Cadê os Engenheiros

Reportagem do Jornal O Popular – Sônia Ferreira

PROFISSÃO ANDAVA EM BAIXA, MAS AGORA AS EMPRESAS TREINAM, ASSEDIAM E BRIGAM PARA NÃO PERDER ESTES PROFISSIONAIS.

                O Brasil precisa de mais engenheiros para ontem e eles estão escassos no mercado de trabalho. Com o crescimento da economia e, sobretudo com a expansão do crédito da casa própria, ocorrido nos últimos quatro anos, engenheiros passaram a ser valorizados e assediados. Vagas para os cursos de engenharia, sobretudo a civil, nunca foram tão disputadas como agora. Com isso, algumas empresas assediam os profissionais antes do fim da graduação e investem na formação da sua própria mão-de-obra especializada e brigam para não perder o profissional.

                E com a escassez de mão-de-obra, sobram inúmeras vagas com salários para lá de satisfatórios, chegando a até R$ 18 mil mensais, para um profissional sênior gerente de obras, ou R$ 7 mil para um iniciante.

                De acordo com o presidente do Conselho Federal de Engenharia, Arquitetura e Agronomia (Confea), Marcos Túlio de Melo, o déficit de engenheiros no Brasil é de 20 mil profissionais ao ano, número que ainda deverá aumentar com as novas obras do Programa de Aceleração do Crescimento, com a exploração do pré-sal e com os eventos esportivos, como a Copa do Mundo de 2014 e as Olimpíadas do Rio, de 2016.

                Ao contrário do que apregoam as empresas, o presidente do Sindicato dos Engenheiros, Gerson Tertuliano, afirma que não está faltando engenheiros no mercado de trabalho em Goiás. “O que está ocorrendo são faltas pontuais e muita rotatividade no mercado”, assegura. Há três anos, lembra, eram feitas uma média de 10 rescisões contratuais por mês. Atualmente, são 40.

                “O assédio aos bons profissionais é grande e eles estão indo em busca de melhores oportunidades de trabalho e de salários”, confirma o sindicalista. Ele estima que no Estado existam 12 mil engenheiros, dos quais 8 mil estão atuando na área, a maioria na construção civil.

                CAUSAS

                Reprovações, desistências, carência de profissional qualificado, a desvalorização dos profissionais e a falta de emprego, até recentemente, e as falhas na educação, desde o ensino fundamental, desaguam no mercado de trabalho. No auge da crise na construção civil no Brasil, há 20 anos, muitos engenheiros foram para outras atividades. Em Goiânia, virou notícia um engenheiro que, por não conseguir emprego, virou pizzaiolo. Mas agora a situação é diferente e o Brasil enfrenta, em muitos setores, o que se chama de apagão de mão-de-obra, com mais gravidade para o caso de engenheiros.

                Atualmente, o mercado carece de engenheiros civil, elétrico, de produção, de qualidade, de segurança, de planejamento, de estrutura, de formas, de alimentos, de computação, de produção mecânica, metalúrgicos, químicos, mecatrônicos, ambiental e outros.

                TREINAMENTO

                Pata tentar minimizar o problema de falta de trabalhadores especializados, empresas de vários setores da economia estão formando a própria mão-de-obra especializada, embora isso demande tempo e dinheiro. “Vemos na mão-de-obra especializada a garantia de qualidade para produtos e serviços”, afirma o presidente da Associação das Empresas do Mercado Imobiliário (Ademi-Go), Ilélzio Inácio Ferreira.

                Ele garante que todo engenheiro que tem interesse em trabalhar na área consegue hoje oportunidade de emprego. “O mercado está carente de bons profissionais, por isso estamos buscando os estudantes e treinando-os nas próprias obras”, disse.

                Em Goiás, ressalta o presidente da Ademi, aumentou muito a quantidade de obras civis, bem como os cuidados técnicos. “Há dez anos, um único engenheiro tocava duas a três obras, simultaneamente. Hoje, ao contrário, num único empreendimento temos até cinco engenheiros, além de auxiliares e estagiários”, relata.

                “Engenheiro é peça rara no mercado. É como ouro, difícil de encontrar, e vale como tal”, afirma a coordenadora de Recursos Humanos (RH) da EBM Construtora, Flávia Silva.

                Ela conta que, diante da escassez de profissionais no mercado, teve de aprender a lidar com o assédio aos engenheiros da empresa. “Investimos na formação desses profissionais, que passaram a ter mais valor e não queremos perdê-los”, afirma.

                Flávia afirma que a EBM criou um programa próprio para formação de sua mão-de-obra, inclusive engenheiros. Na última sexta-feira, das 46 vagas de estágio em aberto na construtora 35 eram para engenheiros, além de duas outras vagas, que estão em aberto há 60 dias, para engenheiro sênior e engenheiro gerente de obras.

                ESCOLA

                O engenheiro Leonardo Menezes, da Consciente Construtora, observa que, atualmente, os canteiros de obras viraram uma escola para estudantes de engenharia. “Atualmente temos seis recém-formados de engenharia sendo treinados na empresa”, conta. Segundo ele, os alunos deixam os bancos da faculdade com muita teoria, mas inseguros e sem condições hábeis para tocar uma obra. Daí, acrescenta, a importância de se formar esse profissional nas obras, embora isso demande tempo e dinheiro”, avalia.

                PROGRAMA CONTRA A ESCASSEZ

                Não são apenas as empresa que estão preocupadas em formar seus engenheiros. O Comitê de Engenharia da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), a Confederação Nacional da Indústria (CNI) e o programa Inova Engenharia vão concluir este mês o Programa Nacional de Engenharia.

                O objetivo do programa, a ser entregue ainda este mês ao governo, é aumentar a oferta de engenheiros no mercado de trabalho, apresentando propostas para a redução da evasão e para o preenchimento das vagas ociosas dos cursos de engenharia de instituições públicas e privadas.

                O assessor da diretoria da CNI, economista Marcos Formiga, constatou que a evasão nos cursos de engenharia é superior a 50%. A maior parte das desistências ocorre nos dois primeiros anos da graduação. Uma das possíveis causas do problema, segundo ele, é a distância entre os currículos dos cursos e a solução de problemas concretos imposta pela realidade do mercado.

                Marcos Formiga desta a importância do Plano Nacional de Engenharia e da articulação entre diferentes segmentos para ampliar a quantidade de engenheiros no país. “É cada dia mais importante valorizar essa profissão, necessária para se fazer inovação e aumentar a competitividade da indústria brasileira”, disse.

                Formiga revela que o Brasil forma menos engenheiros por ano do que a China, a Índia e a Rússia. Integrantes do chamado grupo dos BRICs.

                O Programa foi criado pela CNI em 2006 para aproximar os currículos dos cursos de engenharia das necessidades do mercado de trabalho.

 

                MERCADO AQUECIDO

Com o boom imobiliário, faltam engenheiros para atender as empresas.

  • Ao todo, 32 mil engenheiros são formados pelas faculdades em todo o Brasil.
  • Em Goiás, sete faculdades (cinco em Goiânia e duas em Anápolis) formam cerca de 500 engenheiros por ano.
  • No ano passado, todo os alunos formados pela UFG e PUC-Go, no curso de engenharia civil, conseguiram empregos, com exceção daqueles que foram fazer pós-graduação ou optaram por concurso públicos.
  • Para acompanhar a demanda do mercado, seriam necessários 80 mil engenheiros formados no Brasil por ano. Os vestibulares das faculdades de engenharia estão cada vez mais concorridos. No último vestibular da UFG houve uma média de 27 alunos por vaga.

 

SALÁRIOS

  • O salário de um profissional recém-formado varia entre R$ 4 mil a R$ 7 mil em Goiânia.
  • A média de um salário de um engenheiro civil, com experiência, é de R$ 12 mil em Goiânia.
  • O salário de um engenheiro sênior chega a R$ 18 mil no mercado goiano.

 

ONDE ESTÃO AS OPORTUNIDADES

  • As maiores oportunidades de empregos estão nas áreas das indústrias da construção civil, petrolífera, naval e das empresas de TI (Computação).

 

EMPRESA FORMAM TRABALHADORES E RECRUTAM ALUNOS NAS FACULDADES

COM O OBJETIVO DE FORMAR MÃO-DE-OBRA, CONSTRUTORAS PAGAM OS ESTUDOS DE TRABALHADORES PARA SE FORMAREM EM ENGENHARIA E OFERECEM ESTÁGIOS PARA UNIVERSITÁRIOS.

            O empresário Wênio dos Santos Pimenta, da CRV Construtora, confirma a dificuldade de recrutar engenheiros de todas as áreas no mercado. “Temos uma vaga de engenheiro em aberto. Dada a dificuldade de se encontrar esse profissional, estamos recrutando até um trainee. Vamos plantar para colher no futuro”. Resume. Ele conta que, no fim do ano passado, ficou quatro meses buscando um profissional no mercado. “Não tivemos sucesso e estão remanejamos os engenheiros dentro da própria empresa”, contou.

                A CRV Construtora também tem um programa de profissionalização de seus funcionários. Atualmente, dos 23 engenheiros que atuam nas suas obras e dos 15 estagiários de engenharia civil, 8 começaram na empresa com ajudantes de pedreiro ou em outras funções. Além disso, a empresa está apoiando outros funcionários nos estudos de engenharia. “Estamos ajudando essas pessoas a realizar sonhos e fazer a própria história”, disse Wênio.

                O engenheiro Hilton de Jesus dos Reis, 37 anos, começou a trabalhar na CRV em 1996 como ajudante de carpinteiro e depois passou a mestre-de-obras. “Quando entrei na empresa, aos 22, havia deixado os estudos na 6ª Série do ensino fundamental. Mas incentivado pelos diretores Cláudio e Wênio e com meia bolsa de estudos da própria empresa, voltei para a escola e cursei a faculdade de engenharia. Agora sou um profissional completo. Aliei a teoria à prática que já tinha e agora sou visto pela sociedade com outros olhos”, afirma.

                No fim do ano passado, ele concluiu o curso universitário e agora aguarda o registro profissional no Crea-Go, embora já esteja atuando como engenheiro. Na construtora, Hilton é coordenador de três projetos de construções de casas s sobrados pré-moldados.

                A estudante Thalita Silva Mendonça, 23, cursa o 9º período do curso de engenharia civil da PUC-Go, mas desde o 3º período já trabalha na área. Ela começou como estagiária num escritório de projetos e hoje atua num canteiro de obras, emprego conseguido, sem dificuldades, através de um conhecido da área de engenharia.

                “Todos os meus 25 colegas de curso trabalham na construção civil. Quem está fora do mercado de trabalho é porque não tem interesse ou falta motivação. Há muitas oportunidades de emprego”, observa.

                Segundo Thalita trabalhar em um canteiro de obras é uma verdadeira escola. “Acompanhamos de perto a execução dos serviços, vivenciamos os problemas e buscamos uma solução imediata. É uma experiência única e valiosa”, define.

                EM ALTA

                O professor Manuel da Silva Álvares, coordenador do curso de engenharia da PUC-Go, disse que os cursos de engenharia estão em alta no mercado. “Todo aluno que tem interesse em fazer estágio, a partir do 3º período do curso, já consegue vaga. As empresas vão à faculdade em busca de estagiários. Todos os alunos formados conseguem emprego”, conta.

                Segundo ele, com a abertura de mais vagas para trabalho na engenharia civil, até a evasão dos estudantes caiu. Há cinco anos, uma média de 40% dos alunos abandonavam o curso nos três primeiros períodos. Agora, esse índice é inferior a 15%.

                O coordenador do curso de graduação em engenharia civil da Universidade Federal de Goiás (UFG), professor Orlando Ferreira Gomes, disse que os 80 alunos graduados no ano passado, com exceção daqueles que foram para os cursos de pós-graduação, conseguiram empregos. E dos alunos em sala de aula, atualmente, 80% está fazendo estágios. Há dez anos, lembra, um formando tinha grande dificuldade de conseguir emprego na área. Agora, ele é disputado antes mesmo de deixar a universidade.

 

                O PAÍS PRECISA DO DOBRO DE PROFISSIONAIS

                NO Brasil, 32 mil engenheiros saem das faculdades por ano. Para acompanhar o crescimento da economia, hoje, seria necessário mais o dobro desse número, cerca de 70 mil, de acordo com estimativas da Escola de Engenharia da Universidade Federal do Rio de Janeiro.

                A Rússia forma em torno de 120 mil engenheiros por ano e a Índia, cerca de 300mil e, na China ultrapassa os 400mil, conforme levantamento da CNI. Estudos também indicam que a França tem 15 engenheiros para cada mil habitantes. Nos Estados Unidos e no Japão, a proporção é de 25 engenheiros para cada mil. No Brasil, são apenas 6.

                “Para o Brasil ter um projeto de nação, sairmos da 7ª maior economia do mundo para a 5ª, esse profissional é indispensável”, diz o economista Marcos Formiga, da CNI.

                Para o professor da UFRJ, Aquilino Senra, se não for dada uma resposta imediata nos próximos dois anos para essa deficiência, teremos nos próximos quatro anos uma situação insustentável em desenvolvimento tecnológico.

                O professor Manuel da Silva Álvares, da PUC-Go, acredita que o mercado de trabalho para os engenheiros continuará em alta na próxima década, crescendo em média 30%. “O Brasil é carente em obras de infraestrutura, moradia, saneamento e em outras áreas. Isso garante muitas oportunidades de emprego”.

 

ESTUDO APONTA PERIGO DE DESCOMPASSO NA OFERTA

                O estudo Potenciais Gargalos e Prováveis Caminhos de Ajustes da Engenharia no Brasil, realizado pelo IPEA, aponta que se a economia brasileira crescer mais de 4,5% ao ano, como está ocorrendo, a oferta de engenheiros no mercado de trabalho não será suficiente para atender à demanda da indústria, agroindústria, comércio e outras áreas de tecnologia em geral em 2020.

                Mas não basta formar mais engenheiros. Será necessário melhorar a qualidade desses profissionais. Enfatizou o técnico do IPEA Divonzeir Guzzo.

                “É cada dia mais importante valorizar essa profissão, necessária para se fazer inovação e aumentar a competitividade da indústria brasileira”, diz a CNI. 

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