O Tablet substituirá a escrita cursiva?

Revista Língua Portuguesa

O TABLET SUBSTITUIRÁ A ESCRITA CURSIVA ?

                                                              Por Hamilton Werneck

             Não se trata de novidade de início de ano. Ao final de 2012 já era possível ler alguns artigos acerca do possível fim da escrita cursiva. O Estado de Indiana, nos Estados Unidos, dá ao professor alfabetizador a liberdade de escolher entre usar a escrita cursiva e o tablet. A Alemanha embarca no mesmo modelo.

            Se analisarmos nossa vida, constatamos que digitamos muito mais do que escrevemos e a geração que ingressa nas escolas para se alfabetizar, oriunda de creches e pré-escolas, já chega com uma mentalidade eletrônica, familiarizada com iPhones e tablets.

            Em uma conferência no ano passado (2013), foi contado que a mais recente experiência com tablets havia sido realizada no Quênia, em uma região de aldeias onde todos eram analfabetos. A empresa interessada nos resultados preparara um tablet que deveria ter a bateria carregada por meio de energia solar, um adulto da região foi ensinado a realizar tal procedimento e as crianças receberam tablets que podiam ser monitorados à distância via satélite.

            O que se sucedeu foi espantoso. Poucos minutos depois de estarem de posse dos aparelhos, quatro crianças já estavam com os computadores ligados. Elas demonstravam tal interesse em comunicar o que descobriam que sempre que uma conseguia uma proeza, muitas tablets se juntavam e não tardava para que todas realizassem a mesma tarefa. Ao término do primeiro mês de experiência, uma delas escreveu lion (leão, em inglês).

            A questão é analisr se, diante dessas constatações e de um sistema inalâmbrico (rede sem fio, o mesmo que wireless) de comunicação, o qual dispensa os controles com fio, devemos aderir à alfabetização por meio dos tablets.

            Se me perguntarem, respondo sem titubear que em breve estaremos todos, sim, aderindo à alfabetização por meio de tablets. Contudo, algumas reflexões precisam ser feitas, porque a escrita corresponde a um dos estágios mais sofisticados de evolução deste hominídeo, bípede, mamífero, vertebrado que chamamos de homem.

            Com o desenvolvimento dos neurônios pré-frontais, as conexões das pontas dos dedos aumentaram, permitindo movimentos e proezas próprias dos humanos, envolvendo a motricidade fina, ou grafomotricidade. Descobriu-se ainda que esses movimentos eram de mão dupla: os impulsos que partiam dos neurônios pré-frontais chegavam à ponta dos dedos e as várias praxias da ponta dos dedos retornavam com informações para esses mesmos neurônios. Portanto, será que estaria na hora de abandonarmos um processo que nos últimos seis mil anos impulsionou consideravelmente a evolução da nossa espécie?

            Minha resposta é afirmativa, com ressalvas. É muito importante que os professores e alunos entendam que os computadores e os tablets emitem luz, enquanto o papel reflete a luz. Portanto, ao lermos textos nos tablets ou computadores, ao escrevermos neles, teremos uma visão mais cansada, o que pode nos levar a perder detalhes da leitura. Para tanto, aconselha-se aos escritores que, mesmo usando os computadores, façam a última correção lendo em papel, pois tal prática torna a revisão mais segura.

            Não é hora de nos preocuparmos com argumentos clássicos de que os tablets poderão vir a faltar um dia. Seria o mesmo que guardar uma charrete e um cavalo para o dia em que talvez não tenhamos mais combustível.

            A questão é mais abrangente. Deve um professor usar o tablet?

            Não tenho dúvidas disso, inclusive no período de alfabetização. Mas em hipótese alguma ele deve deixar de lado a prática grafomotora, pois essa corresponde ao movimento mais sofisticado atingido pelos humanos.

            Além disso, diante do inevitável e crescente uso de ferramentas tecnológicas, atividades como pintura, escultura, desenho e o manejo de instrumentos de corda e teclado devem ser estimulados.

            Não podemos abandonar práticas que envolveram todo o nosso processo civilizatório e que culminaram na escrita.

            A partir desses pressupostos, considero que a escola deva dar atenção especial à educação artística, disciplina muitas vezes relegada a segundo plano. Vale lembrar que as artes, além de terem sido e de continuarem a ser um dos grandes pilares do desenvolvimento humano, sempre contribuíram para a comunicação do homem com seu meio e disseminação cultural. Não podemos nos esquecer de que todo produto traz em si a marca da cultura que o gerou.

            Se métodos novos forem criados, ótimo, vamos comemorar. No entanto, não podemos nos esquecer que nós, humanos, não podemos perder o domínio sobre nosso corpo, pois este representa a culminância da evolução de uma espécie – a qual, a que tudo indica, não é propriamente originária de símios, mas de um ramo paralelo e bem específico, cujo elo ainda se encontra perdido.

            Sabemos que as crianças que não constroem seus brinquedos e, por conseguinte, na realidade, não brincam, têm dificuldades em interagir com o meio. Esse viés da educação infantil deve ser bem estudado para que não haja uma desconstrução da infância, ou seja, uma espécie de imagem corporal sem corpo.

            Os tablets levam as pessoas em direção a uma realidade virtual produzida pela evolução tecnológica que acaba não necessitando do exterior para criar imagens, sons, cores ou volumes. A humanidade está diante de uma novidade. Pela primeira vez na história, podemos dispensar os objetos representados, contando que tenhamos o código eletrônico dos mesmos.

            A atenção não está mais fixada nos objetos reais, cujos nomes são escritos no papel, e sim na nova realidade computadorizada e digitalizada.

            Há, portanto, que se considerar como o universo infantil conviverá com essas situações virtuais e como será o desenvolvimento das imagens e do pensamento das crianças.

            Devemos pensar ainda nas consequências, sobretudo na primeira infância, da excessiva convivência com a virtualidade e a ausência do corpo. A criança brincava com objetos, fabricados ou não, muitas vezes encontrados no meio em que viviam. Atualmente, graças à tecnologia, ela fica na dependência dos pixels que, por sua vez, dependem do mundo digital. Ela manipula uma imagem, muda-a de lugar, faz cortes, o que é muito diferente da realidade corporal de um objeto, que pode ser uma caixa ou uma lata. Por sua vez, essas imagens, sobretudo em jogos, passam com tal rapidez diante das crianças que não há tempo para um ato contemplador. Essa realidade digital pode ser comparada à leitura dinâmica, rápida, proposta por Evelyn Wood, que se contrapõe à leitura contemplativa de uma poesia, na qual se saboreia cada palavra, cada rima, cada metáfora.

            Valeria perguntar ao leitor dinâmico se houve algum sabor naquela poesia de Carlos Drumond ou Ferreira Goulart, caso a leitura fosse rápida, muito mais preocupada em “engolir” do que com o “saborear”.

            O mesmo ocorre com o mundo virtual. Vemos, mas não tocamos com nossos dedos. Trata-se de um mundo intangível que, se demasiado, sobretudo para crianças, pode se tornar enfadonho e deixar de lado o que é memorável.

            A escrita cursiva permite essa constante manipulação dos objetos, leva as crianças a conviverem enquanto escrevem cada letra, cada palavra, enquanto traduzem, em palavras e depois com a leitura, em sons, cada coisa que é manipulada.

            Se a convivência com a virtualidade impedir que a dominante fásica da infância se realize e se instale na criança, poderíamos também antecipar outra pergunta: como será o adulto que não teve a oportunidade de viver na infância?

            Há um pensamento de Friedrich Nietzsche que sempre me chamou a atenção: “A seriedade do homem é ter reencontrado a seriedade com que brincava quando criança”. Ora, se não houve esse ato de brincar, pois ele foi prejudicado pelo excesso de virtualidade, como o adulto reencontrará a seriedade que deixou de ser aprendida na infância?

            Revisitando Konrad Lorentz e sua “Etologia”, encontramos as ideias de “estampagem” que são estabelecidas na infância. Esse “imprinting” terá influência em toda a vida dos humanos, portanto não se trata apenas de usar ou não um tablet, há muito mais que se considerar além de simplesmente aprender a escrever e as relações entre a escrita e as ferramentas facilitadoras.

            Há muito que se pensar quanto a essa questão, sobretudo se nos reportarmos ao pensamento reflexivo, considerando a evolução humana. Vitor da Fonseca, citando Sokolov e Anokhine, afirma: “O nascimento do pensamento reflexivo traduz a relação entre a mão (aspecto motor) e o cérebro (aspecto psíquico) por meio da exploração e observação visiual”. O mesmo autor, baseando-se em Piveteau, afirma que “a reflexão é a consciência da ação retardada, daí que seja possível ao homem, em termos complexos, a antecipação da ação, que exige uma imagem, que sustenta em nível do cérebro o projeto da ação que se prolongará por meio da mão”.

            Eis a razão da afirmação anterior sobre a introdução de outras práticas escolares, todas ligadas à arte, em caso de diminuição da ações grafo-motoras – no mundo virtual, o projeto da ação não se prolongará por meio da mão porque o escriba não escreve, somente digita -, e é dessa combinação interna e externa que se origina o pensamento, o qual passa pela experiência sensório-motora que o mundo virtual faz perder em grande parte.

            Há consequências já percebidas em adultos que, enquanto crianças, viveram essa ausência de corpo, passando, portanto, por um processo de desconstrução da própria infância.

            A criança diante de uma tela com a imagem de um cavalo determina uma reação sem a presença do corpo, o que leva a uma diminuição da imaginação. Essa imagem está desprovida de afeto. A consequência é a atrofia do pensar criativo.

            A capacidade de paralisação provocada pelos eletrônicos está diretamente ligada à contraposição entre o mundo das certezas e o mundo das promessas e das incertezas, contraposição esta que tem uma profunda relação com as estruturas escolares.

            Até a segunda guerra mundial terminar, em 1945, vivíamos um mundo de certezas. Tudo era definido no início do ano       como se o professor, qual profeta pedagógico, pudesse antever os acontecimentos no mês de dezembro do mesmo ano. Seguimos pela escola das promessas que, no Brasil, em plena década de 1970, impelia a todos para que estudassem com o objetivo de conseguir emprego e sustentar-se na vida. Hoje, também no Brasil, ainda encontramos educadores com a visão de uma escola das certezas, quando tudo se encaminha para a incerteza. Mas, convenhamos, quando lidamos com o mundo virtual, temos mais incertezas do que certezas e é exatamente isso que pode inibir o desenvolvimento humano do adulto – a falta de capacidade de conviver com um mundo incerto, onde a criatividade é fundamental para ultrapassar o inesperado que nos circunda.

            Quando insisto na necessidade de se conjugar o virtual com o real, é exatamente para mostrar que temos de lidar com um corpo com o qual possamos interagir. É claro que os computadores são melhores do que a televisão na formação da pessoa. Enquanto e TV produz um telespectador passivo, o computador permite e interação.

            Vitor da Fonseca, em seu livro Psicomotricidade – Filogênese, ontogênese e retrogênese – ainda insiste no fato de que “as ações manuais, correspondem ações cerebrais; às coordenações gestuais, correspondem coordenações cerebrais que equacionam um conjunto de operações practognósticas (dificuldade na enumeração, manipulação e comparação de objetos reais e imagens) que mais não são do que o diálogo entre a ação e a consciência, entre a mão e o cérebro”.

            Se os leitores estão um tanto perplexos com tantas possibilidades de novidades em sala de aula e suas consequências para a vida futura do profissional, há complicadores maiores, como o robô presencial.

           

            Caso não possa ir à aula, você manda o robô em seu lugar. Ele pode estar presente em uma sala de aula normal, no laboratório, no pátio do recreio, é educado, pede licença para fazer perguntas aos professores. Se uma pessoa estiver impossibilitada de se locomover poderá, via internet, controlar o robô, assistir a todas as aulas, interagir com os colegas, participar de trabalhos em grupo. Você não estará lá, mas o robô sim.

            Quando se trata de aprendizagem e instrução, tudo parece correr bem e funcionar e é importante estar atento ao fato de o aluno, mesmo estando em casa, poder controlar o robô que o substitui na escola.

            Não podemos deixar de pensar nessas possibilidades. Entretanto, a educação que precisamos desenvolver é uma educação onde os mestres devem, em primeiro lugar, ser especialistas em gente, depois em educação, e, em terceiro lugar, nas disciplinas que lecionam. As vantagens propiciadas pelo uso de um robô presencial, assim como de tablets, devem ser acompanhadas de perto. As escolas precisam estar preparadas para essa realidade, pois esse cenário não é mais parte de um filme de ficção cientifica. No entanto, o mais importante é a presença e, na minha ótica, essas tecnologias são uteis, devem ser assimiladas, utilizadas, porem são soluções diante da impossibilidade da presença. Esses fatos e suas soluções precisam instigar os professores para que aprendam a lidar com as novas situações em que a máquina substitui a pessoa dentro de uma sala de aula. Todavia, aprender a conviver e a ser dependente da presença da pessoa.

            Como se pode perceber, tudo está muito além da questão de se adotar o tablet dentro da sala de aula ou não. Não adotá-lo pode significar ficar defasado e ter dificuldade de interagir com crianças que já nascem dentro de um mundo eletrônico e chegam à escola esperando encontrar ali alto que seja digital, e não somente ferramentas analógicas. Adotá-lo implica cuidado para que não haja radicalismos, pois somos seres que necessitam do desenvolvimento grafomotor, seja para completar nossas ações evolutivas, seja porque todas as ações das mãos estão conjugadas com o cérebro e contribuem para o desenvolvimento cognitivo.

            Por fim, precisamos cuidar para que as crianças brinquem. Brincar é a forma mais sofisticada de aprender, sobretudo porque o corpo é real, a incerteza está presente e a criatividade é exigida.

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About tucano

Marcos das Neves "Tucano". Professor há 42 anos, biólogo, sanitarista, especialista em administração escolar, gestão de conteúdo e logística da informação. Pai de quatro filhos e apaixonado pela esposa, família, educação e tecnologia educacional. Idealizador do Colégio Integrado Jaó, do Método Nintai de Sistematização de Conteúdo e, atualmente, Superintendente Executivo de Educação do Estado de Goiás.

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