O Amor por um Fio

                                                                                  Marcos das Neves

 José Antônio Melo era desenhista técnico, arquitetônico e de construção civil. Era mestre em plantas, cortes, fachadas e projetos. Seu escritório, onde empregava vários outros desenhistas mais jovens, vivia lotado de arquitetos e engenheiros que dependiam da sua arte para materializar seus rabiscos e cálculos em obras primas de papel vegetal. Toninho, como era conhecido, era meticuloso. No traço, na escala, nos desenhos das plantas que ornavam os jardins de celulose. Abrir, com fleuma e cerimônia, uma prancha desenhada por ele era meio caminho andado para o cliente aprovar o projeto. Muitas eram emolduradas e colocadas nas paredes das imobiliárias no centro da cidade. Lindas, tecnicamente perfeitas. O risco da caneta inglesa parecia um fio de ônix, nunca soube se era impressão minha ou se eles realmente brilhavam. Mas a caneta, que sempre voltava liturgicamente para seu estojo de madeira, essa sim brilhava.

Muitas vezes passei em seu escritório/ateliê na Rua 120, no Setor Sul, próximo à Marginal Botafogo. Como éramos contemporâneos da Escola Técnica Federal de Goiás e, por incrível que pareça, ambos torcedores do Goiânia, sempre havia assunto. Naquela época eles, os assuntos, tinham começo, meio e fim. Como na música do Roupa Nova. Sem contar que a bela Claudinha morava na casa em frente. E por falar nisso, como havia meninas bonitas na pequena pracinha da Rua 120 com a 116!!!! Não era para menos que eu e vários amigos não saíamos de lá nos finais de tarde. Dali até o escritório de desenho era um pulo, ou dois, dependendo do tamanho da perna.

 Fumante inveterado e apreciador de uma boa pinga, Toninho nunca dispensava uma dose no final do expediente. Ela vinha da cidade de Orizona, era dourada e trazia, além da própria “marvada”, histórias e fama em suas garrafas brancas com rolha de sabugo de milho. Uma raridade. Às vezes tomava também no meio da manhã, na hora do almoço, no lanche e, é claro, no final do expediente. Justificava que seu traço só era perfeito se estivesse ligeiramente leve (ele, não o traço, que precisava ser firme). Quando hoje alguém descreve os efeitos do remédio psiquiátrico da moda, como o Prozac, me lembro de Toninho.

Hoje pareceriam politicamente incorretos, mas na época ninguém reclamava de seus olhos perifericamente vermelhos. É verdade que atrasava a entrega do serviço algumas vezes, mas seu traço era impecável, a escala perfeita e os desenhos das plantas sublimes. Ninguém reclamava também do cheiro forte de seu Hollywood com filtro, não raramente filavam um. Filar cigarro era algo tão natural quanto comprar jabuticaba por litro na calçada da Avenida Goiás ou fazer um frete de carroça na Avenida Paranaíba. Éramos politicamente incorretos e não nos dávamos conta disso.

Muitas vezes fiquei pensando se Toninho não era um pintor frustrado, um grande artista escondido no desenhista técnico. Mas seu amor e admiração por suas próprias pranchas eram tanto que minha imaginação entrava em contradição comigo mesmo. Já naquela época eu acabava vencendo minha imaginação. Era besta e não me dava conta disso.

 Por alguns anos a vida se interpôs entre meu caminho e minhas visitas à Rua 120. Foram vários anos, acho que 10 ou mais. Um dia, passando por lá, perguntei o que havia acontecido com o escritório de desenho. Não existia mais, no lugar uma imobiliária com portas de blindex fumê. Alguns vizinhos, surpreendentemente eram os mesmos. Das meninas da pracinha nem sinal. Aliás, desconfio que aquela senhora um pouco acima do peso, trazendo uma sacola de supermercado em uma mão e o celular na outra era uma delas. Acho que aquela que tinha cabelos curtos e pernas torneadas, talvez. Cíntia? Não me lembro. Se fosse a Claudinha reconheceria.  A pracinha agora era propriedade dos lavadores de carro. É o progresso, fazer o quê né?

Toninho, disseram os vizinhos, com problemas de saúde, havia fechado o escritório e abandonado a profissão. Completaram ainda que haviam ouvido falar que ele, desgostoso, morrera anos antes, vítima de alguma coisa no fígado, ou no pulmão, ou no coração, não souberam informar. Um comentário final acompanhado de uma expressão de lamento:

– “Ele bebia demais, você sabia não?”.

Disse que não, que nunca soube. Que, para mim, aquela história era mais folclore. Não resisti em defender meu amigo, como se isso fizesse alguma diferença.

 Semanas depois encontro um amigo arquiteto, casado e pai de três filhos. Pergunto sobre Toninho, sabia que ele sabia, era um dos habitués da Rua 120, mas não da pracinha. Ele confirma o falecimento. Ainda acrescenta que, nos últimos anos, havia ficado desgostoso com a queda da procura por seus serviços. Chegou a trabalhar sozinho para diminuir as despesas, mas, mesmo assim, as encomendas minguaram, chegando a quase zero. Contou ainda que as poucas vezes que foi lá e encontrou o local fechado, os vizinhos (sempre eles) relatavam que Toninho ficava sentado em frente a sua mesa de trabalho, cigarro em uma mão e aquela aparentemente inofensiva miniatura de copo americano na outra. O rádio ligado em programas de esportes o tempo todo. Olhava para porta por onde arquitetos e engenheiros já não entravam mais e, para colaborar, os comentaristas e repórteres já não falavam mais do Goiânia. Como ele, o time havia caído para a segunda divisão.

      – Finalmente a bebida o derrotou – pensei em voz alta.

     – Nada disso – retrucou o arquiteto amigo.

 Não, não havia sido o álcool, mesmo ébrio ele desenhava muito bem (aliás, desenhava melhor quando estava leve); o motivo, disse ele, foi um programa de computador chamado AutoCAD. Com o AutoCAD qualquer pateta, por uma ninharia e em poucos minutos, fazia uma prancha de arquitetura. Com perfeição no traço, na escala e até nos jardins de celulose, em duas dimensões, como ele fazia, ou então até mesmo no impensável formato tridimensional. CAD significa Computer aided design, ou seja, desenho auxiliado por computador. Concorrência desleal. Não deu mais para Toninho. Assim como o acendedor de lampiões, o alfaiate e o engenheiro calculista, ele, com sua arte, havia se tornado obsoleto.

 Dias depois vi uma prancha exposta em uma ala de um shopping em construção, me aproximei, olhei o risco, só me interessava o risco. Era meio azulado, se fosse a parede que representava cairia com um sopro, nem sinal do fio de ônix. Assim como Toninho, o Goiânia e a romântica Rua 120, o brilho negro do traço já fazia parte de um passado que, provavelmente, apenas eu conhecia da forma como imaginava. Os momentos e as lembranças são intransferíveis na sua essência, mas ainda podemos revivê-los ao conta-los e ficar na expectativa de que algum fragmento seja imaginado como realmente foi. 

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About tucano

Marcos das Neves "Tucano". Professor há 42 anos, biólogo, sanitarista, especialista em administração escolar, gestão de conteúdo e logística da informação. Pai de quatro filhos e apaixonado pela esposa, família, educação e tecnologia educacional. Idealizador do Colégio Integrado Jaó, do Método Nintai de Sistematização de Conteúdo e, atualmente, Superintendente Executivo de Educação do Estado de Goiás.

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