Livro “Filhos – Novas ideias sobre educação”

Capítulo do Livro “Filhos – Novas ideias sobre educação” (Porque tudo o que pensávamos sobre educação de crianças está errado). De Po Bronson & Ashley Merryman.

 

CAPÍTULO 2       

A Hora Perdida

Em todo mundo, as crianças estão dormindo uma hora a menos do que dormiam 20 anos atrás. O preço disso? Menos pontos no QI, comprometimento do bem-estar emocional, déficit de atenção e obesidade.

 

                Morgan Fichter, de 10 anos, é aluna do 5º ano em Roxbury, New Jersey. Ela é miúda, tem pele clara, os cabelos castanhos e o rosto cheio de sardas. Bill, seu pai, é sargento de polícia e trabalha até às três da manhã. A mãe, Heather, trabalha meio período e vive correndo para todo lado levando Morgan e o irmão para os compromissos deles. Morgan joga futebol – Heather é técnica do time -, mas é mesmo apaixonada por competições de natação e o treinamento contínuo ao longo do ano a deixou com os ombros largos. Ela também é violinista da orquestra da escola e, não bastassem dois ensaios e uma aula particular, pratica sozinha mais cinco noites por semana. Toda noite, Heather acompanha a lição de casa de Morgan e depois elas assistem a programas de decoração na TV.

                Morgan sempre se comportou como uma criança entusiasmada e bem equilibrada, até cair na turma de uma professora muito exigente e não conseguir mais relaxar à noite. Embora fosse para a cama no horário adequado, às 21h30, ela ficava agarrada ao travesseiro de oncinha, mas, frustrada, não conseguia pegar no sono antes das 23h30, às vezes à meia-noite. As paredes lilases de seu quarto estavam repletas de fichinhas pregadas com fita adesiva, cada qual com uma palavra que Morgan tinha dificuldade. Sem conseguir dormir, ela aproveitava para estudar, empenhada em manter as boas notas. Contudo, acabou tendo uma crise emocional. Durante o dia, ficava irritada e chorava por qualquer coisa. Às vezes, dormia em plena aula.

                Terminado o semestre, Morgan deixou a turma da tal professora, mas a falta de sono continua. A mãe, então, começou a se preocupar pelo fato de a filha não dormir. Seria por estresse ou algum distúrbio hormonal? Heather proibiu os refrigerantes cafeinados depois do almoço, ao notar que um refrigerante de cola na parte da tarde poderia manter a filha acordada até as duas da manhã. Morgan tentou se controlar ao máximo, mas duas vezes por mês ela tinha uma estafa emocional, uma espécie de choro incontido, comum apenas em crianças de 3 anos de idade que não tiraram uma soneca.

                – Fico triste por ela – lamentou Heather. – Não desejo isso para ninguém. Deve ser um problema para o resto da vida.

                Preocupada com o bem-estar da filha, Heather conversou com o pediatra sobre o sono de Morgan. “Ele quase não me deu atenção e não deu importância ao fato”, contou ela. Ele disse: “Ela só fica cansada às vezes, quando crescer passa”.

                A opinião do pediatra de Heather é comum. Segundo estudos da Fundação Americana do Sono, 90% dos pais norte-americanos consideram que os filhos dormem o suficiente.            

                As crianças, no entanto, atestam o contrário. Cerca de 60% dos alunos do ensino médio relatam sentir sonolência durante o dia. Um quarto admite que suas notas baixaram em função disso. E, dependendo da pesquisa que servir de base, de 20%  a 33% dizem que cochilam na sala de aula semanalmente.

                Os números confirmam. Metade dos adolescentes dormem menos de sete horas por noite durante a semana. Segundo dados obtidos por Frederick Danner, da Universidade de Kentucky, os alunos do último ano do ensino médio costumam dormir pouco mais de seis horas e meia por noite. Apenas 5% deles dormem em media oito horas. Claro que também ficávamos cansados nos tempos do colégio, mas não como os jovens de hoje.

                Tem passado despercebido o fato de alunos do ensino fundamental e médio dormirem, atualmente, uma hora a menos por noite do que se dormia 30 anos atrás. E, embora os pais modernos sejam muito atentos em relação ao sono dos bebês, após a educação infantil essa preocupação deixa de ser prioridade. Já no primeiro ano da escola, as crianças de hoje dormem 30 minutos a menos que no passado.

                Existem tantas justificativas para essa hora de sono perdida quanto o número de diferentes tipos de família. Excesso de atividades, muita lição de casa, horário de dormir liberado, televisões, celulares no quarto – tudo isso contribui. Assim como o sentimento de culpa: pais e mães chegam do trabalho tarde da noite e querem passar um tempo com os filhos e um prefere deixar para outroa a tarefa de coloca-os na cama. Uma pesquisa realizada no estado americano de Rhode Island revelou que 94% dos adolescentes do ensino médio não têm horário estabelecido para dormir. todas essas causas têm um ponto em comum: deve-se convenientemente à falta de informação – até hoje, não se sabia o quanto essa hora perdida era prejudicial às crianças.

                Com ajuda de novas ferramentas estatísticas e tecnológicas, recentemente, os cientistas que pesquisam o sono conseguiram isolar e medir o impacto dessa única hora perdida. Como o cérebro se desenvolve até os 21 anos de idade, e porque muito desse processo ocorre durante o sono, essa hora perdida aparentemente tem um impacto exponencial em crianças e jovens, o que não ocorre com o adulto.

                É surpreendente não é só que o sono é importante, mas o quanto ele é importante, não apenas para o desempenho acadêmico e a estabilidade emocional, mas também para fenômenos que se julgava não terem nenhuma relação, como a epidemia mundial de obesidade e o aumento de casos de transtornos do déficit de atenção.

                Uns poucos cientistas sugeriam que os distúrbios do sono durante os anos de desenvolvimento podiam desencadear alterações permanentes na estrutura do cérebro da criança – danos que, diferentemente de uma ressaca, não passam com uma boa soneca. É possível, inclusive, que muitas das características próprias de pré-adolescência e da adolescência – variação de humor, depressão e mesmo comer em excesso – sejam, na verdade, somente sintomas crônicos da falta de sono.

                O Dr. Avi Sadeh, da Universidade de Tel Aviv, é uma das dezenas de autoridades da área e colaborador frequente de pesquisas de estudiosos do sono da Universidade Brown. Há alguns anos, o Dr. Sadeh enviou para a casa de 77 alunos de 4º e 6º ano instruções por escrito, distribuídas aleatoriamente: durante três noites alguns deveriam ir mais cedo para a cama enquanto outros deveriam permanecer acordados até mais tarde. Cada aluno recebeu um actígrafo – um aparelho semelhante a um relógio de pulso que equivale a um sismógrafo para registrar a atividade do sono -, que permite aos pesquisadores verificar quanto de fato a criança dormiu enquanto esteve na cama. Por meio do dispositivo, a equipe de Sadeh constatou que o primeiro grupo dormiu 30 minutos a mais por noite. Em compensação, o segundo grupo dormiu 31 minutos a menos.

                Após a terceira noite de sono, um pesquisador foi à escola pela manhã para aplicar um teste de funcionamento neurobiológico nos alunos. O teste é uma versão computadorizada de parte da Escala de Inteligência de Wechsler para Crianças que estimou com precisão os resultados do teste em questão e também como os professores avaliavam a capacidade do aluno de manter a atenção na aula.

                – Nem por um instante eu gostaria de comunicar aos meus patrocinadores algo como: “Bem, deixei os voluntários do meu estudo sem dormir por uma hora, mas não houve efeito visível, sinto muito. Falando nisso, conto com vocês para financiar outras pesquisas, pode ser?”.

                A preocupação de Sadeh era infundada. Os efeitos podiam ser efetivamente avaliados e medidos. A disparidade de rendimento causado por uma hora a menos de sono era maior que a diferença de desempenho de um aluno mediano do 4º ano se comparada com um aluno mediano do 6º.

                Em outras palavras, o desempenho escolar de um aluno de 6º ano um pouco sonolento equivale ao de um aluno do 4º ano. “Uma hora de sono a menos tem o mesmo efeito que a perda de dois anos de amadurecimento e desenvolvimento cognitivo”, explicou Sadeh.

                ­ – O trabalho de Sadeh foi uma enorme contribuição – opina o Dr. Douglas Teri, professor de Estudos do Desenvolvimento Humano e Familiar da Universidade Penn State.

                A Dra. Mary Carskadon, da Universidade Brown, uma autoridade em mecanismos biológicos que regulam o sono, concorda com essa opinião e completa:

                – A pesquisa de Sadeh é um lembrete importante a respeito da fragilidade de crianças e adolescentes.

                As descobertas do Dr. Sadeh confirmam diversos outros trabalhos de pesquisa que apontam unanimemente para o severo comprometimento acadêmico decorrentes de pequenas diferenças de sono. A Dra. Monique LeBourgeois, também da Universidade Brown, pesquisa como o sono afeta crianças com 5 anos ou menos. Praticamente toda criança pequena tem permissão para ficar acordada até mais tarde nos finais de semana. Elas não dormem menos, nem ficam sonolentas – elas simplesmente dormem mais tarde nas noites de sexta-feira e sábado. Ainda assim, ela constatou que a simples mudança de horário pode afetar o desempenho das crianças em um teste padrão de QI. Os alunos perderam sete pontos no teste por cada hora de sono adiada. O Dr. Paul Saratt, da Universidade de Virgínia, estudou o impacto dos problemas do sono em testes de vocabulários aplicados a alunos do ensino fundamental. Ele também encontrou uma redução de sete pontos nos resultados, que na opinião dele são bem significativos.

                – Os distúrbios do sono podem afetar o quociente de inteligência infantil tanto quanto a exposição ao chumbo.

                Se essas descobertas estiverem corretas, então, isso pode ser acumulativo no longo prazo: é possível, portanto, prever a correlação entre o sono e as notas escolares. Todos os estudos realizados indicam essa ligação: desde uma pesquisa com alunos de 2º e 3º de uma cidade pequena de Nova York até uma pesquisa com alunos de 8º de Chicago.

                Essas correlações, na verdade, se intensificam no ensino médio, pois é nessa que se verifica a queda mais acentuada do número de horas de sono dos adolescentes. A Dra. Kyla Wahlstrom, da Universidade de Minnesota, catalogou mais de 7 mil alunos de Minnesota, registrando suas notas e hábitos de sono. Os adolescentes que receberam nota A dormiam em média 15 minutos a mais que os que tiraram nota B; esses, por sua vez, dormiam em média 15 minutos a mais que os que tiraram nota C e por aí em diante. Os dados obtidos pela Dra. Kyla refletem praticamente os mesmos resultados de um estudo anterior, com mais de 3 mil estudantes do ensino médio realizado pela Dra. Carskadon, da Universidade Brown. Sem dúvida, estamos falando em médias, mas a consistência dos dois estudos é indiscutível. Cada 15 minutos faz diferença.

               

                Auxiliados por imagens de ressonância magnética, os pesquisadores agora começam a entender como a falta de sono afeta exatamente o cérebro dos jovens. Crianças cansadas não conseguem se lembrar do que acabaram de aprender, por exemplo, pois os neurônios perdem sua plasticidade, tornando-se incapazes de estabelecer novas conexões sinápticas, encarregadas de reter a memória.

                Um mecanismo diferente leva a criança a ficar desatenta durante a aula. A falta de sono prejudica a capacidade do organismo de retirar glicose da corrente sanguínea. Sem esse fluxo de energia básica, uma parte do cérebro sobre em especial – o córtex pré-frontal, que é responsável pela chamada função executiva. Dentre as muitas funções executivas, inclui-se o encadeamento de pensamentos para atingir um objetivo, a previsão de resultados e a percepção das consequências das ações. Portanto, pessoas cansadas têm dificuldade para controlar seus impulsos, e seus objetivos abstratos, como estudar, são preteridos em nome de divertimentos mais agradáveis. O cérebro cansado emperra – fica preso a uma resposta incorreta, sem conseguir produzir uma solução mais criativa, voltando repetidamente à mesma resposta que já sabe estar errada.

                Ambos os mecanismos debilitam a capacidade de aprendizagem da criança durante o dia. Contudo, a parte mais excitante da ciência estuda o que o cérebro faz quando a criança dorme durante a noite. O Dr. Matthew Walker, da Universidade de Bekerley, explica que, durante o sono, o cérebro organiza o que aprendeu naquele dia em suas regiões de armazenamento mais eficientes. Cada fase do sono tem um papel importante na aquisição de memória. Por exemplo, estudar outro idioma implica em adquirir novo vocabulário, desenvolver memoria auditiva dos diferentes sons e ter habilidade motora para pronunciar corretamente os termos aprendidos. O vocabulário é sintetizado no hipocampo no início da noite, enquanto ocorre o “sono de ondas lentas”, um sono profundo e sem sonhos. A capacidade motora da pronúncia é processada na segunda fase do sono N-REM e a memória auditiva é codificada ao longo de todas as fases.

                As lembranças carregadas de significado emocional são processadas no sono REM.

Quanto mais se aprende durante o dia, maior a necessidade de dormir à noite.

                Para consolidar essas memórias, determinados genes parecem se autorregular durante o sono – eles literalmente se ligam, tornam-se ativos. Um desses genes é essencial para a plasticidade sináptica, a vitalização das conexões neurais. O cérebro também sintetiza a memória durante o dia, mas elas são aprimoradas e fixadas à noite, quando são elaboradas novas inferências e associações, que dão origem a novos insights no dia seguinte.

                O sono de uma criança é qualitativamente diferente do sono de um adulto, porque ela permanece mais de 40% do tempo em que dorme na fase de ondas lentas – dez vezes mais do que o tempo despendido por um adulto. É por isso que uma boa noite de sono é vital para uma aprendizagem que fixará na memória para o resto da vida dados como um novo vocabulário, tabelas de multiplicação, datas históricas e todas as outras informações minuciosas.

                Talvez o mais interessante é que o contexto emocional da memória altera onde ela será processada. Os estímulos negativos são processados pela amídala; as memórias neutras e positivas são processadas pelo hipocampo. A falta de sono afeta com mais intensidade o hipocampo do que a amídala. O resultado é que as pessoas que não dormem o suficiente não conseguem lembrar-se de fatos agradáveis; contudo, recordam-se de fatos ruins sem nenhuma dificuldade.

                Em outro estudo conduzido por Walker, universitários que dormem pouco tentaram memorizar uma lista de palavras. Eles conseguiram se lembrar de 81% das palavras com significado negativo, como “câncer”. Mas só se lembraram de 31% das palavras com significado positivo ou neutro, como “Sol” e “cesta”.

                “A situação atual é alarmante”, observou Walker, “embora o processo de aprendizagem desses jovens tenha se intensificado muito, a quantidade de tempo que eles dormem para processar o que aprenderam é muito menor. Se essa tendência se mantiver, não demorará muito para o problema explodir”.

 

                Embora todas as crianças sejam afetadas pela falta de sono, para os adolescentes, dormir é um desafio em particular.

                Mary Carskadon, da Universidade Brown, demonstrou que durante a puberdade o ciclo cicardiano – o relógio biológico – passa por uma fase de transformação que faz com que os adolescentes fiquem acordados até mais tarde. O cérebro dos pré-adolescentes e dos adultos, quando anoitece, produz melatonina, que nos dá sonolência. Mas o cérebro do adolescente demora mais 90 minutos para começar a liberar a melatonina. Assim, mesmo que se deitem às 22h (o que não acontece), eles ficam acordados, olhando o teto.

                Quando o despertador toca de manhã cedinho, o cérebro do adolescente ainda está liberando melatonina. Isso faz com que eles voltem a pegar no sono, seja nas primeiras aulas do dia ou, o que pode ser ainda mais perigoso dependendo do caso, dirigindo a caminho da escola. Nos Estados Unidos, onde se tem permissão para dirigir a partir dos 16 anos, os adolescentes são responsáveis por mais da metade dos cem mil acidentes provocados por se dormir ao volante.

                Persuadidas por essa pesquisa, escola de algumas cidades norte-americanas resolveram alterar o horário das aulas no período da manhã, para que elas iniciassem mais tarde.

                O exemplo mais conhecido ocorreu em Edina, uma próspera cidade nos arredores de Minneapolis, em Minnesota, que mudou o início das aulas do ensino médio das 7h25 para as 8h30. Os resultados foram surpreendentes e surtiram efeito principalmente nos alunos mais brilhantes. 

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