ajudantes de pedreiro ou em outras funções. Além disso, a empresa está apoiando outros funcionários nos estudos de engenharia. “Estamos ajudando essas pessoas a realizar sonhos e fazer a própria história”, disse Wênio.

                O engenheiro Hilton de Jesus dos Reis, 37 anos, começou a trabalhar na CRV em 1996 como ajudante de carpinteiro e depois passou a mestre-de-obras. “Quando entrei na empresa, aos 22, havia deixado os estudos na 6ª Série do ensino fundamental. Mas incentivado pelos diretores Cláudio e Wênio e com meia bolsa de estudos da própria empresa, voltei para a escola e cursei a faculdade de engenharia. Agora sou um profissional completo. Aliei a teoria à prática que já tinha e agora sou visto pela sociedade com outros olhos”, afirma.

                No fim do ano passado, ele concluiu o curso universitário e agora aguarda o registro profissional no Crea-Go, embora já esteja atuando como engenheiro. Na construtora, Hilton é coordenador de três projetos de construções de casas s sobrados pré-moldados.

                A estudante Thalita Silva Mendonça, 23, cursa o 9º período do curso de engenharia civil da PUC-Go, mas desde o 3º período já trabalha na área. Ela começou como estagiária num escritório de projetos e hoje atua num canteiro de obras, emprego conseguido, sem dificuldades, através de um conhecido da área de engenharia.

                “Todos os meus 25 colegas de curso trabalham na construção civil. Quem está fora do mercado de trabalho é porque não tem interesse ou falta motivação. Há muitas oportunidades de emprego”, observa.

                Segundo Thalita trabalhar em um canteiro de obras é uma verdadeira escola. “Acompanhamos de perto a execução dos serviços, vivenciamos os problemas e buscamos uma solução imediata. É uma experiência única e valiosa”, define.

                EM ALTA

                O professor Manuel da Silva Álvares, coordenador do curso de engenharia da PUC-Go, disse que os cursos de engenharia estão em alta no mercado. “Todo aluno que tem interesse em fazer estágio, a partir do 3º período do curso, já consegue vaga. As empresas vão à faculdade em busca de estagiários. Todos os alunos formados conseguem emprego”, conta.

                Segundo ele, com a abertura de mais vagas para trabalho na engenharia civil, até a evasão dos estudantes caiu. Há cinco anos, uma média de 40% dos alunos abandonavam o curso nos três primeiros períodos. Agora, esse índice é inferior a 15%.

                O coordenador do curso de graduação em engenharia civil da Universidade Federal de Goiás (UFG), professor Orlando Ferreira Gomes, disse que os 80 alunos graduados no ano passado, com exceção daqueles que foram para os cursos de pós-graduação, conseguiram empregos. E dos alunos em sala de aula, atualmente, 80% está fazendo estágios. Há dez anos, lembra, um formando tinha grande dificuldade de conseguir emprego na área. Agora, ele é disputado antes mesmo de deixar a universidade.

 

                O PAÍS PRECISA DO DOBRO DE PROFISSIONAIS

                NO Brasil, 32 mil engenheiros saem das faculdades por ano. Para acompanhar o crescimento da economia, hoje, seria necessário mais o dobro desse número, cerca de 70 mil, de acordo com estimativas da Escola de Engenharia da Universidade Federal do Rio de Janeiro.

                A Rússia forma em torno de 120 mil engenheiros por ano e a Índia, cerca de 300mil e, na China ultrapassa os 400mil, conforme levantamento da CNI. Estudos também indicam que a França tem 15 engenheiros para cada mil habitantes. Nos Estados Unidos e no Japão, a proporção é de 25 engenheiros para cada mil. No Brasil, são apenas 6.

                “Para o Brasil ter um projeto de nação, sairmos da 7ª maior economia do mundo para a 5ª, esse profissional é indispensável”, diz o economista Marcos Formiga, da CNI.

                Para o professor da UFRJ, Aquilino Senra, se não for dada uma resposta imediata nos próximos dois anos para essa deficiência, teremos nos próximos quatro anos uma situação insustentável em desenvolvimento tecnológico.

                O professor Manuel da Silva Álvares, da PUC-Go, acredita que o mercado de trabalho para os engenheiros continuará em alta na próxima década, crescendo em média 30%. “O Brasil é carente em obras de infraestrutura, moradia, saneamento e em outras áreas. Isso garante muitas oportunidades de emprego”.

 

ESTUDO APONTA PERIGO DE DESCOMPASSO NA OFERTA

                O estudo Potenciais Gargalos e Prováveis Caminhos de Ajustes da Engenharia no Brasil, realizado pelo IPEA, aponta que se a economia brasileira crescer mais de 4,5% ao ano, como está ocorrendo, a oferta de engenheiros no mercado de trabalho não será suficiente para atender à demanda da indústria, agroindústria, comércio e outras áreas de tecnologia em geral em 2020.

                Mas não basta formar mais engenheiros. Será necessário melhorar a qualidade desses profissionais. Enfatizou o técnico do IPEA Divonzeir Guzzo.

                “É cada dia mais importante valorizar essa profissão, necessária para se fazer inovação e aumentar a competitividade da indústria brasileira”, diz a CNI. 

A Lição Digital

Do computador à lousa digital, pesquisas inéditas mostram quando e como a tecnologia realmente funciona na escola.

                Poucos segundos depois de bater o sinal que anunciava o início da aula de Ciências, os alunos do 6º ano começaram a entrar na classe da professora Leika Procopiak, cada um carregando seu próprio laptop, trazido de casa. Ao se acomodar nas mesas, nenhum deles tirou da mochila um caderno ou livro. Abriram seus computadores, conectaram-se à internet (sem vio e de alta velocidade) e estavam prontos para aprender a lição do dia: fotossíntese. “Cada dupla decide quais das atividades fará hoje”, disse ela, no início da aula.

                Sem usar a lousa e movimentando-se pela sala, Leika passou os 80 minutos seguintes orientando pesquisas em bancos internacionais de dados online sobre fontes de energia. Ajudou a fazer simulações gráficas de como variações de luz e da temperatura podem afetar o resultado da fotossíntese. Corrigiu exercícios propostos a partir de vídeos a que os alunos assistiram em sites especializados na web. Depois, cada dupla de aluno produziu um relatório, compartilhado com os colegas e com a professora pelo serviço de arquivos online Google Docs. O sinal marcando o fim da aula bateu e nenhum caderno saíra das mochilas.

                Essa aula aconteceu da Graded School, uma das melhores escolas de São Paulo. É o tipo de atividade com que sonham pais deslumbrados com a parafernália tecnológica que atualmente é alardeada por colégios particulares. Escolas que muitas vezes cobram mensalidades mais altas por isso. Há mais de 25 anos tenta-se comprovar a eficácia do uso da tecnologia no ensino. Mas depois de tanto tempo, e de tanto marketing, ainda resta a pergunta: usar tecnologia para ensinar faz os alunos aprender mais?

                A resposta é sim. Dois estudos inéditos demonstram como a tecnologia ajudou a melhorar as notas de alunos da rede pública. A Fundação Carlos Chagas (FCC) acaba de concluir uma avaliação dos alunos de todas as escolas públicas do município de José de Freitas, no interior do Piauí, que desde o início de 2009 estudam com apoio de lousas interativas, laptops individuais e softwares educativos. De acordo com o estudo, esses alunos melhoram suas médias em matemática em 8,3 pontos, enquanto os que não usaram a tecnologia avançaram apenas 0,2 ponto. O segundo estudo, da Unesco, braço direito das Nações Unidas para a educação, avaliou o desempenho de alunos de escolas públicas de Hortolândia, em São Paulo, que usaram salas de aula com lousa digital e um computador por aluno. O avanço foi de duas a sete vezes em relação aos colegas em salas de aula comuns.

                O sucesso, porém, depende de como a tecnologia é usada. Não adianta trocar o caderno por notebook ou tablet sem ter estratégias e conteúdo para usá-los. Isso ficou bem claro em alguns fracassos no uso dos computadores. O Banco Mundial divulgou, no fim do ano passado, a avaliação de um programa de governo colombiano que distribuiu máquinas para 2 milhões de alunos. O impacto nas notas de espanhol e matemática foi próximo a zero. Em alguns casos, as notas até pioram depois da chegada dos aparelhos. Em 2007, uma pesquisa do Ministério da Educação no Brasil mostrou que alunos que estudaram, por três anos, em escolas com computador estavam pelo menos seis meses atrasados no aprendizado em relação aos outros. Em ambos os casos, os pesquisadores se limitaram a contar se havia computador na escola. Não avaliaram se as máquinas eram usadas para dar algum conteúdo, além dos cursos de processadores de texto e planilhas.

                É por isso que, nos países mais adiantados na implantação da tecnologia, a discussão hoje é como usar a tecnologia da melhor forma. Nos países ricos, a questão do acesso às máquinas foi superada. Cerca de 97% da rede pública americana tem um computador por aluno. Na Alemanha, mais de 30 mil escolas estão equipadas desde 2001. Mas, depois de tanto tempo usando o computador na sala de aula, as estatísticas de aprendizado nacionais não melhoraram significadamente. A pergunta é como usar a tecnologia de um jeito diferente. A Inglaterra criou um departamento só para pesquisar e avaliar o uso inovador da tecnologia sem ala de aula. Na Coréia do Sul, o governo percebeu que, sem um conteúdo curricular fortemente relacionado à tecnologia, ela teria pouco efeito. Começou a produzir novos materiais didáticos para os computadores. “Ainda tendemos a conceber o papel da tecnologia como algo a que basta o aluno ter acesso que as coisas vão melhorar”, afirma o americano Mark Weston, estrategista educacional da fábrica de computadores Dell. “Essa era a ideia há 30 anos, mas agora sabemos que também é preciso ter boas práticas de ensino”. A seguir, cinco práticas que ajudam a tecnologia a ensinar.  

 

1 – SABER PARA QUE USAR A TECNOLOGIA

                A tecnologia precisa ser usada com um propósito. A professora Leika, da Graded School, planejou a aula descrita no começo dessa reportagem porque queria que os alunos aprendessem na prática a teoria que ela tinha ensinado, do jeito tradicional, na aula anterior. “Planejei bem em casa e pesquisei as melhores fontes para que isso acontecesse”, diz. Na sala de aula, quem domina a estratégia é o professor, mas também é decisão da escola, ou até da rede inteira, como usar determinada tecnologia.

                Em segundo lugar, o conteúdo tecnológico deve ser complementar ao transmitido da forma tradicional. “Não adianta dar para ao aluno ler no computador o mesmo texto que ele leria no livro didático ou na apostila. Isso não o fará aprender mais ou melhor”, afirma Marcos Telles, diretor da Dynamic Lab, uma empresa de tecnologia de educação.

                A integração entre a tecnologia e o conteúdo das aulas é o maior desafio das escolas. As escolas municipais de Matinhos, no Paraná, tinham uma demanda específica: melhorar as notas de português e matemática de todos os 3 mil alunos da rede, com equidade. Foram atrás de um software educacional feito sob medida para isso. No computador, o aluno faz atividades interativas e evolui para as mais difíceis, de acordo com seu ritmo de aprendizado. “Alunos aprendem de jeitos diferentes e, no ensino tradicional, os que estão para trás acabam fadados ao fracasso por não receberem acompanhamento adequado”, afirma Betina Von Staa, pesquisadora da Positivo Informática, que faz os softwares educativos. Marcos Vinicys de Oliveira, de 7 anos, poderia ter sido um deles. Em 2010, estava no 2º ano e ainda não conseguia ler nem cumprir tarefas mais simples, como copiar a lição da lousa. “Agora consigo juntar as letras no computador”, diz. Marcos aprendeu a ler e a escrever depois de começar a usar o programa.

 

2 – TRANSFORMAR O JEITO DE DAR AULA

                Para usar qualquer tecnologia, da câmera digital ao computador, é preciso abandonar a geografia tradicional da sala de aula, aquele que coloca o professor na frente do quando e os alunos enfileirados anotando tudo. Uma das tecnologias mais antigas em prática nas escolas brasileiras é a robótica. Ela reforça a ideia de ensinar de forma diferente: são aulas em que os alunos, sempre em grupo, precisam executar um projeto: programar e montar um robô. “Aprendi a trabalhar em equipe e a prestar atenção nos pequenos detalhes”, diz César Henrique Braga. Ele acabara de terminar seu primeiro robô, um jipe lunar, com outros três colegas do 6º ano do colégio COC Vila Yara, em Osasco, São Paulo. “O aluno precisa aprender a usar o conhecimento para criar”, diz Paulo Blikstein, professor da escola de Educação da Universidade de Stanford.

                Blisktein ensina professores da rede pública dos Estados Unidos a ensinar em ambientes com tecnologia. Para ele, a vocação da tecnologia é ajudar no ensino por projetos. Essa estratégia parte dos conteúdos do currículo tradicional, como escrita e matemática, para desafiar os alunos a executar tarefas criativas, como fazer um filme. E essas habilidades dificilmente são ensinadas nas aulas tradicionais.

 

3 – MUDAR A RELAÇÃO ENTRE PROFESSOR E ALUNO.

                Segundo Blikstein, um dos maiores desafios na hora de usar tecnologia é mudar a prática e a mentalidade dos professores. Isso aconteceu em Hortolândia no início do projeto, estudado pela Unesco. Ele foi elaborado e executado por especialistas em educação da fabricante de computadores Dell e da Secretaria Estadual de Educação de São Paulo. O objetivo era melhorar o aprendizado de português e matemática de 5.500 alunos do 6º e 7º ano do ensino fundamental e 1º e 2º do ensino médio, de 23 escolas estaduais. As salas de aula ganharam um computador por aluno e lousa digital, com material didático digital desenvolvido por educadores da Universidade de São Paulo (USP).

                Foi preciso um ajuste de cara. As aulas não estavam durando o tempo planejado. O material fora criado para aulas de 50 minutos. Mas elas acabavam em apenas 20. Isso porque os professores usavam a lousa digital como se fosse um quadro-negro tradicional. “Eles não davam espaço para os alunos interagirem com a lousa”, diz Marcos Menezes, diretor da área de educação da Dell para o Brasil.

                A prática do professor também está ligada a sua relação com o aluno e a seu domínio sobre a classe. A concentração de alunos na aula é um dos fatores mais determinantes para que eles de fato aprendam. Várias pesquisas e estudos já foram feitos sobre isso, não existe uma fórmula mágica que garanta que garotos se interessem mais por cálculos de raiz quadrada do que por bater papo com um colega. Mas alguns especialistas dizem e pesquisas demonstram que, usada da maneira correta, a tecnologia pode sim ajudar a prender a atenção. “Como é uma linguagem que o aluno conhece, o professor se aproxima com mais facilidade”, dia Maria Elizabeth Almeida, professora do programa de pós-graduação em educação curricular da PUC de São Paulo.

 

4 – FORMAR E TREINAR OS PROFESSORES

                No Brasil e no mundo, a maioria dos professores ainda não consegue justificar o usa da tecnologia na classe. “Eles não têm formação adequada para isso”, diz Weston, da Dell. Não por acaso, o projeto de Hortolândia foi executado pela Escola de Formação de Professores do Estado de São Paulo. “Não adianta colocar a tecnologia na escola sem dar a formação adequada aos professores”, diz Vera Cabral, diretora da escola. O próximo passo é levar o projeto para toda a rede e treinar professores em grande escala.

                Há duas maneiras de fazer a formação dos professores. A primeira é colocar os formadores, monitores especializados na tecnologia e no conteúdo, dentro das salas de aula, como fez um projeto conjunto do Estado do Piauí, do município de José de Freitas, e da Positivo. Franscisca das Chagas Lopes Silva dá aula no 4º ano de uma escola estadual da cidade. Formada em pedagogia, ela não sabia como fazer o planejamento diário de suas aulas, nem aprendeu na faculdade a avaliar seus alunos de outra forma a não ser as tradicionais provas bimestrais. Ao participar do projeto, Francisca passou a dar aulas acompanhada por monitores. O planejamento das atividades fazia parte do treinamento¸ assim como fazer o registro de tudo que acontecia em classe para avaliar melhor o desenvolvimento dos alunos. “Aprendi a ensinar usando a tecnologia, mas também aprendi a planejar. Se eu for planejar uma aula qualquer, do jeito tradicional, farei isso melhor do que antes”, diz.

                A segunda estratégia para formar os professores é mais comum nas escolas particulares. Ali, a formação acontece mais por iniciativa de cada professor do que em cursos oferecidos pelos gestores. No Beit Yaacov, colégio particular de São Paulo, a estratégia adotada foi deixar a cargo dos professores quando e qual tecnologia usar. Os profissionais são estimulados a pesquisar por conta própria novas tecnologias e as maneiras de usá-las, inclusive no ensino infantil. A partir da experiência de cada um, o que dá certo é adotado pelo resto da escola e o que deu errado é aperfeiçoado. “Sem o envolvimento de todos os professores, não há como criar e fortalecer uma cultura digital dentro da escola”, afirma Silvana Del Vecchio, coordenadora de tecnologia do colégio.

 

5 – REFORMAR A CULTURA DA ESCOLA

                Nem a tecnologia mais avançada conseguiu ainda o feito de mudar a cultura escolar. Mas uma escola pública de Nova York resolveu tentar. A Quest to Learn foi criada pela designer de games Katie Salen, que escreveu vários livros sobre o uso de jogos na educação. Os alunos aprendem o conteúdo curricular criando e jogando videogames. Em funcionamento há um ano e meio, a escola foi moldada sob conceitos muito diferentes: os alunos não passam de ano, mas de fase – como nos jogos -, e não ganham notas, mas classificações de acordo com a habilidade. “Acreditamos que aprender a programar e a lidar com mídias são habilidades centrais para que os jovens se expressem e sejam competitivos ao entrar na universidade e no mercado de trabalho”, diz Katie.

                A cultura do ensino pela tecnologia está na prática diária dos professores da Quest To Learn. “Eles são treinados para criar experiências nas quais os alunos possam aprender fazendo, tentar soluções e dividir o conhecimento”, diz Katie. Até agora os alunos não mostraram notas melhores nos testes tradicionais, que não medem as tais “habilidades do futuro”. Se derem certo, porém, experiências como essa podem e devem ser usadas como alternativas para melhorar o ensino para todos. 

 MARK WESTON

 

“Tecnologia serve com mediadora”

O especialista da área de tecnologia na educação diz que trocar o caderno por artefatos modernos é ineficiente se o jeito de ensinar não mudar.

 

                O consultor Mark Weston, estrategista educacional da Dell, dedicou os últimos 36 anos de sua vida a melhorar o ensino usando inovações tecnológicas. Depois de participar de projetos promovidos pelo governo dos Estados Unidos, em vários estados americanos e em outro s países, chegou a algumas conclusões sobre como a tecnologia pode ser usada em sala de aula par melhorar o aprendizado dos alunos. Nesta entrevista, Weston revela o potencial pedagógico da tecnologia e alerta para suas limitações: “Se um livro não funciona para um aluno, trocá-lo por um livro digital não vai resolver o problema”.

 

Por que o senhor diz que a tecnologia foi reprovada na educação?

                Weston – Depois de mais de 15 anos de experiência em reforma na educação, cheguei à conclusão de que mais do mesmo esforço não daria resultado. Em geral, o sistema educacional atual funciona, na melhor das hipóteses, para duas em cada três crianças. Uma parte desse esforço tem sido a entrada da tecnologia nas escolas, mas é evidente que nem o uso da tecnologia conseguiu mudar a estatística principal de que o sistema falha com a maioria.

 

Há alguma certeza sobre como usar a tecnologia na educação?

                Weston – Se o objetivo é educar melhor todas as crianças, e a pergunta é se isso é possível, a resposta é sim. Há evidências de práticas pedagógicas que conduzem todas as crianças a aprender mais. A questão é como fazer. Uma das dificuldades tem haver com a forma como concebemos o papel da tecnologia na educação. Ainda tendemos a pensar na tecnologia como algo a que o aluno quer ter acesso. Você dá um computador, ele tem acesso e isso muda as coisas. Mas está bem claro que não é o acesso que assegura os resultados, mas as práticas das quais as tecnologias fazem parte.

 

Os tablets ou as lousas interativas substituem antigas práticas de ensino ou podem de fato muda-las?

                Weston – Se um livro não funciona para um aluno, trocá-lo por um livro digital não vai resolver o problema. Está havendo um nível de automatização ou refinamento, mas o problema fundamental do aprendizado não é atacado. A tecnologia tem de servir como mediadora para estilos de aprendizado, estudantes, professores, pais e conteúdos.

 

Por exemplo

                Weston – Hoje o aluno é visto como um participante passivo, que recebe a informação. Então, mesmo em uma classe com lousa interativa, eu não me surpreenderia de ver o professor no quadro. Se o papel do estudante tivesse mudado, os alunos deveriam estar no quadro, ou fazendo coisas om outros alunos ou com o professor. O que muda é a pedagogia usada e como estudantes e professores veem seus papéis.

 

Como preparar professores para essa mudança?

                Weston – É preciso ter uma nova formação para professores. No sistema atual, cada professor é responsável por desenvolver como dar cada conteúdo. Cada um pensa individualmente num esquema de fazer seu trabalho. Uma alternativa é criar um esquema coletivo que funcione para a escola toda, em que cada professor ajude a refinar os métodos do outro e se beneficie.

 

               

Aulas digitais

                Duas pesquisas feitas em escolas brasileiras mostram que o uso da tecnologia ajudou os alunos a aprenderem mais.

                A Unesco comparou 5.500 alunos de Hortolândia, São Paulo, que usaram tecnologia com outros que tiveram aula tradicional, de junho de 2009 a novembro de 2010. 

 

 

 

 

 

 

 

Fontes: Unesco e Secretaria de Educação de São Paulo.

 

                Em José de Freitas, Piauí, os alunos de todas as escolas do município participaram, durante dois anos, de um projeto que incluiu diversas tecnologias. Os resultados foram avaliados pela Fundação Carlos Chagas

Escola sem Papel – Revista Época

País com um dos melhores sistemas de ensino do mundo, a Coréia do Sul vai tirar livros e cadernos de sala de aula. Reportagem de Débora Rubin Vanguarda: Estudantes sul-coreanos na sala de aula com sues tablets: investimento de U$ 2 bilhões.

Os alunos da Coréia do Sul não precisarão carregar mais tanto peso nas costas a partir de 2015. O governo anunciou neste mês que todo o sistema de ensino será digitalizado. Para ler o conteúdo de um livro ou fazer a lição de casa, bastará ter um tablet ou mesmo um smartphone. O conteúdo digital faz parte do programa SmartEducation (Educação Inteligente), que terá investimentos da ordem de US$ 2 bilhões. Além de eliminar o uso de livros e cadernos, o programa prevê a criação de salas multimídia com computadores e quadros eletrônicos. As aulas também serão transmitidas em tempo real – o que pode ser um fim da velha desculpa de faltar na escola quando se está doente.

A transformação digital da educação coreana é inédita. Nenhum outro país, por hora, prevê tamanha mudança em tão pouco tempo. Nem tanto pela falta de investimentos, mas sim pelo modelo educacional.

“A grande maioria dos países tem uma estrutura muito menos centralizada e mais complexa, o que dificulta a padronização e a digitalização da educação”, afirma César Nunes, pesquisador no Núcleo de Pesquisas em Inovação Curricular da Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo e diretor da Oort Tecnologia, produtora de material didático digital. Nos Estados Unidos, por exemplo, algumas cidades estão apostando em projetos-piloto com tablets – a Prefeitura de Nova York comprou dois mim aparelhos. No Estado de Indiana, o ensino de letra cursiva agora é opcional.

Para o especialista César Nunes, a questão mais importante a ser debatida é como usar a tecnologia em sala de aula. “Quando falamos em cadernos e livros digitais, corremos o risco de nos ater apenas a atividades muito guiadas, mais parecidas com o sistema tradicional”, diz. “Mais interessante é pensar em como usar isso focado no desenvolvimento do pensamento e das competências do século XXI”. Encher uma sala de aula de computadores e não saber o que fazer deles é uma história recorrente no mundo educacional. Recentemente, a Espanha investiu em lousas digitais e notebooks em sua rede pública. O que parecia uma iniciativa nobre gerou uma grande confusão, já que a maioria dos professores nem sequer sabia usar o material.

No Brasil, há um ano foi lançado oficialmente o Programa Um Computador por Aluno (Prouca) pelo ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que ainda está na fase piloto. Dez escolas de cinco cidades receberam 1.390 máquinas para a fase de teste. A segunda etapa vai levar 150 mil laptops para três mil alunos de mais cinco municípios. Paralelamente, 600 professores universitários foram capacitados para treinar da rede pública a usar o material de forma adequada.

< < < < < Pacto social O governo sul-coreano investe 5% do PIB na educação. Os pais gastam até 20% da renda familiar na formação dos filhos.