O Fim da Torre de Babel

O Fim da Torre de Babel
Marcos das Neves

Em 2013, dirigia de Nápoles a Veneza pela A1, a principal autoestrada italiana. Parei em um posto de gasolina próximo a entrada para a cidade de Frosinone. Não falo nada de italiano, até então tinha me virado bem com o inglês. A Itália tem no turismo uma de suas principais fontes de renda e nos grandes centros e cidades turísticas todos falam mais de um idioma. Mas ali, no posto de gasolina, fiquei em dúvida.

        O frentista, um senhor rechonchudo, de macacão, boné da Agip (empresa italiana de petróleo) e flanela pendurada no bolso, veio me atender. Arrisquei.

        – Do you speak english?

        – Yes, what do you want sir? Respondeu amigavelmente.

        Enquanto Camila e os meninos iam à lanchonete, continuei conversando com ele sobre futebol e política. Seu inglês, meio macarrônico, era perfeitamente compreensível para mim, que também não sou um expert na língua.

        Existe um esforço muito grande para que todos os italianos que lidam com o público falem o inglês. Desta forma, eles conseguem se comunicar com alemães, brasileiros, espanhóis, franceses, croatas, russos, árabes ou turistas de qualquer outra nacionalidade.

        Havia um tempo que no Brasil que a língua inglesa era quase um artigo de luxo. Poucas pessoas dispunham de capital e tempo para os longos cursos.

        Hoje é impensável em praticamente qualquer área.

        A língua mundial, ou língua comercial, caracteriza-se por ser aprendida por muitos como a segunda língua e também pela distribuição geográfica. É utilizada pelas organizações internacionais e nas relações diplomáticas.

        O Árabe, o Espanhol e o Francês já tiveram seus períodos de glória, mas é o inglês que subiu ao pódio e não deve descer tão cedo.

        Começou com o Império Britânico, mas nessa época o Francês resistia bravamente. Depois da II Guerra Mundial os Estados Unidos galgaram o posto de principal protagonista mundial. Até então dependia-se de fronteiras.

        Além da política, o cinema passou a vender o American Way of Life, especialmente no ocidente, o rock surgiu forte e figuras com Elvis, Beatles e Rolling Stones tomaram conta da mídia nos anos 50 e 60.

        Nos anos 70 surgiu a onda disco e, logo depois, uma leva de artistas cantando e atuando em inglês com destaque para Michael Jackson.  

        Na literatura não é diferente. 27 escritores da língua inglesa ganharam o Prêmio Nobel, contra 13 franceses, 12 alemães, 10 espanhóis, 6 italianos, 6 suecos e 5 russos. Em português apenas um, José Saramago, em 1998.

Mas apenas o ocidente se rendia aos encantos anglo-saxônicos, em muitos países orientais havia uma barreira cultural quase intransponível. Foi quando o advento da internet jogou tudo para o alto. Desenvolvida nos Estados Unidos pulverizou fronteiras e disseminou o inglês como segunda língua nos quatro cantos do planeta.

        Some-se isso ao fato do inglês ser extremamente fácil e intuitivo. A gramática das línguas latinas (Francês, Espanhol, Italiano e Português) parecem hieróglifos perto da estrutura simplificada do idioma de Shakespeare.

        Uma dona de casa vai ao supermercado e se depara com um infinidade de palavras e produtos diet, light, power, close, open, up. Os jovens estão cada vez mais conectados com o mundo através de notebooks, smartphones ou tablets, tendo acesso a web, sites, games, Skype, Facebook, Youtube, fazendo downloads, uploads, likes para cá, likes para lá.

        Diariamente somos impactados com informações, filmes, desenhos, personagens, propagandas e vários outros conteúdos internacionais. Japoneses da Honda, suecos da Volvo, estudantes da Alemanha, turistas do China e até frentistas de um posto de estrada da Itália se comunicam em inglês.

        Um movimento inverso ao da Torre de Babel. Segundo narrativa bíblica no Gênesis, foi uma torre que estava construída pelos descendentes do Noé após o dilúvio. A construção teria irritado Lavé, o Deus hebraico, que decidiu então confundir-lhes as línguas para impedir o prosseguimento da empreitada. Até então os homens falavam apenas uma língua e este fato teria dado origem a todos os idiomas hoje falados na Terra.

        Algumas pessoas se irritam com o excesso anglicismo, termos em inglês para nominar palavras consagradas em português. Liquidação passa a ser Sale, apagar vira deletar e começar se diz startar. Até pouco tempo achava frescura, deveria-se sim usar cada vez mais termos assim para que, no futuro, todos passassem a falar inglês.

        Mas mudei de ideia ao conhecer Malta. Esse pequeno país, uma ilha no Mediterrâneo, a 80 km da Sicília e com apenas 400 mil habitantes, é um exemplo de civilização que resiste ao tempo. Tem mais de 5 mil anos de história, foi invadida uma dezenas de vezes pelos fenícios, gregos, romanos, árabes, italianos, espanhóis, pertenceu durante 5 séculos à Igreja Católica e, por último, virou uma colônia inglesa até conquistar sua independência em 1964.

        Incorporou em sua arquitetura e culinária elementos de todos os invasores. Todas as casas e edificações são construídas com pedras calcarias, originadas por corais, que resistem ao tempo e às invasões. A cultura maltesa também resistiu a vários milênios sob o jugo de outras civilizações.

        O motivo é simples, eles nunca deixaram de falar maltês, um idioma incompreensível, uma mistura de árabe, fenício, grego, italiano e português, que inverte os pronomes e artigos e utiliza-se de caracteres (letras) especiais o que complica mais ainda.

        Por estarem no meio das mais utilizadas rotas comerciais do mundo e pela convivência com fenícios e árabes, os malteses se tornaram hábeis comerciantes e sua incompreensível língua era uma grande vantagem já que ninguém entendia o que eles conversavam entre si durante as negociações.

        Toda criança maltesa é alfabetizada em maltês até os 10 anos de idade. Quando passa para séries seguintes, a educação passa a ser em inglês, uma herança dos três séculos de colonização britânica.

        Assim, nos dias de hoje, todos os malteses conversam entre si em maltês e com os outros em inglês. Ao longo dos milênios, eles mantiveram a língua e junto com ela sua cultura embora tenham absorvido vários aspectos de outros povos o que hoje torna a pequena e exuberante ilha em um lugar único no mundo.

        Hoje defendo o Português como um dos fatores de manutenção da identidade brasileira, mas também a imprescindibilidade do inglês para quem quer ter alguma chance de sucesso em um mercado de trabalho dinâmico, interconectado e globalizado.

        

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About tucano

Marcos das Neves "Tucano". Professor há 42 anos, biólogo, sanitarista, especialista em administração escolar, gestão de conteúdo e logística da informação. Pai de quatro filhos e apaixonado pela esposa, família, educação e tecnologia educacional. Idealizador do Colégio Integrado Jaó, do Método Nintai de Sistematização de Conteúdo e, atualmente, Superintendente Executivo de Educação do Estado de Goiás.

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