Técnicas para lecionar

Paula Louzano: “São propostas didáticas, não pedagógicas, mas no Brasil esses conceitos são misturados”.

 

 

 

Técnicas para lecionar

Consultora e revisora técnica do livro Aula Nota 10, de Doug Lemov, a educadora Paula Louzano explica como o autor construiu a obra e por que enfatiza a didática, o aproveitamento de tempo e o planejamento da aula.

 

Diretor executivo da organização não governamental norte-americana Uncommons Schools, responsável pela supervisão de escolas em bairros pobres no Estado de Nova York, Doug Lemov observou durante seis anos, professores cujos alunos tinham dentro e fora da vida escolar. Ele identificou as práticas didáticas e tipificou 49 técnicas, organizadas de acordo com os objetivos de aula: aumentar as expectativas acadêmicas, planejar para garantir um bom desempenho, estruturação da aula, motivação, estabelecer uma cultura escolar, trabalhar com expectativas de comportamento e construir valores. Lemov também tipificou técnicas de ritmo e organização da aula e completou com recomendações sobre a ensino da leitura como habilidade fundamental para o aluno aprender. O resultado é uma espécie de catálogo de boas práticas didáticas que, segundo o autor, melhoram o desempenho dos alunos prejudicados pelas condições sociais que herdaram.

                O livro foi lançado no Brasil em dezembro do ano passado, pela parceria entre a Fundação Lemann e a Editora Da Boa Prova, com o titulo Aula Nota 10 – 49 técnicas para se um professor campeão de audiência. Segundo a pedagoga Paula Louzano, consultora e revisora técnica da edição em português (ao lado de Guiomar Namo de Mello), Lemov despertou desconfiança de acadêmicos, mas ela garante: independentemente de filiação teórico-metodológica ou ideológica, as técnicas funcionam.

                Na entrevista exclusiva à Profissão Mestre, Paula, que também é consultora da Fundação Lemann, tem doutorado em Política Educacional pela Universidade de Harvard e mestrado em Educação Internacional Comparada pela Universidade de Stanford, explica os porquês do autor e especificidades para uso das técnicas nas salas de aulas brasileiras.

                Profissão Mestre: O trabalho de adaptação do livro ao publico brasileiro considerou diferença curricular e organização escolar?

                Paula Louzano: No geral são técnicas de manejo de sala, gerenciamento da aula e relação professor-aluno que independem do conteúdo, da organização escolar ou do currículo. O único momento em que o autor trata de conteúdo específico é na parte 2 do livro, com o tema da leitura, com forte referência à organização escolar dos Estados Unidos e ao seu currículo. A idéia de que a leitura está dividida entre decodificação, fluência e compreensão é muito forte nos Estados Unidos. Contudo, no conteúdo, ele dá exemplos de fonética e de como ensinar as crianças e decodificarem uma palavra. Tivemos que adaptar os exemplos ao português, após consultar professores de língua Portuguesa sobre quais são os problemas mais comuns de pronuncia, e colocamos uma nota no rodapé. Mas esse tipo de adaptação foi raro.

                Todas as técnicas independem da preferência pedagógica, como o autor defende?

                O Lemov não discute a metodologia específica de ensino de algo, antes acredita que, com qualquer metodologia, o professor tem de planejar e estruturar a aula. Sugere, inclusive, na técnica 10 – planeja em dobro -, que não se deve apenas pensar no que o docente fará em sala, mas também em como os alunos reagirão. Ao planejar em dobro, se tem um controle maior do tempo necessário para ensinar o que se propôs, com o método que se julga melhor. Ao ensinar soma de fração, por exemplo, pode-se prever que os alunos provavelmente acreditarão que basta somar numerador com numerador e denominador com denominador. Partindo do princípio de que seus alunos pensarão desse modo, pode-se prever como responder. Outro exemplo simples e interessante é a técnica Faça o Mapa, em que o professor deve ter o controle do espaço, com circulação livre, e não ter que pedir licença para chegar a qualquer lugar da sala de aula, seja em atividades individuais ou em grupo. É importante o docente circular por toda a sala para ver o que o aluno está fazendo, conversar com ele, sem interromper a aula ou o resto da turma. Isso é algo que independe da filiação pedagógica. Muito professores já devem fazer isso intuitivamente, mas é algo que não está disseminado. É um tipo de saber pouco valorizado, em especial academicamente, como se fosse algo menor. Nos Estados Unidos, a academia não recebeu bem esse livro. Contudo, o autor não tem pretensão acadêmica com essa obra e acha que é bom simplesmente porque funciona.

                O autor faz uma analogia do professor como o artesão antes do artista, como Michelangelo que, antes de esculpir a estátua de Davi, precisou dominar o cinzel, o martelo e a lixa.

                Uma aula, assim como uma escultura, não é algo que o individuo nasce sabendo fazer, depende de técnicas. É um erro acreditar que Michelangelo esculpiu Davi apenas porque era brilhante, e esquecer-se do seu domínio sobre o cinzel. Ele também dá o exemplo de Picasso, que quando criança rabiscava formas básicas, que antes de chegar ao abstrato teve de aprender a fazer nariz e boca, como todos os outros. Nós, da área de educação, temos a mania de desprezar o que se associa à técnica, com a tendência de achar que alguém se tornou um bom professor apenas por conta de pesquisa, entendimento de grandes temas da educação e inteligência, não porque aprimorou técnicas simples ao longo dos anos.

                Algumas técnicas primam muito pelo aproveitamento do período da aula, no sentido de aproveitar o máximo possível do tempo. Por quê?

                A idéia da eficiência está muito mais presente nos Estados Unidos do que na sociedade brasileira. Num primeiro momento, Lemov é chocante, parece quase louco, mas quando você entende para quem ele escreveu, que são professores de crianças pobres, que estudam em um sistema segregado, com escolas mais fracas para crianças pobres, fica fácil de entender. Para o Lemov, o professor que está com os alunos mais vulneráveis tem uma responsabilidade maior, pois existe uma diferença nas oportunidades educacionais condicionadas pelas localidades e famílias em que os alunos nasceram. Por isso não se pode perder tempo. É como se você dissesse ao aluno: “A largada já foi dada, a gente nem começou a correr ainda e as crianças ricas já estão lá na frente. Você não têm sequer um par de tênis. Como vamos alcançá-los?”. Essa obsessão pelo tempo é um reflexo do compromisso do autor com as crianças mais pobres dos Estados Unidos. Não acho que devemos pegar um cronômetro e controlar o tempo, como ele chega a sugerir, mas concordo que o professor não pode atender ao celular em sala, chegar dez minutos atrasado, terminar a aula antes, bater papo com a diretora na porta. Não é justo com as crianças mais pobres que elas recebam menos educação.

                O autor enfatiza o estabelecimento da autoridade do professor com as técnicas. Aqui no Brasil, principalmente na escola pública, essa não é uma questão bem definida. Como usar tais técnicas?

                Os mesmos problemas que as escolas públicas de periferia têm no Brasil, as dos bairros pobres dos Estados Unidos também têm. Algumas chegam a instalar detectores de metais. Mas por que nas instituições para crianças pobres de lá e muitas daqui se consegue minimizar os problemas externos e obter bons resultados? O Lemov defende a necessidade de se criar uma cultura escolar voltada para o aprendizado, algo que aqui foi de alguma forma esquecido. Esse processo passa pela autoridade do diretor, do professor e depende do envolvimento de toda a equipe escolar. Quanto mais você vai para a periferia, maior o pensamento de que aqueles alunos não têm jeito. Assim você pega uma criança vulnerável, com a provável sensação de que o mundo não foi feito para ela, mas exclusivamente para as pessoas mais privilegiadas. Se na escola ela aprende que não tem chance, vai aprender como?  Não existe o que o professor sozinho possa fazer. A expectativa sobre o desempenho das pessoas é muito importante, o ser humano responde a isso.

                Então não se trata apenas de uma questão didática?

                Não adianta um professor exigir coisas que nenhum outro está fazendo, senão ele fica isolado e vira um chato. Boa parte das técnicas é de controle de sala de aula, mas outras tratam de valores, autoconfiança, expectativas e cultura escolar. Pode parecer que o autor é rígido, mas a idéia é ser respeitoso com o aluno, pois a escola é lugar de aprender, fazer o melhor possível, docentes e discentes. A autoridade não se adquire com rigor, mas com cordialidade e sendo generoso. Você deve convencer os alunos de que está com eles, não é uma autoridade pela autoridade; mas que quer ajudar.

                Algumas técnicas se baseiam em obter respostas do que é certo ou errado. Como usar as técnicas em disciplinas reflexivas?

                O autor não fala do certo e do errado em um sentido rígido. Em vez de uma resposta objetiva, o professor pode pedir uma opinião do aluno e depois solicitar para que ele encontre no texto uma passagem sobre o que acabou de dizer. Na técnica Puxe Mais, por exemplo, ele sugere transformar mais perguntas em um prêmio para os melhores alunos. Há salas em que os alunos se desengajam totalmente e o professor acaba dando atenção para um grupo reduzido e ainda exigindo pouco. Corre-se o risco de os alunos melhores se sentirem pouco desafiados. A técnica ajuda a trabalhar todos os níveis, exigindo de todos os alunos, sem que eles se sintam humilhados de qualquer forma que seja. A proposta central do livro é que, em sala de aula, todo mundo deve aprender e cabe ao professor garantir isso; esse é seu trabalho.

                O Lemov também enfatiza a melhora do desempenho social do aluno, dentro do sistema formal americano. Como fica o emprego dessas técnicas na realidade brasileira?

                Acho que devemos pensar do ponto de vista do aluno. Muitas vezes, o debate no Brasil é feito a parir de idéias e de grupo de interesse, como o empresariado, o fornecedores e a corporação “professor”. O nome original do livro é Ensine como um campeão: 49 técnicas para colocar os seus alunos no caminho da universidade. Nos Estados Unidos está claro que parte importante do objetivo da educação é garantir ao aluno escolher a sua formação futura, o que significa cursar o nível superior. Para tanto existe um caminho trilhado com ajuda da escola. A nossa escola pública, na prática, nega esse acesso. Conheci um jovem de Diadema, na década de 1990, que sonhava em estudar arquitetura. Era muito inteligente, mas também muito pobre e não teve aulas suficientes para garantir um bom desempenho no vestibular. Não é justo que o sistema educacional faça isso com as crianças mais pobres. Quando a gente faz o debate a partir do aluno, muda a perspectiva. Para garantir oportunidades iguais, todos devem aprender o currículo mínimo estabelecido pela sociedade. Se o currículo é certo ou não, o debate é outro. Não se pode negar a uma parcela da sociedade que ela se aproprie desse conhecimento simplesmente por razões ideológicas, financeiras e estruturais. Esse debate nos Estados Unidos está mais resolvido. Aqui, ela não avançará enquanto não pensarmos no aluno e no seu direito de aprender. O papel da escola não é apenas ensinar Matemática e Língua Portuguesa. Com o crescimento das avaliações externas, disciplinas são enfatizadas e, em muitos casos, se esquecem das outras coisas, mas elas também têm de fazer parte. Criamos falsas dicotomias no debate educacional que de fato não existem. Nesse sentido, o Lemov é muito progressista, é “um mundo de cabeça para baixo”. Pode-se discordar dele pontualmente, mas não se pode negar que ele está preocupado com uma classe social nos Estados Unidos e em fazer com que ela tenha as mesmas oportunidades das outras. A proposta é legítima. Acredito que a maioria dessas técnicas conduza a tal resultado. Algumas podem não caber em nossa cultura, mas devemos nos lembrar de que o livro é de sugestões, não um manual.

                Você acredita que haverá coordenadores e diretores encantados com o livro e que poderão impor o seu uso aos professores como manual?

                Pode ser, mas o uso das técnicas do Lemov é mais uma questão de paradigma, não algo que funcione “de cima para baixo”. Claro que se pode ter uma liderança na escola, um diretor ou coordenador pedagógico que, ao acreditar na proposta, tente convencer os professores a introduzir algumas coisas. Não é para o docente mudar suas convicções e esperamos que o livro não se torne um debate ideológico, tampouco um manual. Ela traz de volta a idéia de que a didática é importante e foi abandonada, que é algo aprendido. Uma professora de Fundamental II me contou que sempre coloca os objetivos da aula no quadro, de preferência com tempos determinados para o aluno compreender o que vai aprender. Ela copiou o que fazem alguns de seus amigos que dão aulas no infantil, onde é muito mais forte a questão da rotina para a criança se adaptar à rotina escolar. É algo que não se ensina na faculdade ou nos cursos de formação de professores. Se procurarmos Brasil a fora como Lemov fez nos Estados Unidos, encontraremos práticas muito parecidas.

                Algumas técnicas são sistemáticas e instintivas?

                Ouvi muito que Lemov quer criar robozinhos. Aí você vê que algumas técnicas são para que o professor fale cada vez menos e o aluno cada vez mais. Ele estrutura em etapas: primeiro eu, professor, faço; depois nós fazemos, em seguida, você, aluno, faz. Formar uma pessoa crítica e ter uma aula bem estruturada não são aspectos dicotômicos ou excludentes. Uma aula reflexiva no Brasil geralmente é quando o professor dá um texto para leitura e pergunta se alguém leu e o que a turma achou. Uma aula reflexiva também pode ter várias perguntas preparadas, mesmo objetivas, desde que sejam respondidas e fundamentadas. O Lemov defende planejar o que se pergunta com base em objetivos, sem deixar solto. É o princípio, por exemplo, da técnica seis, Comece Pelo Fim, em que o professor deve planejar todo o seu curso a partir do que pedirá na avaliação, elaborada com base no que os alunos deverão ter aprendido até o final do curso. A partir daí é que se estruturam as atividades, não o contrário. O livro traz propostas didáticas, não pedagógicas, mas no Brasil esses conceitos estão misturados. O Lemov corre o risco de ser considerado alguém que quer formar “bitolados” e considera o professor um mero transmissor de conteúdo.

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