Por que escrever?

O parto da escrita

Hélio Schwartsman – Folha de São Paulo – 1º de junho de 2012

            No caderno “Equilíbrio” da última terça, Rosely Sayão veio em socorro de uma professora cujos alunos em fase de alfabetização se recusam a escrever manualmente. De acordo com os diabretes, fazê-lo seria uma inutilidade, já que o teclado hoje é onipresente.

            A colunista defende a escrita manual e, mas especificamente, a letra cursiva, afirmando que sua preservação é uma questão de cidadania, já que existem muitas pessoas que não tem acesso à tecnologia.

            Em grandes linhas, concordo com a psicóloga, mas tenho uma ou duas coisinhas a acrescentar. Rabiscar caracteres a mão – pode ser em letra de forma; eu não colocaria tanta ênfase na cursiva – parece ser um elemento importante para que as crianças dominem o código alfabético.

            O problema é que, ao contrário da linguagem falada, que é um item de fábrica do ser humano (não há bando que não disponha de um idioma), a escrita, com seus 5.500 anos, é uma invenção relativamente moderna e rara. Não surgiu mais do que três ou quatro vezes ao longo da história.

            Nossas mentes, forjadas para uma existência pré-história, não lidam tão bem com esse código. Trabalhos de neurocientistas como Maryanne Wolf e Stanislas Dehaene mostram que o ato de ler implica reprogramar o cérebro, integrando, com a criação de conexões neuronais, estruturas especializadas em percepção visual, processamento léxico e fonológico e cognição. Essas novas sinapses permitem que áreas tão diversas sejam cooptadas para trabalhar com harmonia e rapidez, nos dando a falsa impressão que ler é natural.

            Outra neurocientista, Karin Harman James, sustenta que a escrita manual, o desenhar letras, ao acrescentar uma dimensão motora a essa sinfonia, contribui para catalisar o aprendizado e fixar melhor os elementos da escrita na memória.

            A pergunta não é se jovens precisam escrever à mão, mas a partir de que idade podem deixar de fazê-lo.

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About tucano

Marcos das Neves "Tucano". Professor há 42 anos, biólogo, sanitarista, especialista em administração escolar, gestão de conteúdo e logística da informação. Pai de quatro filhos e apaixonado pela esposa, família, educação e tecnologia educacional. Idealizador do Colégio Integrado Jaó, do Método Nintai de Sistematização de Conteúdo e, atualmente, Superintendente Executivo de Educação do Estado de Goiás.

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