O PROBLEMA DO MUNDO sem BULLYING

                                                                     

O PROBLEMA DO MUNDO sem BULLYING
Revista Superinteressante – Agosto de 2011

SEM BULLYING, crianças não saberão disputar um brinquedo OU UM EMPREGO NO FUTURO. 
                A palavra bullying faz qualquer pai arrepiar de medo. Mas uma linha de especialistas diz que não há o que temer: crianças e adolescentes precisam passar por apuros, e sozinhos. Do contrário, poderão cair numa enrascada ainda maior.
Texto: Bruno Romani 

                ERA COISA DE Criança. Colar chicletes na cadeira dos outros, fazer cuecão no nerd da turma, rir do cabelo cortado do colega. Mas agora brincadeiras como essas ganharam um nome sério: bullying. E passaram a ser resolvidas por adultos,: pais, mestres e até, em alguns casos, polícia.

                O termo bullying significa agredir alguém fisicamente, verbalmente, até por atitudes (como caretas). Mas tem sido usado como um alarme, um chamado para que adultos interfiram no relacionamento de seus filhos e alunos. Uma nova linha de pesquisadores, no entanto, vem defendendo que o bullying não é necessariamente um problema para gente grande. Segundo eles, as picuinhas entre crianças e adolescentes devem ser resolvidas pelos próprios envolvidos. Sem adultos como juízes.

                Esses especialistas não dizem que crianças devem trocar socos na saída da escola. Nem que apanhar faz bem. Afirmam, sim, que disputar é como um rito, pelo qual passamos no inicio da vida para saber enfrentar as encrencas maiores do futuro. Afinal, fazemos isso desde os tempos mais remotos. “Em boa parte da história da humanidade a agressão foi um traço adaptativo”, escrever Monica J. Harris, professora de psicologia da Universidade de Kentucky, em Bullying. Rejection and Peer Victimization (sem tradução para o português). No passado, os homens disputavam comida para garantir a sobrevivência. O conflito definia quem ia perpetuar a espécie e quem ficaria para trás. “Aqueles humanos mais agressivos e, termos de buscar as coisas e proteger seus recursos e parentes tinham mais chances de sobreviver e reproduzir”, afirma Monica. Enquanto os homens teriam aprendido a usar a força física, as mulheres desenvolveram habilidades mais sutis, como agressões verbais – fofocas e rumores.

                Se antes essas táticas garantiam a sobrevivência, hoje nos ajudam no convívio social. Quando as crianças deixam o conforto do lar para freqüentar o colégio, descobrem que nem sempre suas vontades são atendidas. E que precisam negociar o tempo todo, como por um brinquedo ou por um lugar para sentar. Sem passar por isso, será mais difícil lidar com um desafeto no futuro, como um chefe, o síndico do prédio o aquele amigo que empresta dinheiro e nunca paga.

                O resultado da superação desses primeiros embates aparece cedo. Um estudo feito com 2 mil crianças com idade de 11 e 12 anos feito pela Universidade da Califórnia em Los Angeles mostrou que aquelas que tinham algum rival na turma da escola eram vistas como mais maduras pelos professores. As meninas que reagiam a alguma antipatia foram consideradas donas de maior competência social. Os meninos com inimizades foram classificados como alunos com melhor comportamento. Nesses casos – que não envolviam agressões físicas, segundo a pesquisa -, as crianças não só aprenderam a reagir a menosprezo, pressão e sarcasmo como ainda ganharam status no colégio. “Tanto para meninos quanto para meninas, ter uma antipatia mútua com alguém de outro sexo é associado a popularidade”, escreve a pesquisadora e autora do estudo Melissa Witkow, hoje professora de psicologia na Universidade Willamette, nos EUA.
                MEDO – O RIVAL DOS PAIS

                A recente onda de crimes ligado a bullying, no entanto, criou o temos de que as crianças e adolescentes talvez não dêem conta da briga sozinhos. A comprovação disso estaria em casos com o de Wellington Menezes de Oliveira, que guardou por anos o rancor das humilhações que passou em um colégio e, Realengo, no Rio de Janeiro – até voltar lá e disparar contra alunos, deixando 13 mortos. O resultado de historias assim foi uma pressão de pais, mestres e legisladores para que o comportamento das crianças seja mais controlado. E para que até a policia seja chamada para impedir as agressões. Em junho, o Senado Brasileiro aprovou um projeto lei determinando que as escolas inibam atitudes e situações que possam gerar bullying (o projeto segue para a Câmara). Em maio, um americano de 17 anos, que não teve o nome divulgado pela polícia, foi preso por dar notas às colegas de turma – altas para as mais bonitas, baixas para as mais feias – e publicar a avaliação no Facebook.

                Essa reação é chamada de superproteção pelos pesquisadores que defendem a não intervenção dos adultos nas disputas entre crianças e adolescentes. “É como se o mundo inteiro estivesse sofrendo de amnésia. Os adultos se esqueceram de que passaram pelas mesmas disputas no colégio”, diz Helen Guldberg, psicóloga e professora de desenvolvimento infantil na Open University, Inglaterra. Segundo Helen estamos julgando as atitudes das crianças com base nos valores dos adultos.

                “O comportamento das crianças – as palavras que usam, o jeito brusco com que, por exemplo, excluem outros de suas brincadeiras – está sendo julgado com a seriedade com que encararíamos  o relacionamento entre adultos em um escritório”, afirma.

                Essa linha de não intervenção defendida por gente como Helen Guldberg é polêmica. Para os críticos, desavenças simples podem ser o inicio de conflitos mais graves – eventos que poderão deixar marcas físicas e psicológicas. “O Bullying é um problema sério que precisa ser combatido”, diz Aramis Lopes Neto, pediatra e especialista do tema. Mas em um ponto as suas linhas concordam: quando a briga se repete e se prolonga por um tempo, e só um lado sai sempre perdendo, é porque a criança já está derrotada. E é hora de os adultos entrarem em ação.

                Prestar atenção ao comportamento da criança ajuda e descobrir se é o caso de intervir. Mudanças repentinas, como queda no desempenho escolar ou aumento da agressividade, são sinais importantes. Se o problema não for resolvido, alguns efeitos podem se estender. “Muitos adultos trazem da infância dificuldades de relacionamento social e baixa autoestima”, afirma Lopes Neto. Isso atrapalharia a vida pessoal e profissional, como a capacidade de manter relacionamentos estáveis. “Há vítimas que não se desenvolvem profissionalmente por medo de se expor e se tornar alvo de bullying no trabalho”, diz o médico. É como se elas não conseguissem nunca sair da zona de conforto. Exatamente o que pode acontecer com quem passa a infância na sombra dos pais, sem enfrentar uma briga sozinho.

 PARA SABER MAIS
BULLYINGM REJECTIOIN NA PEER VICTIMIZATION
Monica Harris – 2009  – Springer Publishing Company

BULLYING ESCOLAR: PERGUNTAS E RESPOSTAS
Cleo Fante e José Augusto, 2011 – ArtMed Editora

               

 

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About tucano

Marcos das Neves "Tucano". Professor há 42 anos, biólogo, sanitarista, especialista em administração escolar, gestão de conteúdo e logística da informação. Pai de quatro filhos e apaixonado pela esposa, família, educação e tecnologia educacional. Idealizador do Colégio Integrado Jaó, do Método Nintai de Sistematização de Conteúdo e, atualmente, Superintendente Executivo de Educação do Estado de Goiás.

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